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Quando as cores fugiram pela chaminé

  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

Conto de José Messias Xavier

 

Há algo errado com os foguetes-mísseis, refletia o menino, porque ele é um desses meninos que refletem. Algumas vezes sobre cavalos; outras, sobre grandes felinos nas florestas, que, jurava, iria conhecer. Naquela ocasião, contudo, seu problema era com os foguetes-mísseis.


Confidenciou aos amigos sua preocupação. Sentados em roda, gesticulando, no pátio da pequena vila rural, após muitas discussões e opiniões contraditórias, não chegaram a nenhuma conclusão. E os foguetes-mísseis continuavam voando de um lado ao outro, a qualquer hora, para um lugar distante. Mas eram muitos, daí a estranheza.


- Olha lá, mais um. Para onde será que vão? Será que tem tanta gente deixando o planeta? – indagou.

Havia intervalos. Ele olhava o céu estrelado, riscado apenas por um ou outro meteoro displicente. E lá estava a Lua, onde homens caminharam, levados por foguetes, primos próximos dos mísseis. Leu isso em uma revista, que encontrou na caminhonete do pai, em uma viagem da família ao litoral.

Imaginou os astronautas como desbravadores do espaço desconhecido, heróis protetores da Terra, em suas espaçonaves indestrutíveis.


Seus desenhos na escola nasciam da mistura de universos imaginados. Seres fantásticos e animais selvagens saltitavam em matas impenetráveis, com rios e cachoeiras, enquanto os desbravadores, em foguetes-mísseis, cruzavam a noite encantada para encontrar novos planetas, cheios de esperança.


Com os lápis coloridos na mão, seu rosto se transformava. Entrava em transe. Os grandes olhos castanhos pareciam ver o coração dos mistérios. Passava a mão no cabelo cacheado, esfregava as bochechas morenas, apoiava o cotovelo na mesa e enchia as folhas em branco com sua imaginação.

Por isso, quando os foguetes-mísseis de verdade, ao invés de seguirem em frente, caíram das nuvens, ficou perdido. Deveriam ir para cima e não para baixo. Poderiam machucar alguém, o que não é o papel de um foguete-míssil - acreditava.


Da varanda da residência, situada a poucos quilômetros do centro urbano, ouvia estrondos medonhos e sentia a terra tremer. Podia enxergar os enormes rolos de fumaça preta soprados no ar.

Seu mundo começou a encolher. Prédios e casas sumiam daquele horizonte conhecido, inclusive seu colégio. Cutucava a mãe para mostrar que a cidade estava ficando menor a cada dia. Mas ela não reagia. Acreditava que crianças devem ser confinadas a um mundo de sonhos e brincadeiras. Adultas, já teriam o sofrimento da vida para suportar.

- É bobagem, querido. Logo passa – dizia ela.


Novos enigmas surgiram. Por que as pessoas estão desaparecendo? Tios e primos não os visitavam mais. Nenhum parente. Não estavam nem mesmo na fila de veículos, que se formou na estrada e seguia rumo a algum lugar. Se lá estivessem, certamente parariam para um alô. A mesa de domingo ficava pobre sem o alvoroço da cumplicidade nos bons e maus momentos.


Certo dia, um rapaz chegou na vila de moto. Os homens se reuniram em torno dele. Seu pai, também um agricultor, estava no grupo. A decisão foi rápida. Correram para suas pequenas propriedades e carregaram as picapes com tudo que produziam. Hortaliças, carnes, queijos, ovos, pão, manteiga. Partiram em comboio para a cidade, o motoqueiro liderava. O menino sorriu, pois, como a mãe previra, a normalidade foi restabelecida.


A caravana estava a um quilômetro do povoado, quando ouviu um ronco. Constante. Primeiro fraco, depois aumentou. Estava chegando perto, muito perto. Tornou-se um rugido pavoroso. Incessante. Um monstro furioso se aproximava, pensou. Tapou os ouvidos. Em seguida, as explosões. Uma, duas, três. Pedaços de metal e de algo assustador foram atirados longe.


Esperou alguns minutos até compreender. Não veria mais o pai ou os vizinhos, seus parentes não mais o visitariam, não haveria mais férias da família a bordo da caminhonete. Correu para dentro da casa e cruzou com a mãe na porta de entrada, a tempo de ver sua expressão de horror.


Pegou todos seus desenhos e jogou-os no forno a lenha, aceso para o almoço. As chamas devoraram as imagens dos foguetes-mísseis em cenários mágicos. As cores, que, naquele instante, as lágrimas do menino uniram no papel, fugiram pela chaminé e levaram embora a inocência.

 

SEM POESIA NÃO DÁ

 

Mestres da Guerra

 

(Bob Dylan – Nobel de Literatura em 2016)

 

Venham vocês mestres da guerra

Vocês que fabricam grandes armas

Vocês que fabricam aviões letais

Vocês que fabricam todas as bombas

Vocês que se escondem por trás de muros

Vocês que se escondem por trás de mesas

Só quero que vocês saibam

Que eu enxergo por trás de suas máscaras

 

Vocês que nunca fizeram nada

Além de construir para destruir

Vocês brincam com o meu mundo

Como se fosse seu brinquedinho

Vocês colocam uma arma na minha mão

E se escondem dos meus olhos

E dão as costas e correm para mais longe

Quando as velozes balas voam

 

Como o Judas de antigamente

Vocês mentem e enganam

Uma guerra mundial pode ser vencida

Vocês querem que eu acredite

Mas eu vejo através dos seus olhos

E vejo através das suas mentes

Como vejo através da água

Que escorre pelo meu ralo

Vocês engatilham as armas

Para que os outros disparem

Então vocês se afastam e observam

Enquanto a contagem de mortos aumenta

Vocês se escondem nas suas mansões

Enquanto o sangue dos jovens

Escorre dos corpos deles

E é enterrado na lama

 

Vocês criam o maior medo

Que já pôde ser lançado

Medo de trazer crianças

Ao mundo

Por ameaçarem meu filho

Não nascido e sem nome

Vocês não valem o sangue

Que circula pelas suas veias

 

O quanto que eu sei

Para falar quando não devo?

Vocês podem dizer que sou jovem

Vocês podem dizer que sou inculto

Mas tem algo que eu sei

Apesar de ser mais jovem que vocês

Até mesmo Jesus nunca iria

Perdoar o que vocês fazem

 

Me deixem fazer uma pergunta

Será que dinheiro é tão bom?

Ele comprará o seu perdão?

Vocês acham que poderia?

Eu acho que vocês vão descobrir

Quando a morte chegar

Todo o dinheiro que vocês ganharam

Jamais comprará de volta suas almas

 

E eu espero que vocês morram

E que suas mortes logo cheguem

Vou seguir o seu caixão

Em um pálido entardecer

E assistir enquanto vocês são abaixados

Para o leito de sua morte

E vou pisar em seus túmulos

Até estar certo de que estão mortos


 
 
 
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