Gravações incriminam Bolsonaro no caso das rachadinhas


Jair Bolsonaro e o filho 01, Flávio Bolsonaro, com Fabrício Queiroz ao fundo, à esquerda (Reprodução)

Ex-cunhada de Jair Bolsonaro, a fisiculturista Andrea Siqueira Valle afirmou que ele demitiu um irmão dela, André Siqueira Valle, por ter se recusado a entregar a maior parte do seu salário a Bolsonaro. Isso é mostrado numa sequência de gravações obtidas pela jornalista Juliana Dal Piva, do Uol.

Nos áudios, a mulher de Fabrício Queiroz, Márcia Aguiar, chama Jair Bolsonaro de "01", indicando-o como chefe do esquema de desvio de dinheiro público através de funcionários dos gabinetes do clã.

Nas gravações, a fisiculturista diz ainda que Queiroz, ex-motorista de Jair Bolsonaro e ex-assessor de Flávio Bolsonaro e denunciado pelo Ministério Público no esquema de “rachadinha” no gabinete do então deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio, não foi o único a recolher os salários dos funcionários do atual senador. Ela aponta que a maior parte do salário que recebia do gabinete do filho 01 do presidente era recolhida pelo coronel da reserva do Exército Guilherme dos Santos Hudson.

Em um dos áudios, a ex-cunhada do presidente revela detalhes do esquema.

"O André [Siqueira Valle, irmão da Andrea,] deu muito problema porque ele nunca devolveu o dinheiro certo que tinha que ser devolvido, entendeu? Tinha que devolver R$ 6.000, ele devolvia R$ 2.000, R$ 3.000. Foi um tempão assim até que o Jair pegou e falou: 'Chega. Pode tirar ele porque ele nunca me devolve o dinheiro certo'", disse Andrea no áudio.

As gravações indicam claramente o envolvimento direto de Bolsonaro no esquema de rachadinha que acontecia dentro do gabinete dele quando era deputado federal. Ele ocupou o mandato de parlamentar na Câmara entre os anos de 1991 e 2018.

Andrea foi a primeira dos 18 parentes da segunda mulher de Jair Bolsonaro que foram nomeados em um dos três gabinetes do clã presidencial (Jair, Carlos e Flávio) no período de 1998 a 2018.

Andrea admitiu o esquema de devolução de salários tanto do irmão como dela mais de uma vez entre 2018 e 2019. Em outubro de 2018, ela disse que estava preocupada com seu futuro, pois recebia uma mesada como funcionária fantasma no gabinete de Flávio Bolsonaro e não sabia como ficaria a situação depois daquela eleição. Ela havia sido exonerada em 16 de agosto daquele ano.

Depois Andrea disse que tentou conversar sobre a situação com a irmã, Ana Cristina, e com um tio, o coronel do Exército Guilherme dos Santos Hudson, ex-colega de Bolsonaro na Aman (Academia Militar das Agulhas Negras). A fisiculturista afirmou que ninguém quis atendê-la no gabinete de Flávio.

"Porque assim, eu procurei a Cristina, o tio, liguei para o gabinete do Flávio para saber o que tinha que fazer, fiquei com medo de complicar as coisas para eles, ainda pensei neles", afirmou Andrea, nas gravações. "Na hora que eu estava aí fornecendo também e ele estava me ajudando porque eu ficava com mil e pouco e ele ficava com sete mil reais, então assim, certo ou errado agora já foi, não tem jeito de voltar atrás".

Outra conversa que o UOL teve acesso foi entre Márcia Aguiar e Nathália Queiroz, respectivamente esposa e filha de Fabrício Queiroz, acusado pelo Ministério Público de ser o operador das rachadinhas de Flávio Bolsonaro na Alerj. Na troca de mensagens que teria ocorrido em outubro de 2019, as duas chamam Jair Bolsonaro de 01.

Márcia afirma que o presidente "não vai deixar" Queiroz voltar a atuar como antes. Na época, o Ministério Público já investigava o possível esquema de rachadinha no gabinete de Flávio. Nathalia afirma para a madrasta que Queiroz é "burro" por continuar fazendo as articulações.

"É chato também, concordo. É que ainda não caiu a ficha dele que agora voltar para a política, voltar para o que ele fazia, esquece. Bota anos para ele voltar. Até porque o 01, o Jair, não vai deixar. Tá entendendo? Não pelo Flávio, mas enfim não caiu essa ficha não. Fazer o quê? Eu tenho que estar do lado dele", diz Márcia em um dos áudios.


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