Engenharia solidária: soluções para a habitação popular

Por Tabita Said, Jornal da USP


Construir caminhos entre a formação acadêmica e a realidade popular. Abraçar projetos que possibilitem a oportunidade de liderar. Dialogar com diferentes grupos e coletivos na aplicação de soluções sociais, tecnológicas e ambientais. São apenas alguns dos propósitos do Escritório Piloto (EP), um laboratório interdisciplinar de projetos de extensão universitária ligado ao Grêmio Politécnico da USP.

Escritório Piloto / Divulgação

O EP foi fundado em 1953 com função didática e uma gestão mais centrada na figura de docentes da Escola Politécnica (Poli) da USP. Em 1955, começou a realizar trabalhos técnicos em caráter assistencial e sob o modelo de um escritório profissional de engenharia. Desde a década de 1990, porém, vem se consolidando como uma iniciativa de extensão popular, que utiliza o conhecimento proporcionado pela Universidade para desenvolver projetos de cunho social em conjunto com a sociedade de baixa renda.


O conceito de extensão utilizado nos projetos é o de Paulo Freire, no qual a experiência vivida gera troca de conhecimento, sem imposição de hierarquia. Para além de cálculos e execuções, os integrantes buscam incrementar o desenvolvimento humano e econômico das comunidades em que atuam de maneira participativa, aprendendo sobre aquela realidade e adaptando novas formas de pensar soluções.


"O Escritório Piloto se consolida como um laboratório aberto, disponível para aplicação de ideias voltadas ao meio social, agregando valor para a universidade pública. Sabemos que alguns alunos chegam aos últimos anos sem nenhuma experiência de liderança. O EP também é um espaço para que as pessoas tenham esta oportunidade, de serem líderes”, explica Lucas Costa, atual diretor do Escritório Piloto


Extensão e comunicação


Levando na bagagem o projeto de reforma e urbanização do Conjunto Residencial da USP (Crusp), em São Paulo – considerado o primeiro projeto de retrofit do Brasil -, o escritório contabiliza uma série de trabalhos na área da habitação popular. Entre eles, a requalificação de cortiços da ocupação da Rua do Ouvidor e o projeto de reabilitação do prédio ocupado por movimentos de moradia na Rua Mauá, 340, ambos no centro histórico de São Paulo.


O projeto de recuperação do Crusp, realizado em 1984, foi considerado ousado. Embora tivesse apoio e orientação de professores, o trabalho era concebido por estudantes. Entre eles, o professor Silvio Melhado, aluno do último ano de Engenharia Civil, na época.

Silvio Melhado / PoliUsp

"O nosso projeto era excelente. Eu tenho plena convicção de que era, em todos os aspectos: de engenharia, arquitetura. Tínhamos muita orientação dos professores e o que não tínhamos, a gente ia buscar na arquitetura, nas ciências sociais... Para você ter uma ideia da complexidade do projeto, fizemos mais de 400 entrevistas com os estudantes que estavam ocupando o Crusp. Nossa ideia era ir ao limite do possível”, conta Silvio Melhado, professor sênior da Escola Politécnica da USP.


Atualmente professor agregado na École de Technologie Supérieure (ÉTS-Montréal), no Canadá, o engenheiro conta que iria se formar antes da finalização do projeto. Para permanecer como estagiário até a entrega, ele se matriculou em uma disciplina optativa e estendeu sua permanência na faculdade. “Foi uma medida extrema de paixão pelo tema”, diz.


Segundo Melhado, a solução que os estudantes encontraram para enfrentar a falta de recursos e ainda superar os riscos de incêndio elevou o Escritório Piloto a um status de competência na área civil.


“Essa foi a concepção original do professor Ariosto Mila, que viabilizou a existência do EP, conseguindo um registro no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) vinculado ao dele próprio”, informa ele.


Multidisciplinar


Próximo dos 70 anos, o escritório segue se reinventando e atualmente deseja concretizar uma imagem interdisciplinar. A mais nova empreitada procura grupos de fora da USP que possam ajudar a desenvolver habilidades socioemocionais e competências mentais para alunos da Universidade em situação de vulnerabilidade social.


