Ludhmila, a médica que disse não a Bolsonaro

Atualizado: Mar 16


Sem direito a autonomia, médica Ludhmila Hajjar recusou convite para assumir o Ministério da Saúde (Reprodução)

A médica Ludhmila Hajjar, que nesta segunda-feira (15) recusou o convite do presidente Jair Bolsonaro para assumir o Ministério da Saúde, disse que não aceitou substituir Eduardo Pazuello porque não havia "convergência técnica" entre ela e o governo Bolsonaro. Antes mesmo de se reunir com o presidente no Palácio do Planalto no domingo, Ludhmila disse que foi alvo de ataques de bolsonaristas nas redes sociais e sofreu ameaças enquanto estava hospedada em um hotel em Brasília.

"Nestas 24 horas houve uma série de ataques à minha pessoa, à minha reputação. (...) Estou num hotel em Brasília, e houve três tentativas de entrar no hotel. Pessoas que diziam que estavam com o número do quarto e que eu estava esperando-os. Diziam que eram pessoas que faziam parte da minha equipe médica. Se não fossem os seguranças do hotel, não sei o que seria", disse, em entrevista à Globonews, citando ainda que teve o número do seu celular publicado em grupos de Whatsapp e sofreu "coisas absurdas".

Segundo a médica, que é supervisora da área de Cardio-Oncologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da USP e coordenadora de cardiologia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, as ameaças não foram o motivo de ter recusado o convite do governo.“Eu não tenho medo. São pessoas radicais, que estão polarizando o Brasil”, disse.

Ludhmila defendeu medidas de isolamento social, como lockdown, para reduzir a mortalidade e prioridade à negociação de vacinas, e enfatizou que o "cenário no Brasil é bastante sombrio. O Brasil vai chegar em 500 mil, 600 mil mortes."

Ao justificar a recusa do convite de Bolsonaro, Ludhmila disse que "não houve convergência técnica entre nós". Ela disse ainda que se “pauta pela ciência” e que "o Brasil precisa de protocolos", e criticou a defesa feita por Bolsonaro sobre o uso da cloroquina e os ataques feitos por ele contra as medidas de distanciamento social adotadas por governadores e prefeitos no enfrentamento à Covid-19.

"Nós estamos discutindo azitromicina, ivermectina, cloroquina. É coisa do passado. A ciência já deu essa resposta. Cadê um protocolo de tratamento? (...) Perdeu-se muito tempo na discussão de medicamentos que não funcionam", afirmou.

A médica disse que o que o governo esperava dela não se encaixa no seu perfil: "A minha qualificação, os meus planos e meus objetivos seguem uma linha, que eu acho que é distinta do governo atual. Então, só me cabe respeitar e agradecer a oportunidade", disse.

Ludhmila deixou claro que seus planos para o enfrentamento da pandemia não convergem com os de Bolsonaro.

"Penso pra isso neste momento, para reduzir as mortes, tem que reduzir a circulação das pessoas, de maneira técnica e respaldada por dados científicos. E um Ministério da Saúde forte pode dar esse respaldo que os governos estaduais precisam, esse apoio e essa união. Penso e considero ser emergencial a abertura de leitos com capacitação estrutural e humana", disse.

A médica afirmou ainda que espera uma mudança de rumo na condução da Saúde no país, hoje nas mãos de Pazuello, mas comandada de fato por Bolsonaro.

"É um desejo meu que quem vá substituir o Pazuello tenha autonomia. Depende uma mudança do governo, do que pensa sobre a pandemia", afirmou.

"Sangue" nas redes

A médica Ludhmila Hajjar ainda se encontrava reunida com o presidente no Palácio do Planalto no domingo quando começaram a espocar nas redes, que o clã Bolsonaro controla, os primeiros ataques sanguinários da extrema direita contra ela. Nos perfis bolsonaristas, logo apareceram imagens de Ludhmila com autoridades que não são de extrema direita: ela com o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia; ela com o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal - ambos, personagens odiados pelos bolsonaristas -, e ainda um vídeo em que ela conversava com a ex-presidente Dilma Rousseff. Para completar o show midiático fakenews, um áudio, segundo Ludhmila, falso, no qual ela chama Jair Bolsonaro de "psicopata". "Coisas absurdas", como disse Ludhmila.

Questionada sobre o que o presidente disse diante da campanha de ódio de que foi vítima, Ludhmila afirmou: "Ele disse que faz parte."

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