Família de Flordelis precisa de um novo resgate

Por José Messias Xavier


Uma das filhas adotivas, de 15 anos, se automutilou após ser ameaçada de morte e chamada de "lixo" pela 'mãe"

Um assassinato, por si só, é terrível. Mas há outros fatos chocantes no caso Flordelis dos Santos de Souza/Anderson do Carmo. Durante décadas, a deputada federal e seu marido alimentaram um emaranhado de vidas cruzadas, recolhendo das ruas, segundo eles, crianças e mesmo bebês em situação de risco. Deram a eles um teto, é bem verdade, mas o que ocorria entres as paredes desse verdadeiro castelo de areia construído pelo casal transbordou para o mundo exterior, primeiro no desenrolar das investigações sobre a morte do pastor, e agora no decorrer do julgamento do crime na 3ª Vara Criminal de Niterói, sob comando da juíza Nearis dos Santos Arce.


A começar pelo próprio relacionamento de Anderson e Flordelis. Em 24 de julho de 2019, Maria Edna Virgínio, mãe do pastor, morta por infarto em 8 de abril de 2020, prestou depoimento na Delegacia de Homicídios de Niterói (DGHNSG), quando revelou que ele tinha apenas 11 anos, quando a deputada começou a ir à sua casa atrás de seu filho, para que ambos pregassem juntos o evangelho em comunidades carentes.


Na época, ainda segundo Maria Edna, Anderson iniciou um namoro com a filha biológica de Flordelis, Simone dos Santos Rodrigues. Em 1993, o pastor, então com 14 anos, e a missionária, de 32 anos, formalizaram a relação como marido e mulher. Ele já habitava a casa onde a futura deputada morava com a mãe, Calmoniza Motta dos Santos, no Beco do Guarani, 29, na Favela do Jacarezinho, Zona Norte do Rio.


Divorciada de Paulo Rodrigues Xavier, com quem teve três filhos, Flordelis abrigava ainda cinco crianças, retiradas, segundo ela, de situação de extrema miséria. Casados, Anderson e Flordelis levaram para sua casa mais 47 jovens e crianças, totalizando um núcleo familiar com 55 membros, além do casal.


Dentro do clã, menores foram adotados legalmente ou simplesmente acolhidos, sem pedido formal à Justiça. Casais se formaram nessa imensa teia de relacionamentos e romances foram desfeitos entre eles para que se juntassem a outras pessoas do próprio grupo, gerando filhos, que também seriam sugados nessa espiral de vidas criada por Anderson e Flordelis.


No banco dos réus da 3ª Vara Criminal de Niterói temos exemplos nítidos desse enlace amoroso entre integrantes da família, agora acusados de envolvimento no assassinato do pastor: Carlos Ubiraci Francisco da Silva casou-se com Cristiana Silva (incluída no processo apenas como testemunha), ambos adotados informalmente; e Rayane dos Santos Oliveira – de acordo com testemunho de outro filho afetivo da deputada, Alexsander Felipe Mendes, foi retirada de uma mãe viciada em drogas e entregue para Flordelis, que a “repassou” para ser adotada pela filha legítima Simone dos Santos Rodrigues. Esta última casou-se e separou-se de André Luiz de Oliveira, também recolhido, sem registro legal, de outra família.


Juntam-se a eles no inquérito da Promotoria a própria Flordelis e seus outros dois filhos biológicos, Flávio dos Santos Rodrigues e Adriano dos Santos Rodrigues; Lucas Cezar dos Santos de Souza, adotado formalmente; e Marzy Teixeira da Silva, mais uma filha afetiva. Os outros réus, o ex-policial militar Marcos Siqueira Costa, já condenado a 480 anos e seis meses de prisão, e sua mulher Andrea Santos Maia, foram acusados de fraude processual por terem ajudado a deputada a forjar uma carta na qual Lucas assumiria a autoria do homicídio de Anderson.


Não é que a Justiça tenha feito vistas grossas para o que acontecia na casa de Flordelis e Anderson. Nos anos 90, o Juizado da Infância e da Juventude abriu processo contra ela por acolhimento irregular de menores, que ela chamava erroneamente de “adoções”. Mas ela já tinha um nome proeminente, como pastora e cantora gospel, na sociedade carioca e conseguiu cativar figuras importantes dos mundos político, empresarial, artístico e cultural para sua causa, captando, inclusive, recursos financeiros de pessoas bem intencionadas do naipe do sociólogo Betinho e do empreendedor Pedro Werneck. Desta forma, ela conseguiu o arquivamento de todos os processos, que lhe ameaçavam e a seus projetos futuros.


Agora, 30 anos depois, a Justiça bate novamente à sua porta, não apenas para esclarecer o assassinato do marido, mas também sua influência sobre os filhos legítimos e adotivos, que terminaram integrando o enredo do homicídio de Anderson do Carmo. Assinada pelos promotores Sérgio Luís Lopes Pereira, Simone Sibilio do Nascimento, Rômulo Santos Silva e Antônio Carlos Fonte Pessanha, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/RJ), a denúncia apresentada ao tribunal contra Flordelis traça o perfil de uma mulher manipuladora, fria, evasiva e com personalidade sociopata.


“O resultado estamos vendo nesta denúncia e na primeira denúncia referente ao homicídio em tela. Transformou filhos naturais e adotivos em criminosos; subtraiu crianças de seus genitores; declarou falsamente paternidade inexistente; arquitetou o plano e a execução do próprio marido, quando achou que ele era descartável e a incomodava mais do que ajudava; sem o menor afeto tentou através de artifícios criminosos imputar responsabilidade além da que tinha o filho adotivo Lucas”, escreveram os promotores.


As acusações do Ministério Público soam como a cobrança de uma dívida, contraída nos anos em que Flordelis reinou absoluta sobre uma família composta por pessoas que viviam em extrema necessidade em determinado período de suas vidas, foram resgatadas por ela e Anderson do Carmo e terminaram servindo a seus interesses religiosos, políticos e financeiros.


Fotografias apresentadas por Ângelo Máximo, advogado da família do pastor e auxiliar de acusação no processo, ao júri da 3ª Vara Criminal de Niterói, durante a audiência de sexta-feira (27/11), revelam, inclusive, que há a necessidade urgente de um outro tipo de resgate, além da solução de um caso criminal, no que restou do núcleo familiar, que se instalou na Rua Cruzeiro, 145, Badu, Pendotiba, onde o assassinato ocorreu e onde todos ainda vivem.


Diante da audiência, o advogado mostrou imagens do braço de uma das filhas acolhidas pelo casal. A menina, de 15 anos, escreveu com um objeto cortante “EU S LIXO” na própria pele. Ela, segundo afirma Ângelo, ficou traumatizada com Flordelis, que, em um momento de raiva, teria ameaçado matá-la e chamou-a de “lixo”. A automutilação da adolescente, que ainda convive com a “mãe” afetiva, exige uma ação efetiva das autoridades públicas naquele ambiente, pois o homicídio do pastor não pode continuar fazendo vítimas.

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