"Jornalismo deve ser livre e independente", defende Amjad Osman

A rede internacional de mídia TV BRICS - parceira do TODA PALAVRA - apresenta a "Reunião da Mídia Global", um projeto especial em comemoração ao 20º aniversário do BRICS. A iniciativa conta com comentários de importantes especialistas dos principais meios de comunicação dos países do BRICS+ e parceiros da rede de mídia sobre questões relacionadas à formação de uma agenda mundial conjunta, à construção de um sistema multipolar de comunicações globais de mídia, às tendências atuais e aos principais acontecimentos dos últimos 20 anos para o avanço do discurso da mídia, bem como previsões sobre a evolução do espaço midiático.
O que caracteriza o verdadeiro jornalismo? A que aspectos os veículos de comunicação estrangeiros devem estar atentos ao abordar questões internas do Egito? É possível construir um espaço midiático global integrado? Esses foram alguns dos temas discutidos na entrevista concedida por Amjad Osman, assessor do editor-chefe da agência de notícias MENA (Agência de Notícias do Oriente Médio, do Egito), exclusivamente à TV BRICS.
Qual acontecimento você considera mais importante para o desenvolvimento do discurso midiático e a construção de um sistema multipolar de comunicação nos últimos 20 anos?
Nas últimas duas décadas, ocorreram mudanças tecnológicas e técnicas profundas e extremamente importantes, que transformaram significativamente o cenário da comunicação. Um exemplo foi o surgimento das redes sociais e das plataformas digitais, que provocou uma transformação sem precedentes no setor de mídia. Essas mudanças afetaram a qualificação dos profissionais, o comportamento do público, a velocidade de transmissão e publicação das informações e, também, a própria natureza dos conteúdos.
Podemos dizer que o surgimento das redes sociais, no início deste milênio, e sua rápida expansão, especialmente nos últimos dez anos, representaram uma verdadeira revolução tecnológica, com profundo impacto em todas as etapas do processo de comunicação. Esse fenômeno também rompeu o monopólio dos veículos tradicionais de comunicação sobre a produção e a divulgação de informações.
No entanto, essa transformação trouxe consequências negativas. Uma das principais é o desafio de garantir a confiabilidade, a transparência e a objetividade dos conteúdos publicados. Como os materiais passaram a estar ao alcance de qualquer pessoa, organização ou grupo, a produção e a divulgação de informações deixaram de ser uma atividade restrita aos veículos jornalísticos tradicionais, que contam com mecanismos próprios de verificação e controle de qualidade.
Hoje, praticamente qualquer pessoa ou empresa pode criar uma plataforma de mídia para divulgar opiniões, convicções, ideias e pontos de vista, independentemente de ter experiência profissional na área ou de seguir critérios éticos na transmissão das informações.
Em muitos casos, sequer é possível identificar a origem do conteúdo. Nas redes sociais, quem está por trás de uma publicação pode agir anonimamente, esconder sua identidade e ter interesses que só se tornam evidentes posteriormente. Essa é uma das principais diferenças em relação aos veículos tradicionais de comunicação, aos quais estamos acostumados.
Por isso, esse cenário ainda exige a criação de regras e mecanismos capazes de garantir a confiabilidade e a transparência dos materiais divulgados.
Como o jornalismo internacional mudou nas últimas duas décadas? Quais acontecimentos foram decisivos para transformar o discurso midiático e o cenário global da comunicação?
Com o surgimento das redes sociais e das plataformas digitais, consolidou-se uma tendência extremamente importante, que passou a caracterizar o cenário global da comunicação: o declínio da imprensa escrita e a ascensão do jornalismo digital. Os veículos de comunicação digitais conquistaram um espaço cada vez maior no ambiente midiático.
Pode-se dizer que, atualmente, os meios de comunicação digitais e as redes sociais ocupam uma posição dominante. Essa é uma das principais características do jornalismo contemporâneo: a perda de espaço e relevância da imprensa escrita e dos veículos tradicionais, que vêm sendo gradualmente substituídos pelas plataformas digitais.
