Maria Felisberta: um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta


Waldeck Carneiro

(Professor da UFF e Deputado Estadual - PT/RJ)



Quando compôs "Maria, Maria", Milton Nascimento não sabia que acabara de criar um verdadeiro hino à trajetória da professora Maria Felisberta Baptista da Trindade (1930-2021). Afinal, o dom de educar e de lutar pelas boas causas, a magia de agregar pessoas em torno dela e de suas lutas e a força para seguir avançando mesmo face a adversidades sintetizam essa educadora amorosa, crítica e libertária, da mesma linhagem de Paulo Freire, não por acaso, mas por história, sua principal referência.

Ainda na adolescência, como líder estudantil no Colégio Pedro II, Felisberta protagonizou atos de protesto contra o flerte do Estado Novo varguista com os países do Eixo. Afinal, a hipótese da aliança do Brasil com o nazifascismo, no contexto da 2ª Guerra Mundial, era absolutamente incompatível com os valores democráticos e humanistas que já se consolidavam na jovem Maria Felisberta.

Preocupada com seu precoce e acentuado envolvimento na luta política, sob um regime autoritário, sua família decidiu transferi-la para outra escola pública, o Liceu Nilo Peçanha, em Niterói. Mas dom é dom: Felisberta logo assumiu papel protagonista no movimento estudantil naquela que é, até hoje, a mais tradicional escola pública da antiga capital da Velha Província, celeiro de grandes lideranças estudantis e políticas, há muitas gerações. Em outras palavras, a disposição de Felisberta para as lutas democráticas era aquilo que o compositor chamou de dom: para lutar por democracia, justiça e igualdade!

Na sua trajetória política, Felisberta participou organicamente da construção do Partido Comunista Brasileiro, que atuava na clandestinidade, ajudando a viabilizar grandes movimentos e liderando muitas lutas, em Niterói e no antigo Estado do Rio de Janeiro: a campanha pela nacionalização do petróleo, a fundação da primeira entidade feminista de Niterói, a resistência à ditadura civil-militar a partir de 1964. A corajosa resistência à ditadura causou-lhe danos enormes: viveu clandestinamente, reclusa, para fugir da dura perseguição que sofria do arbítrio; foi obrigada a se afastar de seu companheiro, por longo período, pois ele também precisou "cair no mundo" para escapar das perseguições de que também foi vítima durante a ditadura; não conseguiu assumir o emprego público que conquistara, pois não tinha o "atestado ideológico" exigido, que ela nunca quis assinar, pois isso seria uma forma de abjuração ideológica imposta pelo regime de força. Tudo isso ela teve que enfrentar, cuidando sozinha de quatro filhos. Além do dom, muita força!

Travei contato direto com Felisberta, pela primeira vez, no ano de 1990, quando passei a compor, aos 25 anos, o corpo docente da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde ela ingressara como professora cinco anos antes. Não chegou naquela universidade como ilustre desconhecida: já era mestre em educação pela própria UFF (1978); tinha coordenado emblemática experiência de gestão democrática da escola pública, em plena ditadura, quando liderou o autogoverno no Instituto de Educação Clélia Nanci (escola estadual de São Gonçalo), tema de sua dissertação de mestrado; e ainda comandava outra expressiva dinâmica de gestão democrática no Ginásio Polivalente Paulo Assis Ribeiro (escola estadual de Niterói), onde consolidou o princípio da gestão colegiada, com participação de professores, estudantes e demais profissionais da escola em conselhos, desde o nível da classe até o nível da direção da escola. Seu dom de educar e de praticar a gestão democrática da educação já era então muito conhecido na rede estadual de educação do Rio de Janeiro, quando ingressou na UFF como professora.

Após breve e valiosa passagem pelo Instituto de Arte e Comunicação Social, fixei-me como professor da Faculdade de Educação (FEUFF), minha alma mater. Desde logo, percebi que Felisberta, que então iniciava seu percurso como coordenadora do curso de Pedagogia da UFF, era dotada de "certa magia" para agregar professores, estudantes e servidores técnico-administrativos em torno do trabalho que liderava. Eram tempos desafiadores, pois os cursos de Pedagogia no Brasil passavam por uma crise epistemológica naquele período, o que suscitava reflexões densas, debates acalorados e mudanças curriculares ousadas, como aquela que Felisberta coordenou na FEUFF, no biênio 1992/1993. Eu, recém eleito como membro do Colegiado da Faculdade, participava e acompanhava os debates, admirando a capacidade das talentosas educadoras que nos referenciavam naquele processo: Nilda Alves, Clarice Nunes e Maria Felisberta Trindade. Mas Felisberta se destacava por uma característica marcante: embora tivesse firmeza de posição, sempre defendia suas teses com amorosidade e paixão, vale dizer, se entregava de corpo e alma aos debates e jamais agia com sectarismo em face de quem dela divergia. Ao contrário, buscava trazer para perto dela as posições divergentes, explorando os aspectos confluentes que se manifestavam na diferença - dialética e pura magia!

