O cartório, as virtudes e a construção da cultura
- 16 de jun.
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Gilson Carlos Sant’Anna
O interesse desse delegatário pela recuperação e conservação dos documentos históricos do cartório deriva de uma visão sobre o real significado do trabalho — não apenas como meio de subsistência, mas como um ato de criação e responsabilidade social.
O trabalho bem-feito é o palco onde pomos em prática as mais nobres virtudes humanas. Diante do balcão do cartório, da análise dos títulos e da garantia da segurança jurídica, somos convocados a exercitar um conjunto harmonioso de valores:
* A fortaleza, para perseverarmos na retidão do nosso mister apesar das naturais dificuldades cotidianas, sem nos deixarmos vencer pelo desânimo ou pelo peso da rotina;
* A temperança, que nos ensina a gastar nossas energias sem reservas, superando a comodidade e o egoísmo em prol do bom atendimento;
* A justiça, norte absoluto da nossa função, para cumprirmos os nossos deveres com Deus, com a sociedade, com a família e com os colegas;
* E a prudência, virtude essencial ao registrador e ao notário, para sabermos discernir o que convém fazer em cada caso concreto, agindo com a necessária presteza, mas sem precipitação.
Sabemos que, a cada amanhecer, milhões de pessoas se dirigem aos seus postos de trabalho. Muitas caminham a contragosto, obrigadas a uma tarefa que não lhes desperta interesse. Outras se movem exclusivamente pelo salário, a única recompensa que lhes dá alento. Há ainda as que encarnam o conceito de «animal laborans» da filósofa Hannah Arendt: o trabalhador cujo horizonte se esgota no próprio ciclo de sobrevivência, que realiza sua tarefa por mera inclinação natural ou costume.
No entanto, acima dessas perspectivas, ergue-se a figura do «homo faber». Este é o indivíduo que trabalha com horizontes amplos, movido pela preocupação de desenvolver um projeto, de edificar algo duradouro. Se algumas vezes busca a afirmação pessoal, em muitas outras é guiado pela nobre aspiração de servir ao próximo e contribuir para o progresso real da comunidade.
Trabalhar com excelência, refletir criticamente sobre a própria atividade, pesquisar e buscar a evolução do conhecimento significa, em última análise, zelar pelo bem comum. Esse zelo não é um conceito abstrato, mas um compromisso cotidiano e prático de toda cidadania qualificada.
Um exemplo luminoso desse «homo faber» na nossa atividade foi o escritor José Cândido de Carvalho. Meu colega de profissão, ele atuou como oficial do Registro Civil e tabelião em Campos dos Goytacazes. José Cândido não via os livros de assentos e notas como túmulos de papéis mortos, mas como repositórios de vida. O ambiente do cartório, longe de ser um espaço de mera repetição burocrática, para ele era um observatório privilegiado da comédia e do drama humanos.
Como bem observou a pesquisadora Arlete Parrilha Sendra, foi exatamente do balcão do cartório, do contato com o povo e da observação atenta do cotidiano notarial que ele extraiu a matéria-prima e os personagens fascinantes que eternizou em seus livros, como o clássico O Coronel e o Lobisomem.
José Cândido de Carvalho nos provou que a nossa atividade profissional pode e deve ser uma fonte geradora de cultura, de identidade e de humanidade. Que saibamos, portanto, honrar esse legado, transformando o nosso trabalho diário em um autêntico ato de amor ao bem comum e de serviço à nossa sociedade.
*Discurso proferido na Câmara Municipal de Niterói por Gilson Carlos Sant’Anna ao receber a medalha José Cândido de Carvalho no dia 15 de junho de 2026.










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