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Rússia-China consolidam a nova Rota da Seda contra atlanticistas

Por Cíntia Xavier Dias

(Correspondente-colaboradora do TODA PALAVRA na Rússia)


Moscou - No mês de outubro, nos dias 17 e 18, a cidade de Pequim sediou a terceira reunião do Fórum do Cinturão e Rota, mais conhecido como a Nova Rota da Seda, que celebra seu décimo aniversário desde sua inauguração em 2013. Este evento contou com a presença do presidente russo, Vladimir Putin, ao lado de Xi Jinping, a liderança chinesa. A reunião reforçou os planos da China, com a concordância russa, para o aprofundamento da cooperação infraestrutural e econômica na Ásia Central, a partir de iniciativas de benefício mútuo.


De acordo com Kirill Babaev, membro do Instituto da China e Ásia Moderna, a Rússia desempenhou um papel de destaque no evento, chamando a atenção da imprensa tanto chinesa quanto ocidental. O jornal chinês Diário da China relatou, após o fórum, as trocas de elogios que ocorreram durante o evento, destacando que o presidente Putin se referiu ao presidente chinês como "querido amigo". Xi Jinping, por sua vez, retribuiu o elogio, chamando o líder russo de "um velho amigo".

Na sessão de abertura do fórum, o presidente russo tomou a palavra logo após o discurso inaugural da autoridade chinesa. Em seu pronunciamento, Putin elogiou a Nova Rota da Seda como uma iniciativa destinada a promover “a construção de um mundo multipolar mais justo”, o que pressupõe, para ele, neutralizar a influência e o domínio atlanticista sobre a região. O presidente enfatizou a importância desse "circuito de integração" abrangendo comércio, investimentos, empregos e infraestrutura e também destacou o objetivo de criar um "grande espaço euro-asiático" autônomo e independente, enfatizando a convergência dos projetos chineses e russos para a Ásia Central.

A parte russa sublinhou a significativa relevância dos projetos de infraestrutura interconectada durante o evento. Como exemplos notáveis, foi destacado o Corredor Norte-Sul, a modernização da ferrovia Transiberiana, a construção da ferrovia Latitudinal Norte, a Ferrovia Norte Siberiana e as rotas ferroviárias em direção à China e à Mongólia. Além disso, a importância da utilização da Rota do Mar do Norte, integrada aos centros logísticos do sul da Eurásia. O presidente Xi Jinping, por sua vez, demonstrou grandes expectativas em relação à construção do gasoduto Rússia-Mongólia-China, um empreendimento inserido no projeto "Power of Siberia — 2". Este gasoduto pode, no futuro, servir como alternativa às compras chinesas de gás de parceiros ocidentais.

A Ásia Central ocupa uma posição central no interesse da cooperação infraestrutural entre Rússia e China, sendo as iniciativas individuais de ambos os países consideradas vantajosas para seus líderes. Essa colaboração impulsiona a região a se consolidar como uma base econômica para as duas grandes potências, que reconhecem os benefícios da integração em infraestrutura, economia e política. Tal enfoque colaborativo também ajuda a prevenir a desestabilização, as ameaças à segurança nacional dos estados locais e a influência de atores ocidentais.

Embora haja potencial para competição econômica entre as duas nações de grande porte, Rússia e China compartilham interesses comuns em várias questões na região. Estes incluem a promoção da estabilidade, o combate ao terrorismo, o desenvolvimento de infraestruturas e o estímulo ao aumento da conectividade e desenvolvimento industrial.


Os interesses da Rússia

Até 1991, as nações da Ásia Central, compreendendo o Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguistão, eram parte integrante da União Soviética, o que resultou na persistência das influências da cultura russa até os dias atuais. Na região, nota-se a presença significativa de minorias étnicas russas em sua população, com destaque para o Cazaquistão e o Quirguistão. O Cazaquistão, em particular, compartilha uma extensa fronteira ao norte com a Rússia, bem como uma fronteira a leste com a China, enquanto a última compartilha limites territoriais com o Quirguistão e o Tadjiquistão.

Na geopolítica russa, a região denominada "espaço pós-soviético" desempenha um papel vital em sua estratégia como uma potência regional na Eurásia. Além de compartilhar elementos culturais da Rússia e do período soviético, os países da Ásia Central também mantêm laços econômicos estreitos com a Federação Russa, cumprindo funções geopolíticas específicas devido à sua localização estratégica. Os interesses da Rússia nessa região se concentram em questões de segurança regional, incluindo a presença militar, contenção de influências externas, combate ao extremismo e terrorismo, bem como em iniciativas de cooperação econômica, integração regional e proteção dos direitos das minorias russas.