Essa tendência ganhou ainda mais força com o surgimento recente de ferramentas de inteligência artificial, que desempenham um papel fundamental não apenas na produção de conteúdo, mas também na definição do público ao qual ele é direcionado. Essas ferramentas respondem a praticamente qualquer pergunta que lhes seja feita, embora nem sempre as respostas sejam produzidas com o devido rigor ou compromisso com a veracidade.
Essa é uma das principais características do jornalismo mundial atualmente: o protagonismo passou para os meios digitais e para o jornalismo digital, enquanto a imprensa escrita e os veículos tradicionais perdem espaço.
Como o senhor vê o futuro do espaço midiático global daqui a 20 anos?
O espaço midiático continuará se desenvolvendo, pois o progresso não para. Esse processo começou no início deste milênio. Uma prova disso é que, nos primeiros dez anos do século XXI, o setor de mídia não passou por um ritmo de transformação tão intenso quanto o observado na última década.
Esse processo continuará evoluindo à medida que o uso das redes neurais artificiais se expandir. Infelizmente, as tecnologias modernas muitas vezes são utilizadas de maneira prejudicial. Em vez de facilitar tarefas, elas e a inteligência artificial começaram a substituir o ser humano. Essa é uma questão extremamente importante.
É muito positivo acompanhar os avanços tecnológicos e utilizar redes neurais, mas não é necessário — e até mesmo inaceitável — empregá-las para substituir as pessoas, reduzindo a zero o papel humano nos processos midiáticos. Há muitos fatores que precisam ser considerados: não apenas o conteúdo em si, mas também as visões sociais e os valores predominantes em cada região. Um exemplo claro disso são os acontecimentos dos últimos 20 anos e a maneira como foram noticiados nas redes sociais.
Foi o que aconteceu, por exemplo, durante a pandemia da covid-19. A expansão das redes sociais permitiu acompanhar os acontecimentos em tempo real: o número de mortes e de pessoas recuperadas, a quantidade de pessoas vacinadas e os esforços dos governos nacionais para fortalecer os sistemas de saúde, assim como os impactos da pandemia em diferentes esferas da vida, seja ela econômica, social, política, entre outras.
Esses acontecimentos demonstram a importância das redes sociais. Essa tendência não vai se reverter nos próximos anos, pois as pessoas compreenderam o valor dessas plataformas: com apenas um clique, é possível transmitir qualquer informação, imagem ou notícia para todos os países do mundo em questão de segundos.
O espaço midiático já não está restrito a uma ou poucas organizações que apresentam ao público a narrativa que lhes interessa, em vez da verdade. Por isso, espero que, nos próximos anos, ocorram mudanças tecnológicas ainda mais rápidas, capazes de equilibrar os esforços daqueles que defendem suas instituições e os das forças que buscam romper esse monopólio.
Quais elementos fundamentais devem compor uma agenda global comum do ponto de vista do discurso midiático?
Para formular ou consolidar uma agenda global voltada ao desenvolvimento do discurso midiático, é necessário atender a algumas condições.
Em primeiro lugar, é preciso fortalecer a capacidade dos meios de comunicação tradicionais de acompanhar o enorme avanço tecnológico iniciado no começo deste milênio, que continuará e deverá se acelerar. Afinal, os veículos tradicionais são os únicos em que podemos confiar quando se trata da qualidade das informações e das notícias publicadas, diferentemente das plataformas presentes nas redes sociais, muitas vezes alimentadas por fontes desconhecidas.
Em segundo lugar, é necessário garantir recursos financeiros para desenvolver o capital humano e aprimorar as competências dos profissionais da área de comunicação. Por mais avançadas que sejam as tecnologias modernas, sem saber utilizá-las e sem contar com profissionais qualificados, não é possível promover mudanças reais nem avançar nos processos midiáticos. Profissionais capacitados para trabalhar com as novas tecnologias são a base do jornalismo.
