Morte de petista: vigilante diz que ouviu grito 'aqui é Bolsonaro'


Familiares do dirigente petista Marcelo Arruda participam de ato em Foz do Iguaçu para cobrar justiça (Reprodução)

Em depoimento prestado à Polícia Civil do Paraná, a vigilante Daniele Lima dos Santos afirmou que viu o policial penal Jorge Guaranho gritar pelo nome do presidente Jair Bolsonaro (PT) momentos antes de atirar e assassinar o guarda municipal Marcelo Arruda, em 9 de julho.

As declarações da vigia vieram a público neste domingo (17). Segundo o site G1, o depoimento consta no relatório final do inquérito.

No momento do ataque, Arruda estava celebrando seu aniversário de 50 anos em uma festa privada cujo tema de decoração era o Partido dos Trabalhadores (PT), ao qual era filiado, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

De acordo com a vigilante, ela estava fazendo inspeções na região quando viu um carro entrando na sede da Associação Esportiva Saúde Física Itaipu, na Vila A, com Jorge Guaranho e uma mulher dentro. Logo depois, ouviu o grito "aqui é Bolsonaro".

Em seguida, ela viu o carro sair bruscamente do local. Momentos depois, ela viu o mesmo veículo se aproximando em alta velocidade. Santos relatou que jogou sua motocicleta para o acostamento e que quase foi atropelada por Guaranho.

O carro entrou rapidamente na associação, relatou. Foi aí que, pela segunda vez, a vigilante ouviu o policial penal gritar "aqui é Bolsonaro", além de palavras de baixo calão. Logo em seguida, Guaranho iniciou o ataque com disparos.

Ainda assim, Camila Cecconello, delegada do caso, não acreditou o que o crime teve motivação política e levou em consideração o depoimento da mulher de Guaranho para suas conclusões finais sobre o caso.

Cecconello argumentou que, para ser enquadrado como crime político, seria preciso apontar um desejo de Guaranho de impedir os direitos políticos de Arruda. "Seria complicado de dizer", afirmou a delegada.

No caso em questão, ela afirmou que o depoimento da esposa de Guaranho apontou que ele voltou ao local "porque se sentiu humilhado" após a discussão.

A declaração gerou controvérsia, uma vez que os fatos apontam que Guaranho foi ao local após saber se tratar de uma festa temática petista. Ele estava em um churrasco quando foi informado sobre a celebração privada. Sem ter qualquer ligação com a vítima, ele foi ao local no intuito de provocar os participantes do evento.

Na noite de sexta-feira (15), após a polêmica em relação ao relatório final do inquérito (que foi encerrado em apenas cinco dias), a delegada voltou atrás e disse que a perícia no celular de Guaranho pode trazer novos elementos que alterem os rumos da investigação.

O Ministério Público do Paraná (MP-PR) ainda deve oferecer denúncia para a Justiça. As conclusões do MP-PR podem ser distintas das oferecidas pela polícia.

Na sexta (15), o promotor Tiago Lisboa Mendonça informou à mídia que tem um prazo de cinco dias úteis para finalizar o documento.

Porém, legalmente e caso ache necessário, ele pode fazer com que o inquérito volte para mais investigações e diligências policiais. Ele optou por não participar da entrevista coletiva que anunciou o final das investigações.

O policial penal foi indiciado por homicídio duplamente qualificado – por motivo torpe e por pôr em risco a vida de outras pessoas. A pena pode variar entre 12 e 30 anos de prisão.

Guaranho segue internado em estado grave. Ele foi atingido por disparos feitos por Arruda, que atirou contra ele no intuito de se proteger do ataque.

A família de Guaranho defende que o crime teve motivação política.

Um dos irmãos de Marcelo, que participou de um telefonema com o presidente Bolsonaro, também acredita que se tratou de um crime político, mesmo sendo apoiador do atual chefe do Executivo, de acordo com uma entrevista concedida a uma afiliada da TV Globo.

Irmão bolsonarista confirma: foi 'um ato político'

Em um ato pela paz neste domingo (17), que reuniu familiares de Marcelo Arruda para cobrar justiça pelo assassinato do dirigente petista em Foz do Iguaçu (PR), o irmão dele, Luiz Donizete, simpatizante do presidente Jair Bolsonaro (PL), afirmou que o crime se tratou sim de "um ato político", ao contrário do que diz a polícia.

“Aquele camarada [Jorge Guaranho] chegou lá e só teve aquela reação maldita porque viu um movimento diferente do dele. E qual é o problema de o Marcelo ter um movimento diferente de qualquer outra pessoa?”, questionou. “A gente tem que ter um Brasil único, de brasileiros, que queiramos viver em paz”, completou.

Luiz Donizete foi um dos irmãos de Marcelo que recebeu telefonema de Bolsonaro os convidando para uma coletiva de imprensa, no Palácio do Planalto, em Brasília.

Segundo a coluna do Noblat, do Metrópoles, Donizete chegou a exigir condições para que o encontro acontecesse. “Eu quero que ele faça um pronunciamento pregando a paz, e reconhecendo que meu irmão foi vítima naquela situação”, afirmou.

Na semana passada, falando a apoiadores na porta do Palácio do Planalto, Bolsonaro não reconheceu Marcelo como vítima e criticou a reação dos parentes e amigos de Marcelo que estavam na festa.

"O cara que morreu, que estava lá na festa, jogou pedra no vidro daquele cara que estava com o carro do lado de fora. Depois, ele voltou, começou o tiroteio lá, e morreu o aniversariante. O outro foi ferido, ficou lá caído no chão e aí o pessoal da festa, todos petistas, encheram a cara dele de chutes", afirmou Bolsonaro, na ocasião.

Nota da Polícia Civil

Em nota divulgada neste domingo, a Polícia Civil do Paraná reafirmou que o indiciamento por homicídio qualificado por motivo torpe e perigo comum, "além de estar correto, é o mais severo capaz de ser aplicado ao caso". A instituição afirmou que o inquérito é pautado "exclusivamente na técnica", e que opiniões políticas "estão fora de suas atribuições".

Contudo, políticos e entidades como o Grupo Prerrogativas, coletivo de juristas e advogados, consideram que classificar como crime de ódio poderia ser importante para desestimular comportamentos violentos no período eleitoral.


Com a Sputnik

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