A Ásia Central é frequentemente considerada uma "zona-tampão" que atua como uma barreira em relação às áreas instáveis do Oriente Médio. A garantia da estabilidade política e econômica nessa região assume um papel de extrema importância para a segurança de Moscou. Com isso em mente, a Rússia estabeleceu acordos bilaterais sobre segurança e presença militar, em especial com o Cazaquistão e o Quirguistão. Essas parcerias envolvem a cooperação na capacitação das forças de segurança nacionais, a implantação de equipamentos de defesa militar coletiva e a realização de exercícios militares conjuntos.

Conforme relatado pelo portal Kommersant, o parlamento do Quirguistão ratificou recentemente um acordo com a Rússia que estabelece a criação de um sistema regional unificado de defesa aérea. Essas medidas visam promover a estabilidade na região e preservar a capacidade de projeção do poder russo na Ásia Central.

O combate ao terrorismo e extremismo na região é fulcral para os interesses russos, uma vez que organizações como o Estado Islâmico e o Movimento Islâmico do Uzbequistão (IMU) operam na Ásia Central, engajando-se na radicalização e recrutamento de civis. Além disso, a Federação Russa está preocupada com o tráfico de armas, drogas e o trânsito de mercenários que seguem para conflitos em outras regiões, notadamente no Oriente Médio, fatores que contribuem para a desestabilização.

A contenção de influências exteriores também é um componente crítico em relação à segurança e à estabilidade na região. Evitar a ascensão de governos com tendências ocidentalistas na Ásia Central, que ameacem o equilíbrio de poder e busquem desfazer os laços de cooperação e amizade com a Rússia, é uma prioridade. Esses governos, caso adotem posturas hostis em relação à Moscou, sua cultura e diáspora, representam um risco. Portanto, as relações bilaterais entre a Federação e os países da região também têm o propósito de fortalecer a cooperação entre os governos, promovendo a ideia de que Moscou é um parceiro preferencial e confiável. Isso visa evitar que esses países se tornem agentes da política americana e europeia na região.

Na esfera de cooperação econômica e integração regional, além de manter uma zona de mercado acessível para os produtos russos, o notável potencial energético da região merece destaque, com a extração de gás e petróleo sendo de interesse primordial. Nesse sentido, a Rússia tem um claro interesse na industrialização e no desenvolvimento da infraestrutura na região, visando aprimorar a logística e reduzir custos.

De acordo com relatórios do portal de notícias Kommersant e informações divulgadas pela agência Sputnik ainda neste mês, a Rússia anunciou seu plano de iniciar o fornecimento de gás ao Uzbequistão por meio do território cazaque. Além disso, quatro parques industriais serão construídos no Uzbequistão com o apoio russo, estabelecendo-se nas cidades de Chirchik, Jizzakh, Bukhara e Samarcanda.

Na esfera institucional, a coordenação da integração em infraestrutura, economia e questões de segurança, juntamente com iniciativas bilaterais, é realizada principalmente por meio de organizações como a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), a União Econômica Euro-Asiática (UEE) e a Organização para Cooperação de Xangai (OCX).

Como parte do interesse da Rússia na interconexão de projetos de infraestrutura, em 2021 foi publicado um relatório que analisa as perspectivas de integrar o desenvolvimento da União Econômica Euro-asiática com a Iniciativa Cinturão e Rota da China, como parte do conceito de estabelecer um "grande espaço euro-asiático".

No aspecto humanitário, a proteção da diáspora russa na Ásia Central é um tema de grande relevância para a Federação Russa. Após o colapso da União Soviética, russos étnicos se encontraram dispersos por todos os ex-membros da URSS, sendo a Ásia Central uma região onde uma significativa minoria étnica russa se encontra, com destaque para o Cazaquistão e o Quirguistão. A Rússia tem implementado iniciativas em colaboração com os países da Ásia Central, abrangendo questões como educação, mídia, cultura, direitos culturais e linguísticos, assistência diplomática e concessão de cidadania russa.

Neste mês, a Duma Estatal da Federação Russa anunciou a ratificação de um acordo com o Quirguistão para a construção de nove escolas de língua russa na república. De acordo com informações da agência Kommersant, os formandos dessas escolas terão a oportunidade de obter dois diplomas, um quirguiz e outro russo, após a conclusão de seus estudos.


Os interesses da China

Tradicionalmente, a China conduzia principalmente negociações bilaterais com os países da Ásia Central, focando em áreas de interesse mútuo. As exceções eram as discussões realizadas nos quadros da Organização para Cooperação de Xangai (OCX) e da Iniciativa do Cinturão e Rota. No entanto, desde a realização da primeira Cúpula China-Ásia Central em maio deste ano, a China demonstrou um aumento significativo em seu interesse pela região, conferindo-lhe maior relevância. Essas discussões coletivas, juntamente com a celebração dos dez anos da Nova Rota da Seda, visam fortalecer ainda mais os laços econômicos e políticos da China na região, como parte de sua estratégia de longo prazo como potência global.

Dentre os tópicos de interesse da China na Ásia Central, destacam-se: recursos naturais e potencial energético, oportunidades de mercado e comércio, estabilidade, segurança e geopolítica, infraestrutura, conectividade e cooperação regional.


