Estudantes revivem no Rio a "Passeata dos cem mil"

Centenas de milhares de estudantes ocuparam as principais ruas do Centro do Rio de Janeiro nesta quarta-feira, 7, no maior ato estudantil em defesa da democracia no Brasil desde a "Passeata dos cem mil", em 1968, contra a ditadura militar, e as grandes manifestações pela "Anistia" (1978-1979) e pelas "Diretas Já" (1984).
Estudantes universitários e secundaristas de várias instituições de ensino fluminenses transformaram a Avenida Rio Branco em um mar de gente, da Candelária à Cinelândia, levantando bandeiras contra o fascismo e em defesa da soberania nacional, representadas pela candidatura à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), derrotado no primeiro turno das eleições presidenciais do último domingo, 4, por uma diferença de menos de 2% dos votos, pelo candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro.

A manifestação no Centro do Rio foi o ápice de um movimento iniciado em Niterói pelos alunos da Universidade Federal Fluminense (UFF) menos de 24 horas depois da realização do primeiro turno das eleições e que já vem contagiando estudantes de todo o país. Na terça-feira, 5, os estudantes da UFF voltaram às ruas de Niterói, sendo seguidos por camaradas da Bahia, Pernambuco, Paraná e Amazonas. Nesta quarta-feira, além do grande ato no Rio, manifestações também foram realizadas em São Paulo, Alagoas, Amazonas, Pará, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Bahia e Paraná.
De quinta-feira, 8, até o dia 13, outros 19 atos estão programados, partindo de universidades de várias cidades do Brasil, segundo divulgação do presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), Rogean Vinicius Santos Soares, um dos responsáveis pela divulgação da agenda (veja a lista adiante).

Estopim em Niterói
O estopim do movimento foi o Centro Acadêmico Evaristo da Veiga (CAEV), da Faculdade de Direito da UFF, que começou a se mobilizar logo após o resultado do primeiro turno eleitoral e marcou, junto com outras entidades estudantis, uma manifestação para o dia seguinte, segunda-feira (5) à noite. Mais de mil estudantes saíram às ruas dos bairros do Ingá, onde fica a Faculdade de Direito, e Icaraí, na Zona Sul de Niterói, cidade que nunca teve um governo de direita desde a redemocratização do Brasil (vem sendo governada desde então principalmente pelos trabalhistas do PDT, alternando com governos patistas).
No dia seguinte, terça-feira, 6, alunos da UFF marcaram uma nova concentração, desta vez no Campus do Gragoatá, e novamente tomaram as ruas da cidade. Desta vez, em número ainda maior, de alguns milhares, seguiram em passeata até o Centro, onde realizaram um ato na Praça Arariboia, em frente à estação das barcas que fazem a ligação hidroviária de Niterói com o Rio.

"Flávio Bolsonaro na lata do lixo"
O ato desta quarta-feira foi iniciado no entorno da Igreja da Candelária, desde meio-dia começou a formar-se uma imensa concentração de estudantes de várias universidades e escolas secundaristas, que tomou conta dos primeiros quarteirões da Avenida Presidente Vargas e da Avenida Rio Branco. De lá os estudantes saíram em passeada em direção à Cinelândia. O adensamento era tão grande que, enquanto as primeiras alas da manifestação já se aproximavam do final da avenida, as últimas ainda permaneciam na Candelária, formando uma massa compacta de manifestantes ao longo de toda via.

Palavras de ordem eram gritadas em coro em defesa da soberania nacional, contra o fascismo e em apoio ao presidente Lula. Do alto de um carro de som, oradores se revezavam, entre eles uma moça que anunciou, para delírio dos manifestantes, que os estudantes iriam "jogar Flávio Bolsonaro na lata do lixo".
Entre as principais bandeiras também estavam a defesa do ensino público gratuito, da autornomia e ampliação das universidades federais e dos mecanismos de financiamento do ensino superior criados por Lula, como o Fies. "Trabalhador, venha pra cá, estou na rua pro seu filho estudar" era uma das palavras de ordem. Outra pauta defendida pelos estudantes é a do fim da jornada de trabalho 6x1 proposto pelo presidente Lula e que está em processo de votação no Congresso Nacional.

Ameaça à democracia
Ao longo de todo o trajeto a manifestação recebia apoio de trabalhadores das lojas e do alto dos edifícios da Avenida Rio Branco, que acenavam, aplaudiam, faziam o "L" de Lula e entoavam as palavras de ordem junto com os estudantes. O ato também recebeu apoio de grupos como o dos "Jornalistas pela democracia".