Com sua assinatura protagonista, o novo currículo do curso de Pedagogia da FEUFF, em Niterói, se tornou, em breve tempo, uma referência nacional, assim como o currículo do então recém-criado (1992) curso de Pedagogia da FEUFF em Angra dos Reis, movimento que Felisberta também ajudou a construir, sob a liderança de Nilda Alves e Regina Leite Garcia. No interior da Faculdade, Felisberta se projetou então para novos voos e desafios. Naquele processo, também chamou atenção a aposta que Felisberta fez em uma jovem professora, que chegara na FEUFF há pouco tempo, proveniente do Amazonas, para que assumisse a vice-coordenação do Curso de Pedagogia, trabalhando ao seu lado. A aposta não foi em vão: Gelta Xavier deu substantiva contribuição ao processo de reformulação do curso e, na sequência, se destacou nos estudos sobre currículo e também como liderança sindical docente na UFF. Aquela aposta feita por Felisberta era mais um traço distintivo de sua personalidade: era uma mulher generosa, puxava para cima quem estivesse construindo as lutas com ela, o que acabou acontecendo comigo, como veremos mais adiante.

Em 1995, Felisberta assumiu, após consagradora eleição, a Direção da Faculdade de Educação da UFF, passando a representar a FEUFF no Fórum Nacional de Diretores de Faculdades de Educação das Universidades Públicas Brasileiras (FORUMDIR), no Conselho Municipal de Educação de Niterói e no Conselho Universitário da própria UFF. Participava também, cada vez mais intensamente, da Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (ANFOPE), tornando-se referência, no Rio de Janeiro, no debate sobre as políticas de formação de profissionais da educação. Lembro que cantamos juntos a Internacional Socialista, no restaurante Tio Cotó, em Niterói, logo após a sua posse, no Auditório Florestan Fernandes da FEUFF, em 1995. Entoamos juntos novamente o hino da classe trabalhadora e da luta pelo socialismo, no ano seguinte, no restaurante Jambeiro, em Niterói, na ilustre presença de Paulo Freire, após a simbólica solenidade de concessão do título de Doutor Honoris Causa, a mais elevada dignidade universitária, outorgada pela UFF, por iniciativa de Felisberta, ao mais importante pensador da educação brasileira.

Felisberta ainda teve força e fôlego para ajudar a deflagrar, na UFF, em 1998, o processo estatuinte, que tinha como objetivo viabilizar a elaboração, de modo participativo, do novo estatuto da UFF, a fim de substituir o que estava em vigor, entulho institucional herdado do regime ditatorial. Felisberta foi eleita para a Assembleia Estatuinte Universitária, que, pouco a pouco, foi perdendo força, concluindo seus trabalhos graças ao denodo de, no máximo, uma dúzia de membros daquela Assembleia, que levaram seu trabalho até o final. Entre eles, lá estava Felisberta, que figurava não apenas entre os que perseveraram, mas também como uma das lideranças daquele árduo e valoroso trabalho, que a duras penas foi concluído e encaminhado à apreciação do Conselho Universitário. Pude constatar a densidade daquela produção, que tinha claramente as digitais da Felisberta, pois integrei a Comissão de Sistematização do novo Estatuto, no âmbito do Conselho Universitário da UFF, na qualidade de relator.

Naquele período, algo interessante me marcou na nossa relação: organizei o livro "Formação dos profissionais da educação: o novo contexto legal e os labirintos do real" (Niterói, EDUFF, 1998), uma das primeiras coletâneas a analisar os impactos da então recente LDB sobre a formação dos profissionais da educação. Convidei Felisberta para escrever um capítulo, sem saber que aquela seria a sua primeira publicação em livro. Sua alegria e emoção da estreia, aos 68 anos, como autora de um capítulo de livro, foram traduzidas por uma tocante dedicatória que ela fez em meu exemplar. Em suas delicadas palavras, além de me agradecer pela oportunidade - quando, a rigor, o privilégio era meu, por tê-la como coautora da obra -, Felisberta lembrou de Cora Coralina, goiana como seu pai, poetisa que ela adorava, que publicou seu primeiro livro de poesias aos 76 anos: "como gosto da vida, julgo que ainda terei tempo", escreveu Felisberta, alertando que ainda tinha força para publicar mais trabalhos em livros, o que de fato ocorreu.

