Petroleiros protestam contra 'entrega' de refinaria para árabes


(Foto: Wendell Fernandes/Sindipetro-BA)

Milhares de petroleiros participaram nesta sexta-feira (3) de protesto nacional contra a venda de refinarias da Petrobrás pelo governo Jair Bolsonaro. Atos, realizados em vários estados, denunciam principalmente a venda, nesta semana, da segunda maior refinaria da Petrobrás para o fundo de investimentos dos Emirados Árabes Mubadala, pela metade do preço de avaliação no mercado.

Avaliada entre US$ 3 bilhões e US$ 4 bilhões, segundo os petroleiros, a Refinaria Randulpho Alves (Rlam) foi vendida pela atual gestão da Petrobrás, indicada por Bolsonaro, por US$ 1,8 bilhão. O fundo árabe criou uma empresa, que ficará responsável pela administração da refinaria.

Organizado pelo Sindipetro-BA, SITICCAN e a Federação Única dos Petroleiros (FUP), o ato teve também a participação dos sindicatos dos petroleiros do Amazonas e Paraná.

Os petroleiros denunciam que, além da Rlam, outras duas refinarias da Petrobras também estão em processo final de privatização: a Refinaria Isaac Sabbá, em Manaus (Reman), e a Unidade de Industrialização do Xisto (SIX), no Paraná.

O governo Bolsonaro pretende entregar ainda a Fábrica de Lubrificantes do Nordeste (Lubnor), no Ceará; a Refinaria Clara Camarão (RPCC/RN), no Rio Grande do Norte; a Refinaria Grabriel Passos (Regap), em Minas Gerais; a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), no Rio Grande do Sul; e a Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), no Paraná.

Um dos críticos à venda das refinarias, o ex-presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, atual pesquisador do Instituto de Estudo Estratégicos de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (Ineep), vem alertando para a possibilidade de faltar combustíveis no país.

Em entrevista ao PortalCUT, Gabrielli disse que, se a política de desmonte e falta de investimentos da estatal continuarem nesse ritmo, pode haver um apagão de combustíveis no Brasil.

De acordo com Sérgio Gabrielli, a venda das refinarias tem efeitos a curto prazo, como a diminuição da capacidade de planejamento como um todo.

“Hoje temos 14 refinarias no sistema sendo programadas para produzir diversos derivados de petróleo. Mas, não é a mesma que produz diesel, gás de cozinha e gasolina. Elas são otimizadas para que no conjunto possam fornecer os produtos consumidos aqui no Brasil”, explica Gabrielli.

“Se você vende uma, como no caso da Rlam, aquela unidade vai ser otimizada para um mercado específico e não no conjunto, consequentemente ou faltará produtos ou haverá excesso de outros”, complementa.

O ex-presidente da Petrobras ressalta que desde 2016, no governo de Michel Temer (MDB-SP), início do desmonte da Petrobrás com a finalidade de privatizá-la, o governo passou a diminuir a capacidade de realização nas refinarias, que hoje atuam com 77% da capacidade, sendo que o ideal é a capacidade plena, entre 93% a 94%.

“Desta forma você diminui a capacidade de atender, e aumenta a importação de derivados de petróleo. Hoje importamos gasolina, diesel, gás e querosene de avião, e os planos do governo para os próximos três anos é substituir o gás de cozinha (GLP) pelo GNP (encanado), que tem transporte diferente, manuseio e formas diferentes de utilização”, conta Gabrielli.

A preocupação do ex-presidente da Petrobras é com o possível crescimento econômico do país, pós pandemia, que impactará no aumento de importação do diesel e do querosene.

“Para a gasolina não se prevê grande aumento da demanda, mas o diesel e o querosene terão aumentos expressivos de importação, crescendo a pressão para os próximos seis anos, e provocando apagão de combustíveis”, diz .

Segundo Gabrielli, mesmo com o governo anunciando um aumento de produção na refinaria de Pernambuco, é necessário , no mínimo, a produção de 200 mil barris dias, daqui a seis anos. Ou seja, 10% a mais do que produz o país atualmente, em torno de 2,3 milhões.

“Teremos uma relativa folga sem crise de abastecimento nos próximos quatro anos, mas o crescimento da demanda vai provocar a falta de produtos. Se o país não quiser passar por isso, é preciso construir mais refinarias e não se constrói da noite pro dia, são necessários pelo menos sete anos . Se quisermos impedir esta crise e aumentar a capacidade de refino até 2027, é preciso começar a construir no ano que vem ou no máximo em 2023”, alerta.

A RLAM, de acordo com os pesquisadores, é uma das refinarias da estatal que tem potencial mais elevado para formação de monopólios regionais, o que pode aumentar ainda mais os preços da gasolina, diesel e gás de cozinha, além do risco de desabastecimento, o que deixará o consumidor inseguro e refém de uma empresa privada.

"Quanto mais você depende de importação, menos autonomia tem para impor seus preços internos e, do jeito que as coisas vão, teremos mais aumentos."

Na entrevista ao PortalCUT, Gabrielle disse que qualquer que seja o governo após as eleições do ano que vem terá de decidir, se vai depender de importações ou vai produzir aqui.

“É uma opção política que o próximo governo vai ter de enfrentar”, disse.



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