Ex-médico da Prevent relata fraudes e fake de Bolsonaro


Médico Walter Correa relatou pressão para prescrever 'kit covid' e tratamento paliativo (Foto: Pedro França/A.Senado)

Em depoimento à CPI da Covid nesta quinta-feira (7), o médico Walter Correa de Souza Neto afirmou que os médicos da Prevent Senior sabiam que o tratamento de pacientes da covid-19 com hidroxicloroquina não trazia os resultados prometidos e divulgados pela direção da operadora de saúde. Ex-médico da operadora de saúde, Walter Correa classificou como “fraude” o estudo desenvolvido pela empresa para justificar a prescrição da droga. Ele confirmou também que houve pressão pelo uso do "kit covid", defendido pelo governo Bolsonaro.

A Prevent enfrenta graves denúncias por supostas irregularidades cometidas durante a pandemia.

"Essa coisa de que ninguém vai a óbito e ninguém intuba, isso já era muito claro: a gente sabia que era fraude. Além de o estudo ser muito ruim já quando foi publicado em abril, eu internava paciente que havia tomado o kit. Eu acompanhava esse paciente depois pelo prontuário durante a internação e via esses pacientes irem a óbito. Mas eles [Prevent Senior] continuaram fazendo essa política de 'evangelização' de prescrever a medicação e às vezes induziam os médicos ao erro também", afirmou.

O relator Renan Calheiros (MDB-AL) lembrou que o presidente Jair Bolsonaro chegou a publicar em redes sociais resultados do tratamento precoce que vinha sendo feito pela Prevent Senior. Numa dessas postagens, em 28 de abril, Bolsonaro afirmou que não tinha havido nenhum óbito na Prevent naquele dia, o que foi desmentido pelo médico Walter Correa de Souza Neto. O relator classificou a informação como mais uma fake news do chefe do Executivo. 

Walter Correa, que confirmou a existência de “protocolo institucional” da Prevent Senior para emissão de prescrições padronizadas do kit covid, a operadora de saúde começou a agir contra o “somatório de evidências”, expresso em pesquisas científicas, que negava os benefícios da hidroxicloroquina.

"A resistência à prescrição foi crescendo com o tempo. Na medida em que as evidências se acumulavam, mostrando que não havia benefício, a resistência foi aumentando. Eu fui coagido a voltar a prescrever quando eu parei", disse.

Bolsonaro pode ter influenciado pacientes

Questionado pelo relator se as declarações do presidente da República sobre o "kit covid” podem ter influenciado pacientes, o médico Walter Correa de Souza Neto disse que sim. Anteriormente, Renan exibiu vídeos em que Bolsonaro estimula o uso de medicamentos como cloroquina e hidroxicloroquina.

"Pode induzir as pessoas ao erro. É uma desinformação que pode fazer com que as pessoas deixem de tomar outras medidas. Acreditando que há um tratamento inicial eficaz, podem deixar de se proteger, evitar vacinas e outras condições que podem acabar levando a pessoa ao óbito", afirmou o médico.

Obrigado a retirar máscara

O médico relatou que a falta de autonomia dos profissionais na Prevent Senior era tanta que não tinham autonomia nem para proteger a própria vida. Ele contou que, em certa ocasião, no início da pandemia, chegou a ser obrigado a retirar a máscara para não assustar os pacientes. Segundo o médico, a ordem partiu da Dra. Paola, a mesma que havia dito "prescreva cloroquina pra quem espirrar. Espirrou, dá cloroquina nele", numa troca de mensagens apresentada à CPI pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da comissão, na reunião de quarta-feira. 

'Paliativismo' e 'Auschwitz'

Walter Correa também criticou a decisão da Prevent Senior de incluir na equipe de enfermaria dos hospitais um profissional paliativista. O tratamento paliativo deve ser adotado apenas em pacientes que não têm perspectiva de cura. Questionado por Otto Alencar (PSD-BA), o médico classificou como “macabra” a decisão da operadora de saúde.

"A Prevent não é Auschwitz. Não é todo mundo que eles vão "paliar". Mas às vezes, pela gerência de recursos que é extremamente rígida, isso muitas vezes induz o médico ao erro. É um erro que a gente costuma ver acontecer com uma certa frequência. Nem sempre intencional, mas essa cultura provoca isso. Você colocar um paliativista no pronto atendimento é uma coisa que provavelmente vai levar a decisões precipitadas ou pressões. É meio macabro, na minha visão", disse.

Hino 'nazista' com mão no peito

Randolfe Rodrigues apresentou na CPI uma gravação com o chamado "Hino dos Guardiões", que era executado no hospital da Prevent Senior. Para Randolfe, o hino e o lema "lealdade e obediência", emulam as SS, a polícia nazista. O senador fez uma série de perguntas ao médico Walter Correa sobre práticas da Prevent Senior, como fazer os "guardiões" (chefes de plantão) cantarem um hino com a letra:

Nascemos para trilhar

Um caminho a desbravar

Nascemos para viver

De lutas até morrer

E juntos nós estaremos

E juntos nós venceremos

Com espadas e com canhões

Nós somos os guardiões


Walter Correa confirmou que em uma ocasião teve que cantar o hino, em uma reunião dos guardiões, de pé e com a mão no peito.

'Eles pagarão muito caro por seus crimes', diz Renan

Renan Calheiros disse que os responsáveis pelo agravamento da pandemia de coronavírus no Brasil “pagarão muito caro por seus crimes”. O relator da CPI fez um balanço dos mais de 160 dias de trabalhos da comissão e criticou a ação de integrantes do governo federal durante a crise sanitária provocada pela covid-19.

"Estamos perto de 600 mil mortes. Um dos piores percentuais de letalidade no mundo. Uma triste necrópole. Vítimas indefesas da estupidez do governo federal. No que depender deste relator e desta CPI, eles pagarão muito caro por seus crimes", afirmou.

Renan Calheiros disse que a comissão de inquérito “cumpriu seu papel”. Ele destacou que, no início dos trabalhos, apenas 6,6% dos brasileiros tinham a imunização completa. Hoje mais de 45% têm as duas doses da vacina.

"Esta CPI já deu certo. Evitamos a corrupção na aquisição de vacinas, forçamos a aceleração da vacinação, retiramos o governo da abulia mortal e soterramos o negacionismo medieval. Muitos tentaram rebaixar essa CPI. Esse debate nunca foi político. Sempre se deu em torno da defesa de valores civilizatórios, opondo opções elementares entre o bem e o mal", afirmou.


Com a Agência Senado


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