O que essas crônicas têm?


Clarice Lispector

José Messias Xavier


Por que nosso desejo está sempre fora de alcance? Um passo à frente, um degrau acima, na realidade não importa o ponto dimensional onde se posicione, o querer, logo que você se entrega a ele, se encontrará longe de suas mãos. Recentemente, aconteceu comigo um fato para comprovar esta premissa, como é de ser dos fatos. Foi um momento fugaz, porém embaraçoso.

Tenho, como os amigos mais íntimos sabem, uma afeição especial por uma baiana. Diria que há entre nós uma relação sensorial e assim nos entendemos há anos. Nossos olhares se enxergam além das cortinas da vida. Negra como as noites sem luar da Lagoa de Abaeté, ela usa um turbante ornado por frutas tropicais e um vestido branco com motivos florais. Seus balangandãs são cobertos por purpurina dourada e traz às mãos uma jarra, cujo conteúdo varia de acordo com meus delírios: ora vinho, ora cerveja, ou, se o fígado assim permitir, quem sabe uma cachaça de rolha, mas só para abrir o apetite?

Eis que, em uma tarde, não uma dessas tardes de Itapuã, serenas, “sem ontem nem amanhã”, mas daquelas de odioso frenesi doméstico, resolvi que a baiana precisava de uma limpeza. O problema é que ela, com toda sua elegância e desapego às vontades mundanas, fica no alto de uma estante entulhada de livros. Como sou o que Edu Lobo classificaria como “brasileiro de estatura mediana”, está aí nossa premissa maior, a do desejo fora do alcance.

Para chegar à baiana, precisei de uma escada, que virou armadilha. Os pés de alumínio, sem as borrachinhas de aderência, deslizaram no chão de ladrilhos como cascos de um cabrito bêbado nas pedras do Farol da Barra. E veio a queda. Para meu desespero, trazia a baiana, esculpida em argila na gloriosa Salvador, em uma mão. Na última tentativa de equilíbrio, agarrei com a outra, estupidamente, um livro. Pude logo identificar a capa: “As vidas dos doze césares”, de Caius Suetonius Tranquillus, ou, simplesmente, Suetônio. Uma edição de capa dura, de 1956, da Atena Editora.

Aqueles que caem de bunda no chão de determinada altura podem se dar ao luxo de adotar certos comportamentos durante os poucos segundos de descida. Alguns fecham os olhos e, docilmente, abraçam o vazio na expectativa do impacto. Outros entregam-se a uma espécie de epifania, a um esplendor, onde toda sua existência desfila em flashes na memória rumo ao capítulo final. No meu caso – e juro que não sei o motivo –, pensei em crônicas.

Talvez a explicação venha do próprio Suetônio, que, através de narrativas biográficas, deixou para a posteridade detalhes, muitos certamente pitorescos, a respeito de Júlio César e de onze imperadores romanos. Outros nomes me surgiram, associados a esse gênero literário. Lembrei, por exemplo, de Fernão Lopes, escrivão do reino de Portugal em meados do século XV, um inovador, que deu à crônica histórica objetividade estilística e comprovação documental, além de incluir o povo como elemento essencial na evolução dos eventos, minimizando o protagonismo da aristocracia.

Decerto, há diversos estilos de crônicas, da descritiva à poética, da lírica à humorística. Dizem por aí que sua primeira aparição em um periódico foi em 1799, no Journal des Débats, de Paris. No Brasil, o gênero enamorou-se de vez com o jornalismo através de João do Rio, pioneiro da crônica-reportagem no início do século XX. Desde então, o feliz casal passou a ser visto de braços dados por todo canto, para deleite dos leitores enternecidos. Grandes escritores aplaudiram o enlace e dedicaram seu talento a essa forma de narrativa curta, dinâmica, vibrante, e, em muitos casos, opinativa.

Vieram à minha mente Cecília Meireles, Rubem Braga, Manuel Bandeira, Nélson Rodrigues, Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Fernando Sabino, Luís Fernando Veríssimo, entre tantos. Nesta edição, por exemplo, o TODA PALAVRA traz uma escritora supimpa, a srª Ângela Rocha, que põe nas suas crônicas sobre o cotidiano um olhar aguçado, desafiador, e desfia suas histórias com um estilo envolvente, aparentemente simples, mas capaz de conduzir o leitor a conclusões surpreendentes, ou desconcertantes.

Assim cheguei ao chão. Não sofri ferimentos. Estava sozinho, portanto, a galhardia permaneceu intacta. Me preocupei com a baiana, presenteada há alguns anos por uma pessoa muito querida. Ela estava bem, segura em meus braços. O mesmo não pude dizer de Suetônio, que jazia sob a escada com um dano razoável em sua capa. Não pude deixar de refletir: essa é a crônica da baiana que derrubou doze césares e um Messias. Mas o pensamento logo se foi, junto com o susto.

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