Estudante de direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Paulo Victor de Almeida Coelho, disse que defende a eleição de Lula para que a juventude tenha um futuro melhor.
“Nós queremos mais investimentos, condções para que todos possam estudar e se formar em uma faculdade pública”, disse.
“Estamos na luta porque vimos o que foi o governo Bolsonaro. Foi um governo de cortes, um governo onde as pessoas estavam sendo massacradas, passando fome, tendo direitos perseguidos. Por isso, estamos na rua”, disse.
A estudante Raissa Bispo, de 21 anos, cursa Design na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela defendeu o voto em Lula por entender que Flávio Bolsonaro representa uma ameaça à democracia.
“Ele próprio declarou ontem que quer mudar a Constituição, o que é uma ameaça para a gente, é uma ameaça para os nossos direitos. Importante a gente estar aqui para lutar pela soberania e lutar pelos nossos direitos”, afirmou.
Apoio internacional
As manifestações estudantis iniciadas segunda-feira, em Niterói, estão tendo repercussão internacional e receberam o apoio do Movimento Internacional da Juventude pela Paz através do Desenvolvimento, do Instituto Schiller, (https://youth.schillerinstitute.com/), que enviou na terça-feira, 6, uma "mensagem aos jovens do Brasil, que estão se mobilizando para garantir a reeleição do presidente Lula da Silva". O comunicado diz:
"O Brasil encontra-se em uma encruzilhada histórica, assim como todo o Sul Global. Quinhentos anos de ordem colonial estão chegando ao fim, e nós, membros do Movimento Internacional da Juventude do Instituto Schiller, nos unimos à juventude brasileira na exigência de um novo e justo paradigma mundial.
Os brasileiros precisam de um governo que trabalhe e invista em seu povo. O presidente Lula da Silva representa um compromisso comprovado ao desenvolvimento econômico com inclusão social, tanto para o Brasil quanto para o mundo. O firme apoio de Lula aos países do BRICS+ conferiu ao Brasil autonomia estratégica, abriu novos mercados, e garantiu investimentos vitais para o desenvolvimento, sem se submeter aos ditames coloniais ultrapassados do FMI e dos grandes bancos. Perder essa visão agora seria um retrocesso histórico. Lula construiu pontes com o Sul Global, fortalecendo sua voz. Seu forte foco no combate à pobreza e à fome é essencial.
Para que o Brasil, o Sul Global, e a humanidade prosperem, precisamos de uma nova arquitetura internacional de segurança e desenvolvimento, que seja mutuamente benéfica para todos os participantes (win-win) – e que ponha fim de forma definitiva à austeridade e aos ataques à soberania que Wall Street e a City de Londres estão impondo mundo afora."


O que foi a "Passeata dos cem mil"
A Passeata dos Cem Mil foi uma manifestação popular contra a ditadura militar brasileira. Organizada pelo movimento estudantil, ocorreu em 26 de junho de 1968, na cidade do Rio de Janeiro, e contou com a participação de artistas, intelectuais e outros setores da sociedade brasileira.
Agenda de mobilização estudantil
A agenda de mobilização dos estudantes - entre atos já realizados e os que estão programados até agora - em apoio à reeleição do presidente Lula é a seguinte:
Já realizados
5 de outubro
RJ: UFF – Faculdade de Direito, às 19h
DF: UnB, UDF, UnDF e IFB, encontro virtual, das 19h30 às 20h30
6 de outubro
RJ: Unirio, às 14h; UFRJ – Faculdade Nacional de Direito, às 18h; UFF, às 18h30
BA: UEFS, às 15h30, na Praça do Borogodó; UFRB – Cruz das Almas, às 19h; UFSB – Eunápolis, às 20h
PE: UFPE – Recife, às 17h; UFPE – Caruaru, às 18h
PR: UEM – Maringá, às 18h30, no Auditório Ney Marques, bloco D03
AM: UFAM – Parintins, às 19h, no Hall do ICSEZ
Próximas mobilizações
7 de outubro
SP: Mackenzie, às 9h30 e 19h30
RJ: ato estudantil, às 12h, com concentração na Candelária e caminhada até o Colégio Pedro II, no Centro
AL: UFAL, às 14h
AM: IFAM – Campus Manaus Centro, às 15h, no CDI; UFAM, às 16h, no Hall da FCA
PA: UFPA, às 16h; UEPA, às 16h, no Hall do CCSE
PE: UPE, às 17h; UFRPE – sede, às 17h
RS: UFRGS, às 17h30
BA: UFBA, às 18h, no PAC
PR: UTFPR – Curitiba, às 19h; Unicentro, às 19h; UFPR – pós-graduação, às 19h
Programados
8 de outubro
DF: UDF, às 11h30 e 18h30; UnB, às 12h e 18h
TO: UFT, às 16h
AM: UEA, às 16h, no Hall da ENS
MA: UFMA, às 16h, na Ágora do CCH
PI: UFPI – Teresina, às 16h, na Praça da Filosofia, CCHL
MG: UFMG, às 17h; UFJF, às 18h
SP: USP, às 17h; UFABC, às 18h
RS: Unisinos, às 17h30; UFSM, às 18h
SE: UFS, às 18h, na entrada da universidade
PE: UFRPE – UACSA, horário não divulgado
Virtual: IF Faz Tudo, às 18h30
9 de outubro
MG: ato “Estudantes contra Flávio Bolsonaro”, às 17h, na Praça Afonso Arinos, em Belo Horizonte
RS: FURG, às 18h
MA: UEMA – São Luís, às 18h, no Auditório do CCSA
PR: UEPG, às 19h
PE: UFRPE – UABJ, horário não divulgado
10 de outubro
PE: UFRPE – UAST, horário não divulgado
13 de outubro
BA: Feira de Santana, às 16h, em frente ao Colégio Gastão
RJ: UFRJ – Fundão, às 18h
Com informações da Mídia Ninja e Agência Brasil










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