top of page

O alto custo do combustível e a sinfonia orquestrada da privatização


(Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Por Rosangela Buzanelli (*)

Revisitemos a história recente. Alvo da cobiça internacional, especialmente após a descoberta do pré-sal, a Petrobrás foi um dos principais focos do golpe de 2016. Temer então nomeia para a presidência da empresa o rei do apagão, Pedro Parente, que imediatamente adota o PPI (Preço de Paridade de Importação) para o petróleo e seus derivados, além de outras medidas combinadas com o Congresso no sentido de fatiar e entregar as riquezas descobertas e construídas pela estatal.


Mantido o PPI pelo atual governo, aliado à alta no valor do barril do petróleo com o reaquecimento da economia mundial, associado ao descontrole do câmbio, os preços no Brasil, país produtor e exportador de petróleo, dispararam. Baseados na paridade de importação e não nos custos reais, os preços estão instáveis e altíssimos, afetando a economia e fomentando a alta da inflação.


Um quadro desesperador para milhões de brasileiros, que não suportam mais o alto custo de vida, onde os principais atores políticos do país ensaiam, em perfeita harmonia orquestral, a sinfonia da privatização da Petrobrás como “solução” para os altíssimos preços dos combustíveis e do gás de cozinha.


Nesse cenário de caos econômico, social, sanitário e ambiental, que Bolsonaro e sua equipe mergulharam o Brasil, envolvendo a alta dos combustíveis e da inflação, o presidente declarou à imprensa, na semana passada, que tem “vontade” de privatizar a Petrobrás. O seu vice, Hamilton Mourão, afirmou pouco depois que concorda com a venda da companhia “no futuro”. O “gênio” da economia, Paulo Guedes, já havia deixado bem claro seu desejo de negociar a Petrobrás e cogita perder o frágil controle governamental da empresa, negociando suas ações ordinárias para “fazer programas sociais”, afinal, 2022 está chegando. E os presidentes da empresa combatem o “controle” de preços com exemplos que demonstram o contrário do que tentam provar.


Com críticas frequentes à alta dos combustíveis, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, declara ser favorável à venda da empresa. Aprovou na semana passada na Câmara uma questionável, econômica e juridicamente, proposta eleitoreira para “abaixar” os preços atacando os impostos estaduais, em sintonia com a “vontade” presidencial, inalterados há anos, cuja ineficácia será comprovada rapidamente porque o problema dos preços é estrutural.


Mas privatizar a Petrobrás não é uma tarefa tão fácil, é preciso convencer a opinião pública. Como a Petrobrás tem uma relação história muito forte e simbólica com o povo brasileiro, pois por ele foi criada e a ele bem serviu por mais de 60 anos, marcando presença em todo o país com programas socioambientais e culturais amplos e importantíssimos, logicamente sempre foi defendida por essa população. O governo FHC tentou e não conseguiu privatizar a Petrobrás em função da reação popular, mas pavimentou, junto ao Congresso, vias legais para sua destruição enquanto estatal.


Era preciso, então, destruir essa relação de décadas para privatizá-la com algum apoio popular e sem prejuízo eleitoral. A sinfonia começa com a Lava Jato, apoiada pela grande mídia, que se encarrega de imprimir na empresa o carimbo de corrupta. Até hoje quando se fala em corrupção no Jornal Nacional, o pano de fundo são dutos enferrujados jorrando dólares, mesmo que os envolvidos não tenham nenhuma relação com petróleo.

A partir de Temer, e mais intensamente com Bolsonaro, a empresa passa a ser gerida como se privada fosse. Vira as costas para sua missão original, de servir o Brasil e a sociedade brasileira, e passa a almejar o insaciável apetite dos grandes acionistas privados.


Com o PPI, a gestão da empresa esfola a população brasileira, no melhor “estilo Guedes”, e engorda, indecentemente, os dividendos dos seus acionistas que são, importante fato, em sua maioria, fundos de investimentos estrangeiros. O Estado brasileiro, acionista controlador e não majoritário, fica com cerca de um terço desses dividendos.


Com essa política, o discurso da privatização se torna muito mais palatável para a população que não vê retorno de sua estatal e se descobre prejudicada pelos preços dos derivados e gás de cozinha, enquanto fartos dividendos são patrocinados e pagos também às suas custas.


O discurso do presidente da República de que não pode interferir nos preços é só mais uma falácia, pois enquanto acionista controlador, o governo tem maioria no Conselho de Administração, que nomeia a diretoria e define os preços nas refinarias, a partir da diretriz governamental.


A Petrobrás foi criada pelo povo brasileiro para descobrir, produzir, refinar e abastecer o Brasil de petróleo e derivados. Superou em sua trajetória gigantescos desafios e cumpriu brilhantemente sua missão. Hoje somos um país produtor e exportador de petróleo. Conquistamos a autossuficiência que nos libertou da dependência das importações, meta de todo país que busca se tornar energeticamente soberano. Produzimos, a custos muito mais baixos que os internacionais, a absoluta maioria dos derivados que consumimos, importando pequena parcela. Portanto, não precisamos pagar preços de importação. É inquestionavelmente possível praticar preços mais justos e acessíveis à população brasileira.


A Petrobrás é do povo brasileiro, não do governo de plantão. E enquanto operou como estatal sempre garantiu o abastecimento do país a preços mais justos, cumprindo seu papel de indutora do desenvolvimento nacional e gerando lucro. A solução para os preços dos combustíveis e do gás de cozinha não é privatizar a empresa, ao contrário, é fortalecer a Petrobrás enquanto estatal brasileira, gerindo-a como tal, com a missão de servir ao Brasil e aos brasileiros.


* Rosangela Buzanelli é a representante dos trabalhadores no Conselho de Administração da Petrobrás

Artigo publicado originalmente no site da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet)

Comments


Divulgação venda livro darcy.png
Chamada Sons da Rússia5.jpg
bottom of page