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Enfrentar EUA é a forma certa de apoiar palestinos, diz Putin

Por Cíntia Xavier Dias

(Correspondente-colaboradora do TODA PALAVRA na Rússia)


Moscou - Na noite do dia 29 de outubro, centenas de manifestantes apareceram no aeroporto de Makhachkala, capital do Daguestão, após serem informados, mediante um canal no Telegram, de que um suposto voo partiria de Tel Aviv em direção à cidade. A população da república do sul da Rússia foi dragada pela manipulação informacional para a guerra que acontece no Oriente Médio, onde forças israelenses avançam sobre o território palestino na Faixa de Gaza, deixando um número excessivo de civis mortos e feridos.



RAMAZAN RASHIDOV/TASS

Conforme relato das autoridades governamentais russas, a legítima indignação da população do Daguestão diante da escalada de violência no Oriente Médio foi alvo de manipulação por agentes estrangeiros. O propósito seria fomentar a hostilidade entre os diversos grupos étnicos e religiosos na Rússia, minar a coesão nacional, prejudicar a reputação do país no cenário internacional e agravar as relações já tensas com o Estado de Israel.


No decorrer do evento, provocadores instigavam a população a evitar negociações pacíficas com as forças policiais, estimulando a escalada da violência. Ao mesmo tempo, o canal incitava os manifestantes a bloquearem veículos que deixavam o aeroporto. Conforme informações obtidas pelo portal Коммерсантъ de uma testemunha ocular: “Havia a percepção de que alguém estava coordenando a manifestação, assegurando que a intensidade não diminuísse.”


O líder do Daguestão, Sergei Melikov, rotulou os eventos como "vergonhosos" e destacou a coordenação de agentes estrangeiros por meio das redes sociais para instigar ódio e distúrbios. Melikov afirmou que "as tentativas de desestabilizar a situação no Daguestão, incluindo o uso de métodos proibidos associados ao incitamento ao ódio étnico e a problemas inter-religiosos, estão sendo realizadas por nossos inimigos, oponentes do nosso país", conforme relatado pelo Коммерсантъ.


O Daguestão, de maioria muçulmana, também abriga a comunidade judaica da montanha, dispersa pelo Cáucaso. A diversidade étnica, cultural e religiosa da região foi destacada pelo presidente Putin em seu pronunciamento sobre os acontecimentos em Makhachkala:


"Os eventos foram instigados pelas redes sociais, inclusive a partir do território da Ucrânia. (...) Nada justifica o bombardeio de centenas de milhares de civis inocentes em Gaza. (...) Não podemos nos deixar levar pelas emoções; é preciso avaliar realisticamente quem está por trás da tragédia no Oriente Médio — os Estados Unidos e seus aliados. (...) Podemos ajudar a Palestina atacando os Tats (judeus da montanha), que são a nação titular do Daguestão? Só podemos auxiliar a Palestina enfrentando aqueles verdadeiramente responsáveis por essa tragédia."


O líder da Chechênia, Ramzan Kadyrov, por sua vez, repudiou os eventos em seu canal no Telegram, classificando-os como “inaceitáveis”: “Não devemos seguir o exemplo dos inimigos da Rússia, minando a situação internamente. Não é adequado realizar comícios, destruir aeroportos em busca de pessoas de nacionalidade judaica e apelar à violência. Devemos estar acima de tudo isso e manter a ordem em nossa terra. Tais ações são inaceitáveis em qualquer circunstância e serão reprimidas com severidade.”


Esse não foi o único incidente na última semana de outubro. Em 28 de outubro, conforme o portal Новости Москвы (MSK1), surgiram informações falsas em canais do Telegram, alegando que israelenses buscando refúgio dos conflitos no Oriente Médio haviam se hospedado no Hotel Flamingo, na cidade de Khasavyurt, localizada a duas horas da capital do Daguestão. A propagação de notícias falsas resultou na aglomeração de cerca de 200 pessoas em frente ao hotel, protestando contra a suposta presença de israelenses. Com a rápida intervenção da polícia e a confirmação de que não havia civis israelenses no local, a manifestação se dispersou.


Na véspera de 30 de outubro, conforme relatado pelo portal Коммерсантъ, informações falsas se espalharam por outra república da Federação Russa. As autoridades da Inguchétia, localizada no norte do Cáucaso, ficaram em estado de alerta diante da propagação de mensagens incitando a população a se dirigir ao Aeroporto de Magas, na capital da república, devido a um suposto voo vindo de Israel. No entanto, de acordo com o Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB), o Aeroporto de Magas não opera voos internacionais.


Na Chechênia, o líder da República informou que tentativas de provocações semelhantes foram contidas na região, de acordo com informações da РИА Новости.