A Ásia Central é uma região rica em recursos naturais, e o seu potencial energético desperta o interesse tanto da Rússia quanto da China. Gás, petróleo, minerais e metais preciosos têm uma grande importância para os chineses, tornando essa região uma fonte estratégica e de proximidade para esses recursos essenciais. Facilitar o acesso ao gás e petróleo da Ásia Central é de extrema importância para impulsionar o crescimento econômico chinês, implicando investimentos em oleodutos e gasodutos que conectem a região ao país.

Do ponto de vista geoeconômico, a Ásia Central oferece à China uma oportunidade significativa, pois sua proximidade permite a redução da dependência de rotas marítimas vulneráveis para o transporte de petróleo e gás.

A Nova Rota da Seda, com suas iniciativas de desenvolvimento de infraestrutura, faz parte do plano de integração regional, econômica e projeção de poder de Pequi. O objetivo é impulsionar a industrialização da região, aprimorando as infraestruturas de transporte, incluindo ferrovias, rodovias e telecomunicações, e fortalecendo as relações sino-centro-asiáticas.

O Cinturão Econômico da Rota da Seda, parte do projeto "One Belt, One Road" que também abrange a Rota da Seda Marítima do Século XXI, planeja estabelecer diversos corredores econômicos, abrangendo a Eurásia, a rota China-Mongólia-Rússia, a Ásia Ocidental, China-Paquistão, China-Índia e China-Sudeste Asiático. Os principais pontos deste cinturão terrestre incluem cidades como Xi'an (China), Almaty (Cazaquistão), Bishkek (Quirguistão), Samarcanda (Uzbequistão), Teerã (Irã), Istambul (Turquia), Moscou (Rússia) e Duisburgo (Alemanha).

A abertura de mercados para os produtos chineses e a harmonização das regulamentações comerciais desempenham um papel crucial no plano de integração, estimulando um aumento dos investimentos chineses na região.

Assim como a Rússia, a China tem interesse em promover a segurança e estabilidade na região, para combater o extremismo e as organizações terroristas que podem ameaçar as zonas de fronteira. O país oferece cooperação no treinamento e fornecimento de equipamentos para as forças de segurança locais, compartilhamento de inteligência e iniciativas de educação e intercâmbio cultural, visando conter o potencial de radicalização extremista na região.

A Organização para Cooperação de Xangai (OCX), estabelecida em 2001, representa uma iniciativa conjunta da China, Rússia e países da Ásia Central para coordenar esforços no combate ao terrorismo e na promoção da estabilidade regional.

Da mesma forma, as relações bilaterais entre a China e os países da Ásia Central procuram evitar qualquer desequilíbrio de poder na região, impedindo o surgimento de governos com orientações ocidentais que possam adotar uma postura hostil em relação à China. Nesse contexto, o país também visa estabelecer sua reputação como um parceiro confiável e preferencial, reduzindo a influência de atores externos na região, incluindo os Estados Unidos.


Projeto geopolítico

Apesar da possibilidade de competição, uma vez que russos e chineses têm seus próprios projetos e interesses individuais na Ásia Central, o que pode alimentar rivalidades econômicas de menor escala e gerar preocupações por parte dos russos, que vêem a região como parte de seu "espaço pós-soviético" e observam a crescente influência chinesa, a cooperação russo-chinesa na integração regional da Ásia Central é, de forma geral, vista como benéfica para os países da região. Ambos países enxergam positivamente suas respectivas iniciativas de integração e, ao menos em discursos, buscam conectá-las por meio de uma interligação de circuitos.

No âmbito econômico, a colaboração no desenvolvimento de infraestrutura e conectividade tem o potencial de ser mutuamente vantajosa para ambas as principais partes envolvidas. Isso se deve à redução de custos e ao aprimoramento do desenvolvimento tecnológico e logístico na região, que passa a interconectar a infraestrutura da Rússia, dos países da Ásia Central e da China por meio de seus projetos de desenvolvimento respectivos. Uma infraestrutura compartilhada pode beneficiar ambos os atores, dado o alinhamento dos interesses no potencial de produção de cada um.

No âmbito geopolítico, a coordenação entre Rússia e China na Ásia Central também serve para conter a influência de atores estrangeiros, como os Estados Unidos, cuja presença na região é vista como uma ameaça à estabilidade de ambos, já que visa afastar os países da Ásia Central de suas relações amistosas com os dois gigantes.

Assim, a cooperação entre Rússia e China, além de beneficiar ambos economicamente, fortalece iniciativas que diminuem a presença dos Estados Unidos na região, limitando sua influência global. Do ponto de vista dos países da Ásia Central, equilibrar-se entre Rússia, China e Estados Unidos faz parte dos desafios da política externa regional, já que precisam navegar entre as esferas de influência das grandes potências regionais e globais.


Com informações de Kommersant e Sputnik.

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