Flordelis vira reportagem na The New Yorker e série na Netflix

Por José Messias Xavier

Flordelis conseguiu de novo. Acusada de ser a arquiteta do assassinato de seu marido, Anderson do Carmo, às vésperas de enfrentar duas grandes batalhas, uma na Câmara Federal, que pode cassar seu mandato, e outra nos tribunais, que pode levá-la à cadeia, a missionária e cantora gospel, que teve seu sucesso ofuscado pelo crime, renasce para o estrelato, mas desta vez como a vedete de um freak show e sob os holofotes de uma das mais prestigiadas revistas do mundo, a The New Yorker.


A publicação, antes semanal, circula atualmente 47 vezes por ano. Desde seu lançamento, em 1925, suas sofisticadas páginas estamparam o crème de la crème do jornalismo, das artes, da filosofia, da política e da História. Foi nela, por exemplo, que, em uma série de cinco artigos, a filósofa Hanna Arendt compilou, em 1963, o que veio a ser a origem de “Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal”, um dos mais importantes livros de análise sobre as entranhas do nazismo e sobre a capacidade do Estado de promover o extermínio em massa, transformando-o em uma sonolenta rotina burocrática.

Pois, na edição impressa, que circula até 14 de junho, a The New Yorker dedicou um generoso número de páginas para contar a história de Flordelis dos Santos Souza e descrever o homicídio que pesa sobre sua cabeça, de acordo com as acusações da Promotoria estadual do Rio de Janeiro.


Sob o título “O assassinato que escandaliza a Igreja Evangélica do Brasil”, o experiente jornalista Jon Lee Anderson descreve as circunstâncias da morte de Anderson do Carmo, as origens da família que o pastor constituiu com Flordelis, a ascensão de sua igreja, o meteórico estrelato da missionária como cantora, sua penetração no mainstream nacional e as relações do universo neopentecostal com o poder no Brasil, inclusive como efetivo apoiador do presidente Jair Bolsonaro.


“À medida que Flordelis ganhava destaque, o cristianismo evangélico crescia no Brasil. Em um País dividido pela pobreza, corrupção e crimes violentos, o evangelicalismo tem um forte apelo: pessoas com vidas difíceis podem ir à igreja e, em poucas palavras, ser convertidas e redimidas. Um terço dos cidadãos brasileiros abraçou o pentecostalismo nas últimas décadas; o número de parlamentares evangélicos dobrou. Os evangélicos têm sido o principal pilar de apoio ao presidente Jair Bolsonaro”, escreveu Jon Lee Anderson.


O jornalista entrevistou a própria Flordelis, policiais, membros da família constituída por ela e seu marido, além de políticos. No quadro geral, para os leitores familiarizados com a história do assassinato de Anderson do Carmo, não há grandes novidades. Mas alguns detalhes da apuração de Jon Anderson podem fazer o público vislumbrar seu futuro em duas realidades: a Netflix está preparando uma série sobre ela e o caso; e a missionária, eleita deputada federal, está perdendo apoio político.


Entrevistada por Jon Lee Anderson, Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, ex-aliada de Flordelis, disse se sentir enganada pela missionária.


“A história de vida dela foi muito bonita. Flordelis se aproveitou dos corações inocentes de milhões de brasileiros tementes a Deus”, disse a ministra ao jornalista, acrescentando que esperava que a missionária fosse sentenciada a “muito tempo” de prisão.


Seja qual for a decisão do Plenário da Câmara Federal sobre o mandato de Flordelis ou a dos jurados do 3º Tribunal do Júri de Niterói sobre sua liberdade, o certo é que a missionária retornou à sua posição sob as luzes da mídia e da atenção do grande público. Sua vida ainda flutua na aura de um espetáculo. Ela continua a negar veementemente o envolvimento no assassinato do marido, como afirmou à The New Yorker. Mas isso parece que está perdendo a importância, como em um enredo teatral de narrativas entrelaçadas, quando duas histórias, uma real e outra ficcional, trocam de posição cênica diante de uma plateia que, no fim, não saberá mais distingui-las.

300x250px.gif
728x90px.gif