Fim de uma era: ocaso das canoas caiçaras em Araruama

Texto e fotos: Luiz Augusto Erthal


Uma das imagens mais características da cultura caiçara vai lentamente desaparecendo no cenário do litoral fluminense. Após reinar soberana por milênios sobre as águas do mar, rios e lagoas, a canoa caiçara, feita de um pau só, vai sendo cada vez mais substituída por botes e baleeiras construídos de madeira cortada ou mesmo de chapas de compensado naval, empregados hoje na pesca artesanal.


Feitas de um pau só, as canoas caiçaras não afundam, são robustas, esguias e elegantes

A razão da preferência atual dos pescadores se deve ao emprego cada vez maior de motores de popa, que se adaptam melhor nos barcos modernos. Com isso, o perfil esguio e delicado das velhas canoas caiçaras vai aos poucos se perdendo na paisagem entre céu e mar. É o ocaso de uma cultura milenar, tradicionalmente associada à pesca artesanal, antes mesmo da chegada dos europeus aos trópicos sul-americanos.


A Região dos Lagos do Estado do Rio foi uma das mais povoadas pelas velhas embarcações de um pau só, assim como as águas mansas da Baía da Ilha Grande, no litoral Sul Fluminense. As canoas caiçaras eram tão familiares sobre o espelho d'água da Lagoa de Araruama quanto os moinhos de vento que bombeavam e ainda bombeiam devagar - hoje em menor número - a água salgada para a extração do sal.


Tanto umas quanto outros foram perdendo o seu espaço. Na colônia de pesca Z28, entre o Areal e a Praia do Hospício, em Araruama, restam apenas dez remanescentes dessas embarcações, que um dia dominaram praticamente sozinhas as águas da lagoa. Alguns desses barcos contam mais de cem anos de idade e ainda flutuam como novos.


Mas, nos sulcos abertos pelo tempo nos veios da madeira, pode-se comprovar a longevidade deles, resistindo ao sol e à água salgada durante décadas e conduzindo sobre o casco grosseiro várias gerações de pescadores.



Nenhum dos atuais proprietários entrevistados nesta comunidade pesqueira conheceu o dono original da sua própria canoa. E tampouco conseguiria adquirir agora um modelo novo pelo simples fato de que não existe mais quem o construa na região. Alcimédio Arlindo, de 64 anos, é um dos poucos membros da colônia que se lembra de ter visto, ainda criança, uma canoa dessas nascer ali.

Seu criador foi um velho pescador, chamado Ismael Nogueira, que fez para uso próprio uma canoa caiçara a partir de um grande tronco de árvore nobre, hoje raro na região. Alcimédio lembra que ele levou mais de um mês escavando a madeira com uma enxó.


O próprio Alcimédio preserva há 50 anos a sua canoa caiçara, que foi o primeiro barco que adquiriu. A sua elegante canoa azul piscina tem de idade, no entanto, pelo menos o dobro do tempo em que se encontra nas mãos do seu mestre, cujo orgulho é falar das qualidades pesqueiras do seu barco.

"Ela desliza silenciosamente sobre a água, de modo que não assusta os peixes, que saltam e nadam à nossa vista. É uma pesca bem melhor do que com um barco a mortor", defende o velho pescador.

Morador da comunidade, Inácio dos Santos Gomes, de 53 anos, não se dedica mais à pesca artesanal. Hoje ele trabalha embarcado, em alto mar, em traineiras dotadas dos mais avançados recursos tecnológicos empregados na pesca industrial. Mas quando não está no mar seu prazer é sentar junto aos velhos companheiros à beira da lagoa, observando o vaivém dos barquinhos em busca dos peixes.


Inácio acompanhou o início do declínio das canoas caiçaras em Araruama. "Foi João da Cruz quem trouxe a pesca de bote para cá, no início dos anos 90", lembra. "Ele pescava de noite e matava Parati e Carapeba com rede fixa". A técnica, baseada nos currais formados à noite para capturar os peixes, que eram recolhidos pela manhã, passou a ser adotada pelos demais pescadores, que praticavam até então a pesca tradicional.


Os pescadores Alcimédio, Inácio e (vendendo peixe) Sidmar, Dilmar, Luiz Carlos e Severiano


Seja de bote ou de canoa caiçara, os peixes não deixam, porém, de chegar nas embarcações da Colônia Z28 para serem vendidos diretamente aos consumidores, que podem adquirir o produto fresco e barato. Desde o último Dia de São Pedro (29 de junho) os pescadores contam com uma estrutura para limpeza e venda do produto na Praia do Hospício, construída pela prefeitura de Araruama.


Em frente a esse pequeno mercado, do outro lado da rua, algumas das canoas tradicionais remanescentes ainda repousam na areia da praia, exibindo a elegância das suas linhas sinuosas que ainda teimam em singrar as águas, desafiando o tempo e a modernidade.


A canoa de um pau só


Veios grossos da madeira testemunham várias décadas de exposição do barco ao sol e ao mar

A canoa caiçara é feita de um único tronco de árvore, por isso são chamadas de canoas de um pau só, ao contrário dos barcos modernos, produzidos a partir de táboas de madeira ou de compensado naval cortadas, unidas e coladas, dando a forma do casco de acordo com o projeto náutico.

Originalmente os povos caiçaras usavam o fogo para ajudar a escavar o tronco. As brasas eram colocadas sobre um dos lados da tora para facilitar na formação da cavidade central da canoa. O mais comum, no entanto, é a peça ser esculpida a golpes de enxó.


O trabalho é lento e delicado e chega a levar em média mais de um mês. O resultado, porém, é uma autêntica obra de arte, digna dos melhores escultores. O ingá amarelo, o cedro, a guapuruvu e a figueira são as madeiras mais apropriadas para a construção das canoas caiçaras.


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