O mundo de medo e de amor de uma médica intensivista

Bianca Teixeira é médica intensivista no Hospital São Vicente de Paulo, no Rio. Está, desde o início da pandemia, na linha de frente do combate contra a covid. Nesses meses de luta incessante, acumulou experiências que hoje fazem a jovem doutora se sentir mais velha do que é.

Bianca também é escritora sensível e encaminhou ao TODA PALAVRA uma crônica poética sobre o seu mundo cheio de medo e de amor dentro de um CTI. O texto que segue é um transbordar de sentimentos e vivências que desafiam, dia após dia, a coragem da médica.

Em meio ao cansaço de todos esses meses de luta sem tréguas, Bianca encontrou tempo para transmitir ao nosso mundo - onde muitos desdenham da ameaça do vírus e da ciência - um pouco do drama cotidiano do seu mundo - sem baladas, sem festas, sem negacionismos. O TODA PALAVRA publica esse texto como homenagem à coragem dos médicos e profissionais de saúde alistados na guerra contra a covid-19.


O mundo de Bianca


Nesse meu mundo, nesse meu coração, tem uma mulher de 50 anos com três filhos que foi intubada no dia do aniversário.

Tem outra que andou pelo CTI e avisou que não era cantora mas ia cantar - que gostava muito dessa música: "Eu tô voltando para casa outra vez"

Tem mais outra. E outras. 

E outros. 

E tantos. 

E as vozes aflitas do outro lado do telefone. 

E os rostos atrás das telas.

Tem aplausos quando a porta do CTI se abre.

E tem um telefone que toca com uma notícia última e depois não toca mais.

Tem uma pessoa que perdeu um amor. E outra pessoa que comemora a cura.

Tem gente tentando ficar vivo.

Tantas gentes.


Tanto amor. Tantos amores. 

Tanta dor. Tantas dores. 


E nesse meu mundo, nesse meu coração, tem eu também, que não morri e ainda ganhei um amor. 

Que tenho meus filhos passarinhos trancados no ninho: amados, seguros, um pouco - ou muito - tristes.

Tem eu, que vivo tantos privilégios nessa casa bonita no meio das árvores e do céu azul.

Que tenho o propósito que me move e esse cansaço enorme que quase me faz parar.

Tem uma mensagem que chega no celular anunciando: não há vagas. E outra, que vão acabar os sedativos. E outra, dizendo obrigado.

Tem eu que morro um pouquinho toda noite - de medo, de amor - e que nasço um pouco mais velha, sempre mais nova no seguinte, e no outro, e no outro dia.

Tem esse mundo impensável, inacreditável, desesperador. 

Tem o meu coração, que aumenta e diminui, mas continua batendo.


Bianca Teixeira 


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