Em terceiro lugar, é preciso desenvolver mecanismos que garantam a veracidade, a transparência e a precisão do conteúdo midiático disponível. É necessário encontrar meios de verificar as informações e assegurar que elas retratem os fatos, e não apenas uma opinião pessoal. Aliás, essa é uma das principais deficiências das redes sociais: elas começaram a confundir notícia com opinião, informação com ponto de vista. Isso é inadmissível no setor de comunicação. Minha opinião diz respeito a mim; já a notícia deve ser imparcial, objetiva e confiável, pois chega a um grande número de pessoas que precisam saber o que realmente está acontecendo.
Também é necessário garantir o acesso a fontes de informação oficiais, como órgãos públicos responsáveis por diferentes áreas — política, social, religiosa, cultural e até esportiva. Assim, poderemos obter dados e informações precisos e confiáveis. Caso contrário, corre-se o risco de gerar um caos midiático. Portanto, a velocidade da transmissão e a capacidade de alcançar milhões de pessoas não terão valor algum se não houver confiança nas informações.
Quais temas relacionados à política interna e externa do seu país e às iniciativas nacionais específicas deveriam ser abordados pela imprensa de outros países?
Acredito que a situação no Egito e os acontecimentos no país não devem ser apresentados pela imprensa internacional de forma isolada, sem considerar o contexto do que ocorre no mundo. Na minha opinião, os veículos de comunicação internacionais deveriam se concentrar, por exemplo, em temas econômicos.
Quais estereótipos sobre o Egito, sua cultura, ciência e sistema educacional precisam ser desconstruídos?
Alguns veículos de comunicação consideram o Egito um país agrícola, cujos únicos méritos seriam abrigar cerca de 30% de todos os artefatos históricos do mundo. Na realidade, o Egito está situado no coração do mundo. A presença do rio Nilo fez do país uma nação agrícola, enquanto seus monumentos históricos o transformaram em destino turístico para viajantes de diversas partes do mundo.
Ao longo das últimas três ou quatro décadas, o Egito avançou nas áreas da saúde e da educação. Tudo indica que esse país milenar continua fundamentado nos valores e princípios que orientam sua trajetória.
A percepção sobre o Egito começou a mudar, especialmente após a inauguração de um dos maiores complexos arqueológicos e turísticos do mundo: o Grande Museu Egípcio. Assim, o Egito avança com confiança, acompanhando as transformações do nosso tempo.
Também é importante destacar que o Egito está entre os países que apoiam ativamente a implementação dos programas de desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU). Além disso, o país acompanha as tendências globais ao promover a transição verde e adotar fontes de energia renováveis e sustentáveis, com o objetivo de preservar o meio ambiente e responder aos desafios das mudanças climáticas.
Como o senhor avalia a possibilidade de criar um espaço global de informação integrado? Que formatos de cooperação entre veículos de comunicação de diferentes países poderiam ser desenvolvidos?
Sem dúvida, a ideia de criar um espaço midiático comum entre os países é nobre e tem fundamento. É uma excelente iniciativa, que poderia trazer bons resultados se fosse colocada em prática.
É provável que essa proposta enfrente muitos desafios. Um caminho possível seria começar pela cooperação no intercâmbio de informações, conhecimentos e experiências, além da oferta de cursos de formação na área de comunicação. Acredito que essa colaboração seria mais eficaz se respeitasse os valores culturais próprios de cada país.
O que significa, para o senhor, fazer jornalismo de verdade? Poderia citar veículos de comunicação ou jornalistas de qualquer época que tenham construído uma reputação incontestável e conquistado autoridade reconhecida?
Na minha opinião, o verdadeiro jornalismo continua sendo um espelho capaz de refletir a verdade em sua essência e a realidade em que vivemos. É um instrumento que leva a voz dos povos aos governos. Ao mesmo tempo, lança luz sobre os problemas de cada sociedade e as dificuldades que ela enfrenta. Também contribui para a busca de soluções e dá visibilidade aos aspectos positivos e às conquistas, para que a verdade seja conhecida. Por isso, o jornalismo deve ser marcado pela precisão, objetividade e credibilidade.
