Niterói em movimento: pedalar é preciso

Por Mehane Albuquerque


Durante décadas, Niterói foi vista como uma 'cidade náutica'. A cultura marítima está impregnada nas raízes do território niteroiense há centenas de anos, e foi reforçada com a presença de famílias estrangeiras que se estabeleceram no município, ainda no século XIX. Uma boa parte delas chegou aqui para trabalhar na construção da via férrea, ou em algumas das primeiras indústrias fluminenses, que se basearam em São Gonçalo, ou na indústria naval, que começava a despontar. Ingleses, alemães e dinamarqueses, principalmente, trouxeram na bagagem a relação íntima com o mar e a paixão por barcos.

Divulgação/ Prefeitura de Niterói

Nos últimos anos, Niterói passou a ser reconhecida também como a 'cidade das bicicletas'. O século XXI trouxe novos desafios. O principal deles: mobilidade urbana versus emissão de carbono. Para resolver essa equação, porém, não basta apenas criar quilômetros e mais quilômetros de ciclovias. É preciso construir uma cultura ciclística, diferentemente da vocação marítima que aqui se estabeleceu como resultado de um processo histórico.


Para criar essa 'cultura de duas rodas', o município tem investido pesado em políticas públicas de incentivo ao modal, oferecendo conforto e segurança para quem pedala, criando infraestrutura de apoio - com paraciclos, bicicletários, etc. — e mostrando que é possível uma mudança no estilo de vida para acompanhar os novos tempos.

Divulgação/ Prefeitura de Niterói

A cidade, por sua vez, convida. São paisagens de tirar o fôlego em trajetos que acompanham a orla e as montanhas, tornando a experiência única. E nem é preciso mencionar os benefícios para a saúde. Pedalar é um dos exercícios mais completos que existem e que alia aspectos lúdicos e prazerosos à atividade.


Entre os investimentos, a prefeitura criou uma coordenadoria só para tratar do assunto, que é a responsável pela implementação do programa 'Niterói de Bicicleta'. Uma das iniciativas do programa para forlalecer essa cultura foi de cunho educativo: a sensibilização de motoristas de ônibus. Os rodoviários participaram de uma experiência, realizada no Caminho Niemeyer, em que trocaram o volante pelo guidon.

Divulgação/ Prefeitura de Niterói

Sentados em bikes presas ao chão, com vários carros de coletivos passando bem ao lado, os rodoviários sentiram na pele como a presença de um ônibus imenso rente ao corpo do ciclista pode ser assustador.


Cidade ciclável


No esporte, lazer ou como meio de transporte, as bikes aos poucos vão ganhando as ruas e os bairros, se tornando tão parte do cenário quanto as tradicionais embarcações que ajudam a contar a história da cidade. O município hoje é referência nacional e internacional em sustentabilidade, e um dos pontos que sustentam essa posição são as ações e compromissos assumidos para o corte de emissões de dióxido de carbono.


Como modal de transporte, as bicicletas —— ao lado dos veículos elétricos ou movidos a combustíveis verdes, como o hidrogênio — têm muito a contribuir para a despoluição do ambiente urbano.

Foto: Douglas Macedo / Prefeitura de Niterói

Niterói conta com cerca de 60 quilômetros de ciclovias construídas. A meta da prefeitura é ultrapassar a marca de 120 quilômetros até 2024 e transformar a cidade em uma das mais 'cicláveis' do Brasil. Medidas importantes para atingir essa meta foram colocadas em prática recentemente.


O edital de licitação para a contratação do projeto da Ciclovia-Parque Lagoa de Itaipu foi publicado no dia 19 de julho. O valor do investimento é de R$ 5.869.907,33 e inclui a elaboração de estudos preliminares, projetos básicos, projetos executivos e planos de gestão, monitoramento e manutenção.


