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O não alinhamento, Jango, Lula e o mundo multipolar

Atualizado: 2 de jul. de 2023

Por Luiz Augusto Erthal

Editor Executivo do Toda Palavra

A guerra da Ucrânia tornou o caminho para a Rússia um pouco mais longo para nós, ocidentais. Com o espaço aéreo da Europa fechado para a Federação Russa, uma rota alternativa pelo Oriente Médio é hoje o trajeto que fazemos até Moscou. Uma viagem de cerca de 35 horas, incluindo o fuso horário de 6 horas e uma demorada escala em Doha, no Qatar, de onde nos aproximamos enquanto escrevo. Estamos, na verdade, contornando a região conflagrada para chegar ao nosso destino.

A companhia do jornalista Marcio Campos, do Grupo Band de Televisão, tem contribuído admiravelmente para tornar o voo menos penoso e mais rápido. Nó dois formamos a pequena delegação brasileira que se desloca para participar do “BRICS Global Media Tour”, uma iniciativa da TV BRICS com o apoio dos russos, que assumiram este ano a presidência rotativa do Comitê BRICS, no intuito de promover sinergia entre veículos de imprensa dos países que integram o bloco.

É impossível pensar na construção de uma nova geopolítica, baseada no equilíbrio político e econômico ensejado por um mundo multipolar - uma mesa se firma melhor sobre quatro ou mais pernas do que sobre uma ou duas - sem voltarmos nos tempos do não alinhamento, nos idos dos anos 50 e 60.

O primeiro movimento diplomático coordenado como resposta à bipolaridade imposta ao mundo no pós-guerra contou com a participação de importantes lideranças políticas, sobretudo de países em desenvolvimento. Entre elas, o ex-presidente João Goulart. Ainda como vice-presidente, Jango foi o primeiro líder latino-americano a visitar a União Soviética quando esse caminho era ainda mais demorado e talvez mais perigoso do que hoje.

Na era do Sputinik, ele foi apresentado às conquistas tecnológicas do mundo socialista de então e, num ato de coragem política, depositou flores no túmulo de Lenin, líder da revolução bolchevique. Ainda na condição de vice-presidente, repetiu a ousadia ao se encontrar, na China, com o presidente Mao Tsé-Tung, que liderou o seu povo na revolução chinesa rumo ao socialismo. Jango dava um passo pioneiro de uma liderança política ocidental mais uma vez.

O recado estava dado: o Brasil não aceitaria um alinhamento automático, imposto pelos Estados Unidos aos países latino-americanos, principalmente. Ainda durante a sua visita à China, em agosto de 1961, Jango recebeu a notícia da renúncia do presidente Jânio Quadro e retornou ao Brasil em viagem tensa e dramática para assumir a presidência da República, o que só foi possível graças ao levante em armas dos gaúchos no movimento da Legalidade, liderado pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que resistiu à tentativa de golpe e ao veto imposto pelos militares à posse de Goulart.

Jango, porém, pagaria um alto preço por sua política de não alinhamento e também por ter ousado sonhar o sonho trabalhista de construção de uma civilização mais justa, autônoma e independente no Hemisfério Sul. Com total apoio norte-americano, tanto financeiro como logísitico e até militar, ele foi deposto pelos militares em 1964 e o Brasil mergulhou na longa noite da ditadura. Sabendo que os mariners da Quarta Frota norte-americana se aproximavam da costa brasileira, prontos para entrar em ação em caso de resistência dos trabalhistas e socialistas brasileiros, Jango optou por não resistir, evitando, talvez, uma guerra civil.

Passados mais de 60 anos das visitas históricas de João Goulart à União Soviética e à China, o Brasil volta a assumir um protagonismo no cenário das relações internacionais. Não à toa a China também foi o destino da primeira viagem internacional do presidente Lula depois da sua volta à presidência da República. E também não à toa, como que em um encadeamento geopolítico, a Rússia também foi o destino da primeira viagem ao exterior do presidente chinês, Xi Ji PIng, após sua reeleição, visitando Vladimir Putin no Kremelin, ambas as viagens no início deste ano.

A política de não alinhamento dos anos 50 e 60 hoje é chamada de multipolaridade e está baseada na constituição de blocos que congregam países unidos não necessariamente pela proximidade geográfica, mas pelo desejo de se relacionarem cultural e economicamente, como alternativa às relações impostas de cima para baixo pela prevalência econômica e militar. É o caso dos BRICS, cujos integrantes estão distribuídos em quase todos os continentes da terra.

Lula, que aposta tanto no fortalecimento dos BRICS quanto do Mercosul como os principais eixos de ação da diplomacia brasileira, consagrou-se definitivamente como uma voz que ecoa por todo planeta em sua recente visita à França. Diante do presidente Macron e de mais duas dezenas de chefes de estado, ele fez, de improviso, um discurso histórico, lançando sobre os países ricos o peso da responsabilidade da miséria e da fome no mundo e equiparando a pauta ambiental, com a qual o Brasil voltou a se comprometer depois do retrocesso do governo Bolsonaro, com a urgência da busca da justiça social.

Com Lula, o Brasil voltou a se posicionar claramente na defesa de uma nova ordem econômica mundial. Sem as amarras e as chantagens do Centrão, que ainda travam as ações do novo governo em muitas áreas nacionais, a política externa é um campo onde ele tem tido mais liberdade para impor a sua visão política. A desdolarização da economia mundial, proposta enfaticamente pelo presidente brasileiro, é uma pauta capaz de sacudir o status quo internacional. A reunião dos BRICS em agosto, na África do Sul, pode se transformar em um marco histórico desse nascente mundo multipolar.

É o que tentaremos conferir pelo feeling dos outros jornalistas dos países BRICS e das autoridades russas que encontraremos em Moscou, ao final desta longa viagem.


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