Movimentos entregam carta em defesa da Amazônia a candidatos


(Foto: André Montejano/LZP)

A Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas Tropicais (IRI Brasil) entregou a todos os candidatos a presidente, além dos mais bem posicionados candidatos a senador e governador dos estados que compreendem a Amazônia Legal uma carta aberta que pede que se comprometam, nas eleições de 2022, com a preservação da Floresta Amazônica.


A entrega foi feita nesta quinta-feira (15), segundo anúncio do grupo. Entidades católicas, evangélicas, judaicas, islâmicas, budistas, de matriz africana, entre outras, assinaram o documento.


A carta pede aos candidatos que assumam o compromisso público de parar o processo de destruição da Floresta Amazônica e de violação dos direitos dos povos indígenas, quilombolas, agricultores familiares e comunidades locais. Pede também que a região se desenvolva com sustentabilidade.


No documento, os líderes religiosos ressaltam que “não podemos aceitar que a destruição da floresta e de tudo o que ela representa para nós, seja tratada com indiferença por parte das pessoas que pretendem governar esse vasto território de fundamental importância para o planeta Terra e para toda a humanidade”.


A iniciativa aponta que "a perda da floresta tem sido acompanhada por sofrimento, dor, miséria e desesperança para a maioria da população".


"A devastação caminha de braços dados com o aumento da violência, criminalidade e com as violações dos direitos humanos, especialmente contra os povos indígenas e as comunidades locais. Os 20 municípios campeões de desmatamento de 2019 a 2021 são também os campeões de pobreza, desigualdade e baixo progresso social", apontam.


"Pedimos que se comprometam com a retomada e atualização do Plano de Ação Para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia e que seja criada uma Estratégia Nacional para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, tendo a bioeconomia da floresta, a educação, o desenvolvimento científico, a valorização dos saberes e culturas tradicionais e o estímulo ao empreendedorismo como seus eixos principais, como proposto pelo Painel Científico da Amazônia e por outras iniciativas existentes."


A carta foi assinada por: Aliança Cristã Evangélica Brasileira (ACEB), Confederação Israelita do Brasil (CONIB), Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), Religiões pela Paz Brasil, União Nacional Islâmica (UNI), Federação Espírita Brasileira (FEB), Instituto Nangetu de Tradição Afro e Desenvolvimento Social Comitê Inter-religioso do estado do Pará. Casa Galiléia, Instituto Clima e Sociedade (ICS), Instituto de Estudos da Religião (ISER), Instituto Vladimir Herzog, Movimento pela Ética Animal Espírita (MOVE), Nós na Criação, Perifa Sustentável, Rede Cristã de Advocacia Popular (RECAP), Renovar nosso Mundo, Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), TEARFUND e Visão Mundial.


Confira a Carta Compromisso:


"AMAZÔNIA PARA SEMPRE

CARTA ABERTA DE COMUNIDADES RELIGIOSAS BRASILEIRAS PELA PRESERVAÇÃO DA AMAZÔNIA AOS CANDIDATOS E CANDIDATAS À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, GOVERNOS ESTADUAIS, SENADO E CÂMARA FEDERAL


Somos representantes de comunidades e organizações religiosas e manifestamos

nossa grande preocupação com a grave destruição do meio ambiente,

especialmente da floresta amazônica. Para nós, o amor ao divino, nas diversas

expressões do sagrado, das diferentes matrizes, inclusive aquelas das cosmovisões

indígenas, exige o cuidado com a vida na Terra e a natureza, que nos provêm

alimento, trabalho e a base de toda a vida em comunidade com nossos irmãos e

irmãs de fé.

A Amazônia é uma dádiva, é um paraíso na Terra, uma das mais maravilhosas

expressões do amor divino pela humanidade e por todos os demais seres da

natureza. Nela habitamos, dela dependemos para viver, nela encontramos beleza,

alimento, inspiração, saúde, alegria e esperança. Na harmonia de seus ecossistemas

encontramos o exemplo para vivermos em comunidade, cooperando uns com os

outros, através da compreensão de que tudo nela é solidário. No saber acumulado

pelos povos que habitam as florestas, temos a oportunidade de aprendermos como

viver em paz, entre nós e como parte da natureza.