Rota Translagunar


A Ciclovia-Parque integrará a Rota Cicloviária Translagunar, atualmente em implantação pelo Programa Niterói de Bicicleta, através do PRO Sustentável — um plano de ações cujo objetivo principal é a despoluição e revitalização das lagoas e rios da Região Oceânica. A Translagunar começa no Túnel Charitas-Cafubá, percorre o Parque Orla de Piratininga AlfredoSirkis - POP, chegando até as imediações das praias de Itaipu e Itacoatiara.

Sistema Cicloviário previsto para a Região Oceânica. Em Azul, o Sistema Cicloviário Parque Itaipu / Prefeitura

Toda a malha na Região Oceânica integra-se à das praias da Baía de Guanabara através das ciclovias existentes no interior de cada galeria do túnel Charitas-Cafubá.


Segundo a prefeitura de Niterói, a Ciclovia-Parque Lagoa de Itaipu será uma 'ciclovia estruturante', que interligará todas as demais na Região Oceânica. As obras incluem o traçado da própria pista, a revitalização da praça e horta comunitária da Amaravista (Associação dos Moradores e Amigos do Maravista) e a criação de mil metros quadrados de espaços para uso público ao longo do sistema cicloviário.


Para definir os detalhes que envolvem o projeto estão previstas ao menos 11 reuniões setoriais e três reuniões gerais com a população. Em seu blog, o prefeito Axel Grael comemorou a conquista e também destacou os avanços no bairro de Piratininga.


"Estamos próximos de abrir mais uma grande frente de implantação da Malha Cicloviária da Região Oceânica, que iniciou-se com a implantação das ciclovias da orla de Piratininga, pelas avenidas Almirante Tamandaré e Dr. Acúrcio Torres, vem avançando pelo Parque Orla de Piratininga e está em implantação na Avenida Irene Lopes Sodré", contou ele.

Projeto de implantação da ciclovia na Avenida Irene Lopes Sodré / Prefeitura de Niterói

Axel adiantou que está em fase de conclusão a licitação para contratar empresa especializada para executar as obras de implantação do Lote 2 do Sistema Cicloviário da Região Oceânica. O Lote 2 inclui os bairros de Camboinhas, Itaipu, Itacoatiara, Serra Grande, Santo Antônio e Piratininga. O projeto integra o Programa Região Oceânica Sustentável – PRO Sustentável, com financiamento da Corporação Andina de Fomento (CAF).


Em breve, segundo o prefeito, será anunciada a ordem de início dos trabalhos à empresa vencedora da licitação. O valor estimado para o Lote 2 era de R$ 5.067.375,65. Porém, a empresa vencedora apresentou um custo total de R$ 4.258.171,50, o que significa uma economia de 16% para os cofres municipais.


Consulta pública para ciclistas


O Projeto Niterói de Bicicleta lançou uma consulta pública para os ciclistas da cidade. O órgão quer ter mais detalhes sobre como é a experiência dos niteroienses que pedalam pelas ciclovias do município. O objetivo é incentivar mais pessoas a conhecerem os benefícios de andar de bicicleta. Para responder à consulta, acesse o aplicativo do Colab ou o link.


Bicicletário Arariboia / Prefeitura de Niterói

Mercado aquecido


Apesar dos esforços da prefeitura para colocar a cidade na dianteira dos avanços ambientais, alguns moradores criticam as ciclovias, alegando que os investimentos nessa área são equivocados ou desnecessários.


Talvez não saibam que a construção da malha cicloviária em Niterói tem gerado centenas de postos de trabalho em um momento de alto desemprego. E que as atividades ciclísticas movimentam um nicho de mercado que só faz crescer, aquecendo a economia local com a compra e venda de bicicletas - elétricas, inclusive —, além do comércio de acessórios e da prestação de serviços com reparos, manutenção, aluguel e guarderia.


É fundamental que a população compreenda que não dá mais para esperar. A transição para um modelo de desenvolvimento mais sustentável precisa ser feita agora. Ou poderá ser tarde demais.

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