Polêmicas derrubam Vinícius Wu na Educação de Niterói

Após uma gestão conturbada, marcada por polêmicas no comando da Educação de Niterói, o secretário Vinicius Wu está deixando a pasta. Em suas redes sociais, ele anunciou estar tomando o caminho político oposto ao dos aliados do ex-prefeito Rodrigo Neves, como o atual prefeito, Axel Grael, que o manteve por mais de um ano no comando da Educação mesmo em meio a crises provocadas pela sua gestão, como a que desencadeou ao tentar acabar com a eleição direta para diretores de escolas.

Audiência Pública na Câmara de Niterói em 21 de outubro de 2021 / Divulgação

Com forte oposição dentro do Conselho Municipal de Educação e na própria rede escolar, onde professores e diretores de escolas se mobilizaram em grupos de oposição ao então secretário, Wu deixa o cargo sob críticas dos educadores de Niterói. Um deles, o professor da UERJ Luiz Fernando Sangenis, que travou batalhas diretas com o secretário dentro do Conselho Municipal de Educação, atribuiu a perda do cargo ao comportamento do próprio Wu:


"A saída de Vinícius Wu foi consequência de suas próprias ações, sempre marcadas por um reprovável voluntarismo e pelo uso da educação para a sua autoprojeção. Foi o secretário que mais falou em democracia e nunca a gestão da educação de Niterói foi tão antidemocrática. Esperamos que um novo secretário valorize os profissionais da educação da própria rede, e que são muito capacitados tanto para criar quanto para fazer o melhor feijão com arroz. Pois o Wu quis inventar a roda da educação sozinho e esqueceu do básico: escolas reformadas, professores em número suficiente em sala de aula, efetivação do plano de carreira, educação inclusiva com o suporte necessário, ou seja, dar condições de trabalho à Rede", afirmou.


Ainda como secretário, Vinícius Wu explicou nas redes sociais a decisão de apoiar as candidaturas de Marcelo Freixo (PSB) ao governo do estado do Rio, e de Lula (PT) à presidência da República. Mas não mencionou a razão pela qual não apoiará o outro postulante ao governo do estado, Rodrigo Neves, do PDT, partido majoritário na gestão municipal de Niterói, da qual participou por pouco mais de um ano.

Reprodução / Facebook

Gestão Polêmica e autoritária


Foram muitas as reclamações e críticas às posições tomadas por Vinícius Wu. Em abril de 2021, contrariando a vontade dos profissionais de ensino, que àquela altura ainda não estavam totalmente imunizados contra a covid-19, ele instituiu o ensino híbrido quando nem todos os alunos, especialmente os mais pobres, possuíam dispositivos eletrônicos e banda larga para o acompanhamento de aulas remotas. Ao mesmo tempo, a plataforma de ensino à distância contratada por ele não funcionava, obrigando os professores a ministrar os conteúdos pelo Google Meet.


E defendeu a reabertura das escolas em plena segunda onda da pandemia. Na ocasião, o Sepe-Niterói (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação) aprovou em assembleia uma greve dos profissionais de ensino, com o objetivo de assegurar o emprego daqueles que não se sentissem seguros para voltar a dar aulas presenciais. Mesmo assim, ele prosseguiu na abertura progressiva das unidades da rede, quando algumas delas não estavam devidamente preparadas para o cumprimento dos protocolos sanitários adotados contra a covid-19, sem ouvir a opinião da comunidade escolar.


Essa, aliás, foi a queixa mais recorrente: a falta de diálogo com pais, alunos, pedagogos, diretores, professores e funcionários, que culminou em outubro, com a publicação de um edital, no dia 1/10, para a seleção de diretores das escolas. Novamente sem consultar a comunidade escolar, Wu mudou as regras para a seleção dos diretores, instituindo uma banca externa para examinar as propostas apresentadas pelos candidatos ao cargo. Ou seja, transformou um processo de escolha democrático, antes feito com o voto da própria comunidade escolar, em uma eleição indireta, sem a participação de todos.

Audiência Pública na Câmara de Niterói em 21 de outubro de 2021 / Divulgação

No dia 7/10, o vereador Professor Tulio, o deputado estadual Flavio Serafini, ambos do PSOL, e o Sepe-Niterói entraram com uma representação no Ministério Público do Rio de Janeiro contra as arbitrariedades do edital, pendindo o seu cancelamento sob a alegação de que a mudança no processo de escolha feria "o princípio constitucional da gestão escolar democrática, a lei orgânica do município e o plano municipal de educação, que estabelecem explicitamente que as eleições devem ser livres e diretas".


Depois de uma audiência pública na Câmara dos Vereadores no dia 21/10, onde a comunidade escolar e o Sepe-Niterói denunciaram a postura autoritária de Vinícius Wu, o secretário, enfim, concordou em receber no gabinete um grupo de professoras, pedagogas e diretoras para dialogar. E voltou atrás na decisão.


No dia 26 de outubro, a secretaria municipal de Educação publicou uma corrigenda do edital, retirando do texto o artigo que instituía a banca externa para examinar os planos de gestão apresentados pelos postulantes aos cargos e ampliando o prazo para a entrega dos projetos.

No início deste ano, a gestão de Wu voltou à berlinda, quando a plataforma contratada para a realização das matrículas escolares pela internet apresentou erros de sistema. A falha atingiu várias famílias que não conseguiram obter a confirmação das vagas, ou tiveram os filhos remanejados automaticamente para escolas distantes de casa ou do trabalho dos pais.


Filas imensas se formaram na porta da Fundação Municipal de Educação (FME) e do Conselho Tutelar I, mesmo depois do início do ano letivo, pois várias crianças ficaram sem vaga, especialmente no ensino infantil, ou os pais não conseguiam transferi-las para escolas mais próximas.


Na ocasião, a secretaria de Educação informou que o problema, além da falha na plataforma, se deu por conta da migração de alunos da rede particular para a pública, fruto da crise econômica causada pela pandemia. Mas não esclareceu a razão de não ter previsto essa possibilidade antes do início do ano letivo.


Com a saída de Vinícius Wu, a comunidade escolar de Niterói aguarda o anúncio de um novo nome que possa atuar com mais transparência e diálogo, à frente de um projeto de educação pública democrática e participativa que sempre foram a marca do ensino na cidade, sob a égide do partido de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro.



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