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Presidência russa dos BRICS pode acelerar a desdolarização

Cintia Xavier Dias

Colaboradora-correspondente do TODA PALAVRA na Rússia


Moscou - A Federação Russa assumiu, no início deste ano, por indicação do Brasil, a presidência rotativa dos BRICS, cuja formação original – Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul – está agora ampliada com os recém-chegados Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes, Etiópia e Irã. No discurso de abertura da presidência, o presidente russo, Vladimir Putin, destacou três principais áreas de cooperação para 2024: política e segurança, economia e finanças, além de contatos culturais e humanitários.


Vladimir Putin / © Sputnik / Pavel Bednyakov

A grande expectativa, no entanto, está na área das relações econômicas entre os países do bloco, cujo anseio pela criação de uma moeda única pode apressar o processo de desdolarização da economia internacional.

Novos projetos de infraestrutura e conectividade, através do Novo Branco de Desenvolvimento do BRICS, poderão auxiliar os países membros e orbitantes no desenvolvimento de sua própria economia. O governo russo pretende priorizará a ampliação das atividades do BRICS no sistema monetário e financeiro internacional, por meio de cooperação interbancária e das transações em moedas nacionais.

Apesar de não incluído na declaração da presidência russa, no campo das transações intragrupo, pode-se esperar para esse ano o desenvolvimento efetivo do “BRICS Pay”, sistema descentralizado de pagamentos internacionais digitais em várias moedas, lançado em 2018. Gradualmente, bancos e instituições de todos os países membros, e inclusive de países de fora do BRICS, como o banco britânico Standard Chartered, estão aderindo ao sistema de pagamentos. Apesar das garantias de que não representa uma ameaça ao SWIFT, há expectativas de que se torne uma alternativa viável ao atual sistema de transações internacionais em um futuro próximo.

Outra ênfase da presidência russa está na intensificação do intercâmbio de alta tecnologia, ciência, saúde, ecologia, cultura, esporte, juventude e intercâmbio civil. O lema da agenda de trabalho da Federação é “Fortalecer o multilateralismo para um desenvolvimento global justo e segurança”.

No intercâmbio entre os povos, a presidência russa planeja aprofundar as relações culturais, esportivas e de juventude. Destaque para o “Festival Mundial da Juventude”, previsto para ocorrer na primeira semana de março, reunindo 20.000 jovens de diversas regiões no território federal de Sirius, no Sul da Rússia. Este é o maior festival de juventude do mundo e os jovens brasileiros terão a oportunidade de representar o país com despesas de viagem e estadia cobertas pela organização do evento.

Também conforme relatado anteriormente pelo Jornal Toda Palavra, espera-se esse ano que a proposta de criação de um festival internacional de música, inspirado no festival soviético “Intervision” dos anos 70 e 80, seja lançada como parte dos planos para a área de cultura. No entanto, estão previstos, para 2024, a realização de mais de 200 eventos em diferentes níveis e áreas.

No verão, também acontecerão os Jogos Esportivos do BRICS, a serem sediados em Kazan, capital da República do Tartaristão, no Distrito Federal do Volga. Serão 13 dias de evento, 29 esportes e mais de 60 países convidados a participarem. Três mil atletas foram convocados e ocorrerão 389 eventos com a entrega de medalhas.

Em setembro, em São Petersburgo, acontecerá o Quarto Fórum das Mulheres da Eurásia, com o tema “Mulheres para construir confiança e cooperação global”. No âmbito do evento, está prevista a organização do primeiro Fórum de Mulheres do BRICS. Também em Kazan ocorrerá a Reunião de Cúpula do BRICS, em outubro. Antes desse evento, conforme informado pelo Embaixador do Brasil na Rússia à TASS, Rodrigo de Lima Baena Soares, ocorrerão reuniões entre Brasil e Rússia no nível ministerial. A presença do presidente Lula na Rússia também é esperada em outubro.

Segundo uma fonte do Ministério das Relações Exteriores brasileiro declarou à RIA Novosti, o Brasil espera “muitas negociações” bilaterais, no âmbito do BRICS e do G20, com a Rússia em 2024. A cúpula do G20 acontecerá neste ano no Rio de Janeiro, em novembro.

No âmbito cultural, entre outras iniciativas, a estratégia da presidência russa destaca a ênfase no intercâmbio bilateral com a China, designando 2024–2025 como os “Anos de Cultura entre Rússia e China”. Eventos significativos estão previstos nos meses seguintes para fortalecer os laços culturais russos-chineses.

Essa mobilização para o estreitamento dos vínculos culturais reforça a importância da China como parceiro preferencial e estratégico da Federação Russa na arena regional e internacional.

O potencial da região de Ulyanovsk na expansão da cooperação nas indústrias criativas também recebe atenção especial, com o Escritório de Projeto Rússia-BRICS ressaltando os resultados positivos na área do Programa de Cooperação em Design Rússia-China, que resultou na criação de um “hub” criativo russo-chinês, incluindo exposições e empreendimentos editoriais de livros.

No plano político, espera-se que em 2024 a presidência russa reforce os esforços para que, apesar das diferenças em interesses, a atuação dos países BRICS nas relações internacionais seja, na medida do possível, uníssona. Mesmo que o grupo permaneça com seu caráter descentralizado, uma maior coordenação das posições aumentará a coesão política do grupo e fornecerá visões mais claras de qual a sua função nas relações internacionais.

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