Esse território abençoado é o lar de cerca de 180 povos indígenas conhecidos e

outros tantos isolados. A Floresta é lar também de grandes populações quilombolas

e de inúmeras comunidades locais e de cerca de 20% das espécies vivas existentes

no planeta. A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo é a grande fonte de

água doce para os oceanos e responsável pelo abastecimento hídrico de grande

parte do território brasileiro e do continente sul-americano. Cumpre papel

fundamental na regulação do clima do planeta, na ciclagem de carbono e de água e

fornece inúmeros produtos essenciais para a sobrevivência das populações locais e

para a economia brasileira. Guarda também um estoque gigantesco de carbono,

cuja conservação é vital para evitar o colapso climático da Terra.

Portanto, nos dirigimos aos senhores e senhoras para solicitar que exponham, em

suas ideias e práticas políticas, qual será seu compromisso e cuidado com a

preservação desta Casa Comum chamada Amazônia. Não podemos aceitar que a

destruição da floresta e de tudo o que ela representa para nós, seja tratada com

indiferença por parte das pessoas que pretendem governar esse vasto território de

fundamental importância para o planeta Terra e para toda a humanidade.

A M A Z Ô N I A P A R A S E M P R E


O panorama atual de devastação faz com que nos aproximemos cada dia mais do

momento em que nossa maravilhosa floresta amazônica deixará de ser a mais rica,

biodiversa e úmida, perderá seu dossel esplêndido, transformando-se em uma mata

savânica, com poucas espécies de plantas, árvores e animais. Temos pouco tempo

para agir a fim de evitar que a floresta seque ainda mais, aumentando a frequência e

o poder de devastação dos incêndios.

Estima-se que essa trágica situação deverá acontecer em alguns anos, como já

apontam instituições e relatórios científicos renomados, caso o desmatamento do

bioma atinja aproximadamente 25% de sua extensão. Já perdemos 21% da floresta

original e outros 20% dela estão muito degradados pela exploração ilegal de

madeira, garimpo e pelo fogo, sobretudo para abertura de pastagens e grilagem.

Apenas entre 2019 e 2021, foram destruídos 34.215 quilômetros quadrados de

florestas, uma área maior que muitos países, e perdemos 1,9 bilhão de árvores, o que

equivale a aproximadamente 20 árvores ceifadas por segundo. Isso sem contarmos

os bilhões de vidas perdidas ou extintas da fauna amazônica, como mamíferos,

insetos, répteis, aves e peixes, além dos micro-organismos do solo. Nesse mesmo

período, cerca de 2 bilhões de toneladas de CO2 foram liberadas na atmosfera, o

dobro da quantidade de CO2 emitida por toda a indústria da aviação mundial em

2019, agravando, assim, ainda mais a crise do sistema climático global.

Em 2021, as taxas de desmatamento aumentaram em todos os estados e atingiram

13.235 km2, um aumento de 75% em relação a 2018. Em apenas 3 dias deste mês, já

se registrou metade das queimadas ocorridas em todo o mês de setembro do ano

passado.

Ao contrário dos que dizem que o desmatamento é necessário para desenvolver a

região, constata-se que a perda da floresta tem sido acompanhada por sofrimento,

dor, miséria e desesperança para a maioria da população. A devastação caminha de

braços dados com o aumento da violência, da criminalidade e com as violações dos

direitos humanos, especialmente contra os povos indígenas e as comunidades locais.

Os 20 municípios campeões de desmatamento de 2019 a 2021 são também os

campeões de pobreza, desigualdade, violência e baixo índice de progresso social.

