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Flanco exposto: Brasil esquece a Defesa em estratégia de IA

  • 3 de mai. de 2025
  • 4 min de leitura

Com uso e eficácia mais do que comprovados no mundo militar moderno, a inteligência artificial (IA) aplicada à Defesa foi esquecida pelo Brasil em seus documentos estruturantes do tema, criando uma lacuna não só na proteção do país, mas também em seu desenvolvimento tecnológico.

Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

"A crescente digitalização dos conflitos e a emergência de ameaças híbridas demandam capacidades tecnológicas avançadas que o Brasil ainda não desenvolveu de forma satisfatória, colocando em risco não apenas sua projeção geopolítica, mas também a segurança de suas infraestruturas críticas."


É o que alerta o professor doutor Carlos Eduardo Franco Azevedo, docente no Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares (PPGCM) da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) e líder do Grupo de Pesquisa Guerra do Futuro, Indústria de Defesa e Inovação (GFIDI).


Já há alguns anos, a IA vem revolucionando as capacidades tecnológicas de diversas áreas, e o setor militar não poderia ser diferente. Para muitas pessoas, a inteligência artificial se tornou visível através do ChatGPT e similares, como o DeepSeek chinês. Esse recurso, contudo, é apenas um no vasto mundo da inteligência artificial.


À reportagem, Azevedo, que também é coordenador adjunto do projeto de Inteligência Artificial e Tecnologias Quânticas (IAQT), destaca que a tecnologia atua de forma transversal por todos os domínios e dimensões do mundo militar, como a humana e a informacional, nos embates que vão desde os terrestres, marítimos e aéreos aos novos campos espaciais e cibernéticos.


Um dos exemplos é o uso da inteligência virtual para sistemas autônomos e inteligentes, capazes de realizar tarefas de navegação, reconhecimento de alvos e até combate por si próprios. Outro é o uso dessas ferramentas na defesa cibernética, identificando padrões e comportamentos anômalos para prevenir ataques.


"Destacam-se, ainda, as armas autônomas letais (LAWS), cuja capacidade de decidir e agir sem intervenção humana tem suscitado diversos debates por questões éticas e jurídicas."


De maneira mais discreta, a inteligência artificial também atua na logística militar, ajudando na otimização das cadeias e prevendo necessidades operacionais, como a falta de suprimentos. Dentro do comando militar, a IA pode ser usada, ainda, para analisar a enorme quantidade de dados e auxiliar na tomada de decisões.


A IA se tornará cada vez mais importante


Para o professor de ciências militares, a inteligência virtual revolucionou e vai transformar muito mais as capacidades militares, ainda mais quando aliadas às tecnologias quânticas, como computação, criptografia, sensores e metrologia quântica.


"Obviamente, aquelas nações que possuírem supremacia nesses campos terão maior vantagem militar", diz Azevedo, enquanto "países frágeis no desenvolvimento desses campos" ficarão mais vulneráveis a ataques, até mesmo de atores não estatais.


Enquanto potências como China, Rússia, Estados Unidos e alguns países da União Europeia estão investindo forte em ambas as tecnologias, em uma corrida tecnológica que possui o potencial de "alterar a ordem mundial", o Brasil infelizmente está ficando para trás.


Nos documentos norteadores da Defesa brasileira — o Livro Branco, a Estratégia Nacional e o Programa Nacional —, o tema não é mencionado uma única vez. Isso, no entanto, não é demérito dessa publicações, explica o especialista.


Pelo contrário, ao definir como setores estratégicos o cibernético, espacial e nuclear, ele permite avanços consideráveis nesses campos. Segundo Azevedo, o que se necessita é ressaltar a capacidade da inteligência artificial e das tecnologias quânticas como ferramentas transversais, capazes de induzir o desenvolvimento ainda maior desses segmentos.


"Estamos perdendo oportunidades de aproveitar o potencial criativo da Base Industrial de Defesa [BID] nacional, em proveito da geração de capacidades militares autóctones."


É, contudo, na Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA) de 2021 e no Programa Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) que a verdadeira lacuna se encontra. Em ambos os textos estruturantes, a função da Defesa é omitida. "Deixando um flanco exposto e trazendo todas as vulnerabilidades estratégicas que essa omissão representa para a soberania nacional."


O único documento brasileiro que menciona a inteligência artificial é um texto do Exército Brasileiro de 2024, a Diretriz Estratégica para a Inteligência Nacional. "Um passo significativo, mas quase imperceptível aos olhos da sociedade em geral", aponta Azevedo.


Segundo o pesquisador de ciências militares, o documento aponta para a modernização tecnológica das forças com a adoção de sistemas de IA, enquanto mantém o controle decisório sob o julgamento humano.


Mais importante ainda é o fato de o texto nortear as demais ações estratégicas do Exército, como o Planejamento Estratégico do Exército Brasileiro (PEEx) que, dentre outras finalidades, "serve como direcionamento para a nossa Base Industrial de Defesa".


Não é tarde para o Brasil


Esses fatos evidenciam que, embora atrasado, não é tarde para que o Brasil recupere o tempo perdido na aplicação da inteligência artificial em sua defesa. "Ainda há uma janela de oportunidade", diz Azevedo.


Para o especialista, o país ainda pode se aproveitar de sua neutralidade diplomática para conseguir parcerias que ajudem em seu desenvolvimento nessa área. Países amigos do BRICS, como China e Rússia, são vistos como possíveis parceiros nessa questão.


Ainda que não seja um grupo focado em defesa, o professor ressalta que essas tecnologias possuem um uso dual, podendo ser aproveitadas tanto para aplicações civis quanto militares. A China, diz Carlos Azevedo, é o principal destaque na área de IA do agrupamento.


Já a Rússia, graças à agência espacial Roscosmos, desenvolveu algoritmos para processar imagens de satélite com aplicação em segurança de fronteiras, clima e mapeamento militar. "Algo que pode ser importante para um país com imensa região de fronteiras secas, como o Brasil."


Outro possível aliado são os Estados Unidos. Estes, por sua vez, possuem "postura cautelosa com países que estreitam laços tecnológicos com a China" e podem interpretar a parceria como um realinhamento político brasileiro.


"Em vez de alinhar-se exclusivamente a um polo, o país pode atuar como ponte tecnológica, extraindo benefícios de ambos os lados, buscando promover a cooperação multilateral."


Azevedo afirma que além de aproveitar o BRICS como trampolim para si mesmo, seria interessante aproveitar o grupo para fomentar projetos multilaterais que envolvam outros países, como a Índia e a África do Sul. É uma forma de reforçar a posição brasileira de articular do Sul Global.


Fonte: Sputnik Brasil, parceira do TODA PALAVRA

 
 
 

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