Mulher pisada no pescoço por PM vira ré na versão do MP



Momento em que o policial pisa no pescoço da mulher negra em São Paulo (Reprodução)

A promotora de Justiça Flávia Lias Sgobi, do Ministério Público do Estado de São Paulo, ofereceu denúncia contra uma mulher negra que foi vítima de violência policial durante uma ocorrência em maio do ano passado, em Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo. De vítima das agressões, confirmadas e reconhecidas até pela Justiça Militar onde dois PMs são réus por lesão corporal, abuso de autoridade e falsidade ideológica, a mulher é acusada pela promotora por crimes de desacato, resistência, lesão corporal e de infração de medida sanitária preventiva. Ou seja, para o MP estadual, os policiais são as vítimas das agressões.

Na ocasião, os policiais até teriam se safado, não fosse um vídeo com imagens das agressões, com um dos policiais pisando e jogando todo o seu peso sobre o pescoço da vítima. O vídeo foi revelado, na época, pelo Fantástico, da TV Globo.

“Quanto mais eu me debatia, mais ele apertava a botina no meu pescoço”, descreveu a mulher na ocasião, chegando a citar o caso de George Floyd, homem negro assassinado em Minneapolis no dia 25 de maio de 2020, estrangulado pelo policial branco Derek Chauvin.

“”Achei que iria ser morta como ele [George Floyd]. Eu estava no chão e lembrava daquela cena dele. Achei que iria morrer ali”, disse a mulher, naquela ocasião.

O caso repercutiu também no exterior, e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), declarou que reprovava a ação dos policiais.

Na Justiça Militar, os dois PMs foram denunciados pela Promotoria, inclusive, por terem mentido no Boletim de Ocorrência, e respondem pelos crimes em liberdade, mas afastados das atividades de rua na corporação.

Para o MP estadual, no entanto, prevalece a versão dada pelos próprios policiais no dia da ocorrência registrada na delegacia; antes, portanto, de o vídeo ser divulgado.

O advogado Felipe Morandini, que defende a mulher negra, se disse perplexo com a decisão do Ministério Público estadual.

“Em acompanhamento processual, para minha surpresa e estarrecimento, recebi a notícia de que minha cliente foi denunciada pelos crimes de infração à medida sanitária preventiva, desacato, resistência e lesão corporal em face dos Policiais Militares que a agrediram, de forma brutal”, disse ele, citado pelo G1.

“Mesmo após a notícia ter se espalhado o mundo, e causado revolta em todos, a mesma foi ignorada pelo membro do Ministério Público, que se baseou nas informações do Boletim de Ocorrência. Ignorou as imagens que foram noticiadas, e são de conhecimento público. Trabalharei incansavelmente pela defesa da comerciante, e principalmente, para que esta denúncia seja rejeitada pelo juízo. Não é (e não pode ser) possível que fatos notórios como estes sejam ignorados pelo Órgão Ministerial no momento de denunciar qualquer um que seja”, concluiu o advogado.


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