Mundo homenageia Elza

Atualizado: 22 de jan.


(Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Idolatrada em sua despedida, Elza Soares teve o corpo velado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro nesta sexta-feira (21). Integrantes da Mocidade Independente de Padre Miguel prestaram a última homenagem da escola de samba, da qual ela já foi intérprete e enredo. No fim da tarde, o corpo de Elza foi enterrado no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, na Zona Oeste da cidade.

As homenagens foram muitas, logo a partir dos primeiros momentos depois da confirmação da morte da cantora, aos 91 anos, na quinta-feira. Artistas, políticos e anônimos lamentaram a partida daquela que está na história como uma das maiores cantoras do Brasil – eleita “A Voz Brasileira do Milênio”, em uma pesquisa da rádio BBC de Londres, feita em 1999. A notícia logo correu mundo. Os principais jornais americanos e europeus desta sexta-feira homenageiam a cantora, que teve a voz comparada pelo The New York Times a de Louis Armstrong.

"Elza Soares ultrapassou as fronteiras da música brasileira", afirma o NYT em manchete. "Com uma voz rouca comparada a de Louis Armstrong, ela foi uma das poucas mulheres negras no Brasil a aparecer em filmes nos anos 1960 e na televisão nos anos 1970", diz o jornal, destacando ainda que, em uma época que era considerado "deselegante" discutir questões raciais e a pobreza, Elza "permaneceu fiel a suas raízes".

O correspondente do jornal britânico The Guardian no Rio de Janeiro, Tom Philipps, lembra de Elza como "uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos". O jornalista resgata a trágica infância da artista e informa que, apesar de todas as dificuldades, Elza "floresceu para se tornar uma das artistas mais amadas do Brasil, gravando mais de 30 álbuns depois de sua carreira deslanchar no final dos anos 1950, no pico do movimento da Bossa Nova".

The Guardian lembra que sua base de fãs incluía até o Palácio de Buckingham. Quando a rainha Elizabeth II visitou o Brasil, em 1968, Elza se apresentou para a monarca que "até acompanhou o ritmo batendo o pé", contava a própria artista.

O jornal português Público classifica a sambista como "a rainha insubmissa" e "a voz da liberdade", e recorda uma entrevista de Elza em 2019. “Nasci pobre, negra, mulher. É difícil, mas a gente vence”, disse ao Público na época.

O jornal italiano La Reppublica destaca que Elza foi considerada pela revista Rolling Stone como "uma das 100 maiores vozes do mundo", e "uma artista de múltiplas facetas", que, além do samba, fez sucesso com outros ritmos, como o jazz, funk, música eletrônica e hip-hop.

Na França, as homenagens da imprensa não foram menores, como na matéria do Le Monde enfatizando "a diva da música brasileira" e o seu engajamento político, que não diminuiu ao longo dos anos. Lembra ainda que, mais recentemente, Elza criticava abertamente a ascensão do conservadorismo no Brasil, as igrejas neopentecostais e o agravamento do racismo.

Já o Franceinfo, lembra que "Elza Gomes da Conceição Soares se tornou um símbolo de resistência e coragem até o final de sua vida". O texto destaca o Grammy conquistado com o álbum "A Mulher do Fim do Mundo", lançado em 2015. "O disco trata de racismo, machismo, da violência contra as mulheres, conhecendo um sucesso imenso e recompensado pelo Grammy latino do melhor álbum de música brasileira", diz.

Artistas e políticos prestam homenagens

“Com muita tristeza recebemos hoje a notícia da partida da nossa querida Elza Soares. Perdemos não só uma das melhores cantoras e vozes mais potentes do Brasil, mas também uma grande mulher, que sempre defendeu a democracia e as boas causas”, postou o ex-presidente Lula, no Twitter, com uma foto abraçado com a cantora.

"Sua luz, ainda mais neste momento sombrio da vida brasileira, fará muita falta! Mas seu exemplo, sua música e sua arte, serão eternos! Meus sentimentos aos familiares, amigos e milhões de pessoas que, assim como eu, são seus fãs", tuitou o ex-ministro e pré-candidato a presidente, Ciro Gomes (PDT), acrescentando ainda: "O Brasil perde uma de suas vozes mais fortes, representativas e mundialmente conhecidas. Elza Soares, que foi eleita uma das maiores artistas do mundo, teve sua vida marcada pela superação. Sua história é símbolo de luta pelo direito das mulheres, dos negros e dos mais pobres."

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, decretou luto oficial de três dias na cidade.

O deputado federal Marcelo Freixo (PSB-RJ) disse que “Perdemos hoje uma das maiores cantoras de todos os tempos, a voz de um Brasil que é liberdade, potência e beleza. Descanse em paz, Elza Soares. Obrigado por tudo”.

Caetano Veloso chamou Elza de “uma concentração extraordinária de energia e talento no organismo da cultura brasileira”.

Leci Brandão destacou que Elza é uma referência como artista e mulher. “Quanta tristeza! A nossa DIVA Elza Soares fez sua passagem hoje. A Voz do Milênio, Elza é uma referência de mulher, artista e ser humano. Elza é eterna! Eu agradeço por sua passagem iluminada nesse mundo. Que Olorum a receba em festa...”.

A atriz Taís Araújo, que interpretou Elza no cinema, também se manifestou. “Dura na queda, nos ensinou a levantar a cabeça a cada tombo e depois seguir”, disse.

A Mocidade Independente de Padre Miguel, escola de samba de coração da cantora, anunciou luto de três dias. “Em nome do presidente Flávio Santos e do vice-presidente Luiz Claudio Ribeiro, a Mocidade Independente de Padre Miguel, profundamente consternada, anuncia luto de 3 dias em virtude do falecimento da nossa grande eterna deusa, Elza Soares. O ensaio do próximo sábado está cancelado”, anunciou em nota oficial.

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