A tática da guerra psicológica


Segundo autoridades do governo russo, os recentes distúrbios, particularmente os incidentes no Aeroporto de Makhachkala, foram desencadeados por informações falsas e apontam para interferência externa, conforme destacou o secretário de imprensa presidencial, Dmitry Peskov. Em resposta aos eventos, o governo anunciou a intenção de adotar medidas para conter interferências nos assuntos internos e frustrar tentativas de criar divisões na diversidade étnica, cultural e religiosa da Federação Russa.


Conforme a literatura especializada, o conceito de "guerra psicológica" ou "guerra de informação" pode ser compreendido como uma "forma de conflito que se concentra na influência das percepções, crenças e emoções das pessoas para atingir objetivos estratégicos".


Essa definição alinha-se com a conceituação de “Psico Op” do Exército Brasileiro, que a descreve como "procedimentos técnicos especializados, operacionalizados de forma sistemática, para apoiar a conquista de objetivos políticos e/ou militares, desenvolvidos antes, durante e após o emprego da Força, visando motivar públicos-alvo, amigos, neutros e hostis, a adotar comportamentos desejáveis".


A guerra psicológica, portanto, visa direcionar a opinião pública, minar a moral do inimigo e influenciar o comportamento por meio de táticas psicológicas, como propaganda, disseminação seletiva de informações, manipulação da mídia, campanhas de desinformação e estratégias voltadas para impactar a psique das pessoas alvo da ação. O intuito é estabelecer uma vantagem estratégica, explorando a percepção e a cognição humanas para alcançar resultados favoráveis.


Dentro desse contexto, o canal "Manhã do Daguestão" foi responsável por disseminar a informação sobre o suposto voo e por instigar a população a se dirigir ao aeroporto na capital do Daguestão. O canal, alegadamente "pró-muçulmano", já havia incitado o ódio e o separatismo anteriormente, propagando notícias falsas sobre a operação militar na Ucrânia e incentivando a população da república no sul da Rússia a se rebelar contra a federação.


Um dos organizadores do canal, conforme afirmado anteriormente em entrevista, é Ilya Ponomarev, ex-deputado da Duma que deixou o país e atualmente reside na Ucrânia. Ilya opera em colaboração com os serviços de inteligência ucranianos, liderando redes de propaganda anti-Rússia especializadas em atingir públicos específicos na Federação. Além dele, um cidadão de 43 anos do Daguestão, associado a radicais islâmicos e nacionalistas ucranianos do Batalhão Azov, que atualmente reside em Istambul, também estava envolvido na coordenação do canal.


Conforme relato da agência Известия, o canal "Manhã do Daguestão" era vinculado ao Centro Ucraniano de Informação e Operações Psicológicas (CIPSO), que mantém uma rede de 17 canais semelhantes, contando com uma audiência de 500 a 20 mil assinantes.


O propósito do "Manhã do Daguestão" foi manipular o sentimento da população local, fomentar distúrbios por meio de sabotadores infiltrados e disseminar uma imagem distorcida para a comunidade internacional. Isso inclui a falsa representação de que a Rússia tolera episódios de antissemitismo, além de contribuir para a narrativa ocidental mais polarizada, sugerindo uma relação próxima entre a Rússia e o Hamas, para o público ocidental, e uma relação próxima entre as autoridades russas e o sionismo, para a população russa muçulmana.


Logo após os eventos, o presidente ucraniano, Vladimir Zelensky, rapidamente tirou suas conclusões sobre o ocorrido. Nas suas redes sociais, o presidente afirmou que “O antissemitismo russo e o ódio a outros povos são sistêmicos e profundamente enraizados”. Os Estados Unidos seguiram a mesma linha ao comparar o incidente no aeroporto "aos pogroms do século XIX durante o Império Russo". Conforme o coordenador de comunicações estratégicas (AFP) do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, John Kirby, "Algumas pessoas comparam isso aos pogroms do final do século XIX e início do século XX, e penso que esta é provavelmente uma descrição adequada", segundo relato do Коммерсантъ.


O embaixador da Federação Russa nos Estados Unidos, Anatoly Antonov, reafirmou que "Quaisquer tentativas dos EUA de minar a ordem constitucional na Rússia, bem como a harmonia interétnica e inter-religiosa, estão fadadas ao fracasso". Segundo relatado pela РИА Новости, ele caracterizou a "reação ácida" da administração americana e da mídia local aos eventos em Makhachkala como "uma tentativa de minar a unidade étnico-confessional".


O canal foi bloqueado no mesmo dia dos eventos pelo proprietário do Telegram, Pavel Durov, devido a "apelo à violência e violação das regras do mensageiro". Mais de 200 pessoas foram detidas pela polícia, e o Ministério da Administração Interna instaurou 155 protocolos administrativos, como informado pelo serviço de imprensa. Aproximadamente 17 pessoas enfrentam acusações relacionadas à violação do procedimento estabelecido para organização e realização de comícios.


Com informações de РИА Новости, Коммерсантъ, Новости Москвы (MSK1) e Известия.

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