As promessas de desenvolvimento em seus programas de governo e plataformas

parlamentares dependem de recursos naturais da Amazônia, que foram

intensamente explorados no passado e que continuam sendo no presente, mesmo

em risco de esgotamento e extinção, para atender a demandas econômicas

nacionais e internacionais. O enfraquecimento das leis e da fiscalização ambientais e

o contínuo e impune aumento das atividades ilegais têm sido o fator de maior

devastação da floresta e agressão contra seus animais e suas populações.


Ressalte-se a resistência heróica das comunidades locais. Apenas 13% da área total

desmatada na bacia amazônica está no interior dos territórios indígenas e áreas

legalmente protegidas, mesmo com toda a pressão que enfrentam, com invasões

frequentes e todo tipo de agressão.

Em seu artigo 225, nossa Carta Magna estabelece que “todos têm direito ao meio

ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à

sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de

defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.” Além disso, define,

em seu parágrafo 4o, a Floresta Amazônica brasileira como patrimônio nacional,

obrigando o poder público a adotar medidas para sua preservação. Também, no

mesmo artigo, no parágrafo 1o, o inciso VII nos lembra o dever de “proteger a fauna e

a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função

ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade.”

Na Amazônia brasileira vivem cerca de 28 milhões de pessoas, que dependem da

preservação da floresta para viverem com dignidade. Portanto, é imperativo que o

Estado Brasileiro reoriente o modelo de desenvolvimento da região, abandonando o

modelo ganancioso de exploração dos recursos naturais e de desrespeito à terra, aos

animais e aos povos que dela vivem, para construir de forma democrática, com a

participação de todos, um modelo sustentável de desenvolvimento e preservação,

garantindo que a floresta amazônica viva para sempre e sua diversidade de povos e

culturas sejam igualmente preservadas.

Consideramos fundamental lembrar que o Brasil sabe como deter a devastação da

Amazônia. Entre 2004 e 2012, o desmatamento foi reduzido drasticamente. Caiu 83%,

sem aprofundar a pobreza nem paralisar a economia do país e da região amazônica.

Logrou-se esse extraordinário feito demarcando cerca de 50 milhões de hectares de

terras indígenas e criando 24 milhões de hectares de unidades de conservação e

diversos assentamentos para agricultura familiar. Somado a isso houve

fortalecimento das instituições públicas ambientais, ampliando a cooperação

internacional, combatendo a criminalidade e estimulando o crescimento da

economia e do emprego, mantendo-se a floresta em pé. Isso tudo só foi possível a

partir da ação integrada dos governantes dos três Poderes da República, da

transparência nos dados e informações e do diálogo e participação de cientistas,

organizações sociais, povos indígenas, comunidades locais e empresários.

Portanto, baseadas nessa experiência de sucesso, nós, lideranças religiosas das várias

tradições existentes no Brasil, dirigimos esse apelo aos senhores e senhoras

candidatos à Presidência da República, aos governos dos estados da Amazônia Legal

e aos candidatos aos parlamentos estaduais e federal.


Pedimos que se comprometam com a retomada e atualização do Plano de Ação

Para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia e que seja criada uma

Estratégia Nacional para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, tendo a

bioeconomia da floresta, a educação, o desenvolvimento científico, a valorização dos

saberes e culturas tradicionais e o estímulo ao empreendedorismo como seus eixos

principais, como proposto pelo Painel Científico da Amazônia e por outras iniciativas

existentes.

Esperamos o compromisso dos senhores e das senhoras à nossa Carta Aberta, e

solicitamos que em seus pronunciamentos públicos, propagandas eleitorais, planos

de governos e, sobretudo, nas prioridades estabelecidas em seus mandatos públicos,

a defesa da terra que nos foi dada, seja de fato cumprida. Pois o preceito religioso

que todos compartilhamos nos destina à solidariedade e ao cuidado da natureza e

das pessoas. Que Deus nos abençoe com a esperança de um futuro melhor para

todos os seres humanos e não humanos: para toda a natureza.


São Paulo - SP, 10 de setembro de 2022."