Empresa de três funcionários negociou US$ 6 bi em vacinas


(Reprodução)

Existe uma empresa com apenas três funcionários que negocia contrato de mais de R$ 30 bilhões para a venda de vacinas contra a covid-19? Essa empresa é a Davati Medical Supply, que propôs a venda de 400 milhões de doses da vacina da AstraZeneca ao Ministério da Saúde, um negócio que poderia chegar a US$ 6 bilhões. Além de ser uma pequena empresa com três funcionários, seu faturamento anual não passa de pouco mais de US$ 266 mil.

Aberta em junho de 2020, a Davati Medical funciona no mesmo endereço em Austin, no Texas, onde estão registradas uma incorporadora imobiliária, a Impact Developers, e uma representante de produtos de construção, a Davati Building Products.

A Davati afirma em seu site, que chegou a ser tirado do ar nos últimos dias, que vende vacinas, anestésicos como propofol e até o antiviral remdesivir, usado em pacientes hospitalizados com covid.

“Por causa da grande experiência de nossa equipe em produção e administração de logística no mundo todo, a Davati Medical Supply consegue fornecer produtos onde outros fornecedores não conseguem”, diz o site.

Em entrevista à Folha na última quinta-feira (1º), Luiz Paulo Dominguetti Pereira, que se apresenta como representante da empresa Davati Medical Supply, afirmou que recebeu de Roberto Ferreira Dias, diretor de Logística do Ministério da Saúde, pedido de propina de US$ 1 por dose em troca de fechar contrato com o governo.

Apesar do dono da Davati, Hernan Cardenas, negar que houve negociação com o ministério, e-mails obtidos pelo jornal mostram que houve, sim, resposta positiva do ministério, ao contrário do que afirma Cardenas.

“Prezados, este ministério manifesta total interesse na aquisição das vacinas desde que atendidos todos os requisitos exigidos. Para tanto, gostaríamos de verificar a possibilidade de agendar uma reunião hoje, às 15h., no departamento de Logística em Saúde”, diz email enviado pelo departamento de logística a Cardenas no dia 26 de fevereiro.

Em outro e-mail, Roberto Dias diz a Cardenas que, como discutido na primeira reunião, “precisamos de uma carta do representante ou algum documento que mostre a Davati Medical como representante da Astra Zeneca. Depois disso, podemos ir em frente, uma vez que essa proposta comercial parece boa diante de outras recebidas até agora”.

A AstraZeneca afirmou, em nota dirigida à Folha, que “não disponibiliza a vacina por meio do mercado privado ou trabalha com qualquer intermediário no Brasil. Todos os convênios são realizados diretamente via Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e governo federal”.

Em nota oficial divulgada após a denúncia vir à tona no Brasil, a Davati afirmou ser apenas um distribuidor internacional de remédios e vacinas não para covid. “Não somos distribuidores autorizados da AstraZeneca, e nunca dissemos que éramos”, diz a nota.

Ainda segundo o texto, a empresa atualmente não distribui nenhuma das vacinas contra Covid existentes no mercado, mas “recebemos pedidos de nossos clientes para que tentássemos encontrar fornecedores de vacinas de Covid-19″.

A mesma empresa negociou a venda de milhões de vacinas para várias prefeituras no Brasil.

A Davati já se envolveu em problemas no Canadá em março deste ano, ao tentar vender 6 milhões de doses de vacina da AstraZeneca para reservas indígenas a um custo de US$ 21 milhões.

A AstraZeneca afirma que não há “venda ou distribuição” de sua vacina para o setor privado e que está investigando vendas ilegais.

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