Lucas Costa / PoliUsp

“O estudo é gratuito, mas nem sempre se consolida como um ensino público. O aluno que entra por cotas é uma minoria difícil de ser enxergada. Por mais que receba bolsas da USP, há uma enorme evasão de alunos que não conseguem conciliar os estudos com a necessidade de trabalhar. Não conseguem estagiar ou entrar em algum dos inúmeros grupos de extensão. Muitos destes grupos elaboram um processo seletivo muito grande e exigem habilidades cognitivas que a pessoa nunca desenvolveu”, diz Lucas Costa, que é aluno do curso de Engenharia Ambiental.


Ele explica que o EP não faz processo seletivo, mas aposta em gerir projetos de qualquer estudante interessado em participar. Apesar do título de diretor, Lucas ressalta que a gestão é totalmente horizontal e compartilhada com os coletivos que integram o laboratório. O grupo define o local como historicamente atrativo de um público disposto a pensar criticamente, além de configurar um espaço de resistência na Poli, notório por abrigar minorias. Equidade racial, de gênero e diversidade sexual são temas transversais dos projetos.


Para Silvio Melhado, o tempo desfavoreceu o papel do escritório perante os docentes. Ele acredita que os professores deveriam ser o elo de continuidade dos projetos do EP para novos alunos.


“A ideia de ter um escritório de engenharia para a prática profissional dos estudantes é maravilhosa. E o viés social do EP é uma motivação fundamental na formação das pessoas, no exercício da cidadania e no papel de uma universidade pública”, defende.


Há três anos, ele fundou com um grupo de alunos o projeto Héstia 33, para retomar as atividades de habitação popular no Escritório Piloto. O projeto pretende atuar em habitações precárias de ocupações e teve o apoio da Pró-Reitoria de Graduação, por meio do edital Aprender na Comunidade.


Conectados


O Escritório Piloto segue ativo durante a pandemia, apesar do distanciamento físico. Por meio de encontros virtuais, os grupos fazem estudos temáticos e revisão bibliográfica. Lançaram ainda o Move EP, um grupo sobre mobilidade urbana com discussões em um grupo de WhatsApp.


Recentemente participaram da iniciativa Diálogos da Extensão Popular, um ciclo de debates promovido por coletivos de extensão de diversos institutos da USP para fomentar a discussão sobre extensão popular universitária. A organização envolveu nove coletivos da USP e gerou um ciclo de formação para democratizar o conhecimento técnico de mão dupla.


No campo da tecnologia, participa o PoliGNU, grupo de desenvolvimento de software livre da USP, do qual deriva a Poligen, coletivo feminista pela entrada e permanência de mulheres na engenharia. O coletivo mantém um programa de mentoria para mulheres e promove aulas preparatórias de matemática e física para bixos. Em parceria com o cursinho popular da Poli, as aulas atendem alunos que ingressaram na Poli com alguma defasagem em matérias e assuntos que envolvem a base do cálculo.


Na primeira mesa do ciclo, a Professora Emérita da USP Marilena Chauí foi convidada para discutir a produção de conhecimento como ferramenta da emancipação social. De acordo com a professora, é preciso formar uma sociedade do conhecimento para vencer o que chamou de “emparedamento” da universidade operacional.


Conheça os coletivos que integram o Escritório Piloto


AgroEco - Grupo de extensão popular universitária com foco em agroecologia e bem-estar social


Enactus - Entidade estudantil uspiana voltada ao empreendedorismo social e empoderamento


Move EP - Grupo de extensão sobre mobilidade urbana, segregação espacial e desigualdade


PoliGNU - Grupo de estudos de software livre e discussões de gênero nos meios tecnológicos


PoliGen - Coletivo feminista pela entrada e permanência de mulheres nas engenharias


PoliNegra - Coletivo de estudantes negras e negros com o objetivo de debater sobre pautas raciais


PoliPride - Frente pela diversidade sexual e de gênero para acolher e integrar a comunidade LGBTQIAP+




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