MP-RJ faz operação contra casas de jogos e prende delegada


Delegada Adriana Belém, ex-titular da 16ª DP, envolvida com organização criminosa, segundo o MP (Reprodução)

Uma operação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) prendeu nesta terça-feira (10) a delegada Adriana Cardoso Belém, ex-titular da 16ª DP (Barra da Tijuca). A delegada era um dos alvos da Operação Calígula, deflagrada para reprimir as ações de uma organização criminosa de jogos de azar chefiada pelo contraventor Rogério Andrade, o filho dele, Gustavo de Andrade, e o PM reformado Ronnie Lessa - preso pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson, em 14 de março de 2018. Na casa dela, os investigadores apreenderam quase R$ 2 milhões em espécie, guardados em sacolas de grifes famosas e dentro de uma mala de viagem.

Após a apreensão, o MP-RJ obteve a prisão preventiva da policial - famosa nas redes sociais por ostentação -, decretada pelo juiz da 1ª Vara Especializada do Tribunal de Justiça, Bruno Monteiro Rulière.

Para os promotores de Justiça, o alto valor encontrado na residência da delegada é um forte indício de lavagem de dinheiro.

Apesar de estar na "geladeira" da corporação desde as suspeitas de envolvimento com milicianos em 2020, Belém ainda recebe como delegada (R$ 27.248,23 no último mês). Além disto, está lotada na Secretaria Municipal de Esportes do Rio, no cargo de assessora, com salário de R$ 8.345,14.

Em 2020, ela foi candidata a vereadora do Rio, pelo Partido Social Cristão (PSC), mas não se elegeu.

Também naquela ocasião, ela perdeu a titularidade da 16ª DP um dia depois de o chefe do Setor de Investigações (SI) da delegacia, Jorge Luiz Camillo, ser preso por receber propina e dar apoio a milicianos que atuam na Zona Norte do Rio, como os da Muzema. Os milicianos eram alvos de investigação pela qual Belém era responsável. Segundo o MP-RJ, além do agente, outros sete policiais (um civil e seis PMs) teriam ligações com milicianos.

Camillo, que foi preso em casa, segundo o MP, foi flagrado em uma "intensa sequência de diálogos" com Ronnie Lessa, acusado de ser o autor dos disparos contra Marielle.

Na operação, foi preso também o delegado Marcus Cipriano, apontado como intermediário da apresentação de Belém à organização criminosa. Na casa dele, os agentes encontraram uma copia da decisão de prisão proferida pelo juiz Bruno Ruliere. O achado fez a promotoria concluir que houve vazamento da operação. O delegado Marcos Cipriano é conselheiro da agência de Energia do Rio.

Operação Calígula

Agentes da Força Tarefa do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) para o caso Marielle e Anderson e da Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI/MPRJ) saíram às ruas para cumprir 29 mandados de prisão e 119 de busca e apreensão, inclusive em quatro bingos comandados pelo grupo. Segundo o MP-RJ, um total de 30 pessoas são alvos de denúncia pelos crimes de organização criminosa, corrupção ativa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. No total, foram presas 12 pessoas.

As denúncias apresentadas pelo MP-RJ indicam que Rogério de Andrade, o filho dele e Ronnie Lessa comandam uma estrutura criminosa organizada, ligada à exploração de jogos de azar que se estende a diversos estados além do Rio de Janeiro, locais onde há décadas exerce o domínio.

Corrupção e homicídios De acordo com os promotores de Justiça, a ação do grupo se baseia em dois pilares: “A habitual e permanente corrupção de agentes públicos e o emprego de violência contra concorrentes e desafetos, sendo esta organização criminosa suspeita da prática de inúmeros homicídios”.

No entendimento dos promotores, a organização tem acertos de corrupção estáveis com agentes públicos integrantes de diversas esferas do Estado, principalmente ligados à Segurança Pública. Entre eles, agentes da Polícia Civil e da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.

“Nesta esfera, integrantes da organização, membros da PCERJ [Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro], mantinham contatos permanentes com outros policiais corruptos, pactuando o pagamento de propinas em contrapartida ao favorecimento dos interesses do grupo”, indicou.

Já na Polícia Militar, oficiais da corporação “serviam de elo entre a organização e Batalhões de Polícia, que recebiam valores mensais para permitir o livre funcionamento das casas de apostas do grupo”.

O MPRJ citou um dos episódios de atuação desses integrantes, quando o delegado Cipriano intermediou encontro entre Ronnie Lessa, a delegada Adriana Belém e o inspetor Camillo. Segundo os promotores, o encontro resultou em acordo que permitiu a retirada em caminhões de quase 80 máquinas caça-níquel apreendidas em casa de apostas da organização criminosa, tendo o pagamento da propina sido providenciado por Rogério Andrade.

Ainda com base nas investigações, um policial civil aposentado foi denunciado como integrante do grupo e como alguém que recebia propinas. Ele seria a ligação do grupo com diversas delegacias. O policial aposentado agiria em favor de integrantes do alto escalão da Polícia Civil.

Para o MPRJ, a parceria entre Rogério Andrade e Ronnie Lessa para a prática de ações criminosas apontada nas denúncias é antiga e há elementos de prova de sua existência ao menos desde 2009. À época, Ronnie aparecia como um dos seguranças do contraventor. O PM reformado perdeu uma perna em atentado à bomba que explodiu no seu carro em outubro de 2009.

Em 2018, os dois denunciados se reaproximaram e abriram uma casa de apostas na localidade conhecida como Quebra-Mar, na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio. As investigações apontam que há elementos indicando a previsão de inauguração de outras casas na mesma região da cidade.

Os promotores concluíram ainda que o bingo financiado por Rogério Andrade e administrado por Ronnie, o filho do contraventor e outros comparsas, foi fechado pela Polícia Militar no dia da inauguração, mas depois de “ajustes de corrupção com policiais civis e militares, a mesma casa foi reaberta, e as máquinas apreendidas foram liberadas”.

O dinheiro apreendido, em sacolas de grifes, na casa da delegada Adriana Belém (Reprodução)
Agentes estouram bingo clandestino da organização criminosa (Foto: Divulgação/MP-RJ)

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