Governo Bolsonaro incinera milhões de vacinas e testes para covid


(Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

O Ministério da Saúde deixou vencer a validade de um estoque de medicamentos, vacinas, testes de diagnóstico e outros itens que, ao todo, são avaliados em R$ 243 milhões. Em plena pandemia, o governo Bolsonaro também perdeu cerca de 2 milhões de exames RT-PCR para covid-19, avaliados em mais de R$ 77 milhões. Agora, todos esses produtos devem ser incinerados.

O ministério mantém sigilo sobre o estoque, enquanto o diretor de Logística da pasta, general da reserva Ridauto Fernandes, disse à Folha de S. Paulo que a situação "é indesejável", mas ocorre "em quase todos os ramos da atividade humana". Ele afirmou que "não pode comentar" sobre o estoque. "Em supermercados, todos os dias, há descarte de material por essa razão", disse. "Nos esforçamos para que isso não ocorra", acrescentou ainda o general da reserva, que ficou conhecido após se tornar público em novembro de 2020 uma conversa de Whatsapp, ao dizer que Jair Bolsonaro deveria ter decretado Estado de Sítio em maio do ano passado, no auge da crise do governo com o Supremo Tribunal Federal (STF).

O Departamento de Logística do ministério, responsável pela gestão dos insumos, ficou sob comando de Roberto Dias, indicado do Centrão, durante a maior parte do governo Bolsonaro. Ele só foi exonerado em 29 de junho, após o cabo Luiz Paulo Dominghetti denunciar que recebeu de Dias cobrança de propina para destravar a venda de vacinas.

A Folha teve acesso a tabelas do ministério com dados sobre os itens, número de lote, data de validade e valor pago pelo governo. A lista de produtos vencidos inclui, por exemplo, 820 mil canetas de insulina, suficientes para 235 mil pacientes com diabetes durante um mês. Valor: R$ 10 milhões.

O governo Bolsonaro também perdeu frascos para aplicação de 12 milhões de vacinas para gripe, BCG, hepatite B (quase 6 milhões de doses), varicela, entre outras doenças, no momento em que despencam as taxas de cobertura vacinal no Brasil. Só esse lote é avaliado em R$ 50 milhões. Alguns itens que serão incinerados estão em falta nos postos de saúde.

Os produtos vencidos também seriam destinados a pacientes do SUS com hepatite C, câncer, Parkinson, Alzheimer, tuberculose, doenças raras, esquizofrenia, artrite reumatoide, transplantados e problemas renais, entre outras situações.

O cemitério de insumos do SUS está em Guarulhos (SP), no centro de distribuição logística da pasta. Ali estão 3,7 milhões de itens que começaram a vencer há mais de três anos. Quase todos expiraram durante a gestão de Jair Bolsonaro.

No fim de agosto, o governo da Bahia reclamou do atraso na entrega de medicamentos pelo ministério, como o metotrexato, usado para alguns tipos de câncer. Há 24 mil frascos-ampola vencidos no almoxarifado do governo Bolsonaro.

'Escárnio com a saúde do Brasil'

O deputado Luis Miranda (DEM-DF), que também teve acesso aos dados, fez questionamentos ao Ministério da Saúde sobre o desperdício. Miranda foi o responsável pela denúncia de suspeitas de irregularidades na compra da vacina Covaxin feita em março a Bolsonaro - mas nenhuma providência foi tomada. Em junho, ele confirmou a denúncia à CPI da Covid, no Senado.

"A conduta é um escárnio com a saúde do Brasil. Medicamentos e recursos públicos, que poderiam salvar vidas, estão apodrecendo. Qual a razão para a compra desses medicamentos não utilizados? Qual o motivo de mantê-los armazenados depois de vencidos? Enriquecer empresas?", disse Miranda, citado pela Folha.

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