Marcha das Tochas em Cuba: ‘Anti-imperialismo é amor profundo à liberdade’
- Da Redação

- há 2 horas
- 3 min de leitura

Por Gabriel Vera Lopes
(Do Brasil de Fato)
“Não viemos apenas para lembrar, viemos para continuar a obra de Martí”, foram as palavras com que Litza Elena González Desdín, presidente nacional da Federação Estudantil Universitária (FEU), deu início à tradicional Marcha das Tochas.
Sob o lema “Unidade e resistência”, milhares de jovens se reuniram na emblemática escadaria da Universidade de Havana, na noite de terça-feira (27), onde ouviram o discurso da dirigente estudantil minutos antes de acender as milhares de tochas que iluminariam a mobilização.
“Martí vive na resistência daqueles que nunca desistem diante das dificuldades; naqueles que jamais se ajoelham diante do opressor; naqueles que defendem o valor das ideias como uma força insuperável; e vive em nós, jovens que sabemos que o anti-imperialismo é um amor profundo à liberdade”, afirmou González Desdín, em meio a aplausos.
Horas antes do pôr do sol, estudantes universitários e do ensino médio começaram a ocupar as imediações da universidade. Organizada pela Federação Estudantil Universitária, a Marcha das Tochas acontece todos os anos para comemorar o nascimento de José Martí, considerado o Apóstolo da Pátria.
Este ano, o que deveria ser um encontro em comemoração ao Herói Nacional e ao centenário de seu “melhor discípulo”, Fidel Castro, transformou-se em uma marcha de luto, mas também de luta anti-imperialista. A mobilização ocorreu em um contexto marcado pelas crescentes ameaças do governo dos Estados Unidos contra Cuba e por um clima de luto nacional, após a morte de 32 internacionalistas cubanos caídos em combate durante o ataque perpetrado contra a Venezuela.
“Compatriotas, estamos vivendo tempos muito conturbados, nos quais o império e seu imperador, Donald Trump, querem impor a ordem das bombas, dos sequestros, da perseguição, da destruição e da morte, e pretendem nos fazer voltar ao fascismo destruidor”, denunciou González Desdín, que também condenou “nos termos mais enérgicos a covarde agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela e o sequestro do presidente daquela nação irmã, Nicolás Maduro Moros, e de sua companheira Cilia Flores”.
Em um dos momentos mais emocionantes da jornada, acrescentou: “Nunca esqueceremos que, naquela noite de 3 de janeiro, na madrugada mais sombria, os cubanos perdemos fisicamente 32 de nossos filhos mais valentes, muitos deles jovens, que, no cumprimento de seu dever, caíram sob o bombardeio dos atacantes. Eles são uma inspiração constante para nossa geração; são paradigmas da história da luta por uma América unida, por uma Pátria cada vez mais soberana. Para eles, honra e glória para sempre”.
Com essas palavras, as milhares de tochas se acenderam, iluminando a noite havanense. A manifestação começou a descer pelas escadarias em direção à Fragua Martiana, monumento que lembra o escritor e líder independentista.
Pátria é humanidade
Nascido em Havana, em 1853, José Martí foi poeta, pensador, educador e, acima de tudo, revolucionário. Fundador do Partido Revolucionário Cubano (PRC), que tinha como objetivo lutar pela independência de Cuba e de Porto Rico, Martí se tornou uma das principais figuras do ciclo de guerras de independência no final do século 19.
Desde muito jovem, uniu-se às fileiras independentistas, atividade pela qual foi preso e exilado ainda adolescente. Aos 15 anos, publicou o poema Abdala, no qual delineava seu conceito de pátria:
“O amor, mãe, à Pátria / não é o amor ridículo à terra / nem à erva que pisam nossos pés / é o ódio invencível a quem a oprime / é o rancor eterno a quem a ataca”.

As ideias de Martí não apenas impulsionaram a luta pela libertação de Cuba, mas também projetaram uma visão latino-americana diante do domínio das grandes potências. Por isso, mais de um século após seu nascimento, seu pensamento continua sendo referência ética e política para os povos da região.
A figura do Apóstolo da Pátria também foi uma das principais fontes de inspiração da Revolução Cubana. Em 1953, durante o centenário de seu nascimento, um grupo de jovens estudantes e trabalhadores, entre eles Fidel Castro, protagonizou a primeira Marcha das Tochas em oposição à ditadura de Fulgencio Batista. Aquela mobilização estudantil, realizada na madrugada do dia 27 de janeiro, tornou-se um antecedente do ataque ao Quartel Moncada e um dos marcos iniciais do processo revolucionário que triunfaria seis anos depois.
Desde então, todo dia 27 de janeiro, na véspera do aniversário do nascimento de José Martí, milhares de jovens cubanos se mobilizam para prestar-lhe homenagem. Este ano, quando a Marcha das Tochas completou 71 anos de realização ininterrupta, o legado martiano voltou a ser convocado como um ponto de encontro para a defesa da soberania, da unidade latino-americana e da resistência frente ao imperialismo.










Comentários