Alguns anos depois, quando da sucessão de Felisberta na direção da FEUFF, recebi seu apoio entusiasmado, o que foi indispensável à minha vitória naquela eleição. Mais uma vez, com generosidade, Felisberta fez uma aposta: entendeu que o professor mais jovem da FEUFF poderia assumir a direção daquela unidade acadêmica. Mais do que uma aposta de sua parte, foi um ato freireano de esperançar, o que me causou muito orgulho, mas também profunda sensação de responsabilidade, pois me vi na circunstância de suceder a mais genuína defensora da escola pública em Niterói.

Mais tarde, voltamos a trabalhar juntos: eu era conselheiro municipal de educação em Niterói, presidido por Felisberta, que exercia a presidência daquele órgão colegiado por ser a Secretária de Educação do município. Desenvolvemos várias ações estruturantes no Conselho Municipal e iniciamos o planejamento da primeira Conferência Municipal de Educação de Niterói, que viria a aprovar o I Plano Municipal de Educação da Cidade. Acabei sucedendo Felisberta também na Secretaria Municipal de Educação de Niterói, continuando, completando ou aprimorando várias iniciativas por ela impulsionadas, inclusive a realização da aludida conferência, que teve lugar em 2007.

Felisberta tentou ser deputada e vereadora. No primeiro caso, em 1954, ainda jovem, não logrou êxito, embora tenha feito uma campanha militante, combativa e propositiva. No segundo caso, em 1982, foi expressivamente votada, mas uma apuração eleitoral conturbada, muito provavelmente desprovida de licitude, custou-lhe a vitória naquele pleito. Felisberta foi suplente e perdeu a possibilidade de exercer o mandato parlamentar, mas a cidadania niteroiense perdeu muito mais: a chance de ter um verdadeiro vulto da educação pública em atuação no Plenário Brígido Tinoco da Câmara Municipal de Niterói. Mesmo sem mandato, sua representatividade popular, sobretudo na área de educação, era autêntica: sempre consultada, ouvida e respeitada. Muito tempo depois, tive a ousadia de tentar exercer, também em seu nome, os três mandatos de vereador que conquistei em Niterói, missão que ainda sigo tentando cumprir, hoje no exercício do segundo mandato como deputado na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

Travamos juntos lutas inesquecíveis em defesa do direito à educação, da escola pública e da valorização dos profissionais da educação. Combatemos na mesma trincheira em várias campanhas eleitorais, no enfrentamento ao neoliberalismo, na peleja contra o golpe de Estado de 2016 e no combate ao fascismo tupiniquim e ao ultraliberalismo, esse monstro de duas cabeças que ainda precisamos derrotar no Brasil contemporâneo.

No dia 19 de setembro de 2021, poucas semanas antes de morrer, Felisberta participou, aos 91 anos, de seu último ato público, no Campo de São Bento, em Niterói. Por minha iniciativa, realizamos, naquela data precisa do centenário de nascimento de Paulo Freire, um ato em homenagem ao autor da "Pedagogia do oprimido". Convidei Felisberta, que compareceu e encantou o público presente, relendo o discurso que pronunciara, 25 anos antes, no Cinema da UFF, quando da concessão do título de Doutor Honoris Causa a Paulo Freire. Felisberta reluzia de felicidade por participar daquela atividade, que acabou se tornando sua despedida pública. Posso afirmar, com base em quase trinta anos de convivência, parceria, companheirismo e amizade, que Maria Felisberta Baptista da Trindade é verdadeira lenda e legenda da educação pública brasileira!

Alguém já disse, em alusão à Felisberta, que "Felis se escreve com s". Sim, este era o apelido carinhoso pelo qual muitos a chamavam, uma espécie de trocadilho monovocabular: "Felis" decorre de seu nome Felisberta, é claro, mas também restitui a felicidade, a alegria, o alto astral, alguns dos traços que definiam essa mulher, que tinha "manha, graça e sonho sempre" e, além disso, "a estranha mania de ter fé na vida".

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