Hoje, o tipo de jornalismo com o qual mais me identifico e que considero alinhado ao espírito do nosso tempo é aquele que está aberto à verdade, é imparcial, preciso e confiável.
É um jornalismo que apresenta tanto os aspectos positivos quanto os negativos, sem criar uma imagem artificialmente otimista da realidade nem distorcê-la com base em convicções e posicionamentos pessoais ou em busca de interesses próprios. O jornalismo deve ser livre, independente, preciso, confiável, honesto e autônomo.
Meios de comunicação do Sul Global e do BRICS desenvolvem biblioteca integrada de conteúdo da TV BRICS
Os meios de comunicação do Sul Global têm ampliado a cooperação para fortalecer o intercâmbio de informações e dar maior visibilidade à diversidade de perspectivas na agenda internacional. Nesse contexto, a emissora pública cubana Canal Habana passou a integrar a rede de parceiros da TV BRICS. O acordo de cooperação foi assinado nesta sexta-feira (16) pela diretora-geral e editora-chefe da TV BRICS, Janna Tolstikova, e pelo diretor-geral do Canal Habana, Erduy Varela Cruz. A parceria prevê o intercâmbio de conteúdos sobre os países-membros e parceiros do BRICS, a produção de projetos conjuntos e iniciativas voltadas à promoção do jornalismo de qualidade.

"É uma grande honra e uma enorme satisfação para nossa emissora iniciar uma parceria com a rede internacional de mídia TV BRICS. Essa é uma oportunidade de mostrar o cotidiano da capital cubana, que representa um país parceiro dessa importante associação, o grupo BRICS. Esperamos trocar experiências e compartilhar abordagens para a criação e a distribuição de conteúdo televisivo nesta nova etapa multimídia", destacou o diretor-geral do Canal Habana, Erduy Varela Cruz.
O Canal Habana foi fundado em 2006 e integra o grupo estatal Television Cubana. A emissora transmite em espanhol para todo o território cubano e aborda temas relacionados à vida política, econômica, social, cultural e esportiva de Havana, além de acompanhar os principais acontecimentos nacionais e internacionais.
A diretora-geral da TV BRICS, Janna Tolstikova, ressaltou a importância do intercâmbio de informações entre os países do BRICS e as nações que compartilham os valores da associação. Segundo ela, o diálogo construtivo por meio da mídia em um espaço informativo comum contribui para o estabelecimento de parcerias produtivas em nível governamental e para a estabilidade das relações internacionais.
A TV BRICS está aberta à cooperação com todos os países dispostos a atuar com base nos princípios de igualdade, respeito mútuo, consideração dos interesses nacionais e valorização da diversidade mundial. A executiva também parabenizou o Canal Habana pelo início da parceria, que permitirá apresentar ao público internacional a cultura singular de Cuba e oferecer aos telespectadores da emissora conteúdos audiovisuais sobre o BRICS e outros países do Sul Global.
Em Cuba, a TV BRICS já mantém parcerias com a agência de notícias Prensa Latina e o Canal Caribe, que também participam do intercâmbio de conteúdo da rede. Na América Latina, a cooperação se estende a veículos de comunicação da Argentina, do Brasil, da Venezuela, da Colômbia, do México, do Chile e do Uruguai. A rede também conta com parceiros de Belarus, Bolívia, Vietnã, Cazaquistão, Malásia, Tailândia e Nigéria, países que integram o grupo de parceiros do BRICS.
A cooperação entre a TV BRICS e Cuba também ocorre em nível institucional. Entre os parceiros da rede de mídia estão o Instituto de Informação e Comunicação Social de Cuba, os ministérios do Ensino Superior e da Educação do país. Na área cultural, a parceria envolve o Instituto de Arte e Indústria Cinematográfica de Cuba e, no campo educacional, a Universidade de Havana.
Fonte: TV BRICS










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