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Quebra-gelo russo volta da Antártica ao Brasil

  • 1 de fev. de 2025
  • 4 min de leitura

Nesta sexta-feira (31/1), a Expedição de Circum-Navegação Costeira da Antártica voltou ao Brasil. Foram mais de 70 dias no mar costeando e desembarcando no continente gelado em busca de amostras. Ao todo, 57 pesquisadores de sete países — Brasil, Rússia, China, Índia, Chile, Argentina e Peru — chegaram à cidade de Rio Grande (RS) pela manhã, ansiosos para começar a trabalhar.

Quebra-gelo russo Akademik Tryoshnikov leva equipe internacional em expedição de circum-navegação da Antártica, em 23 de janeiro de 2025. Ao fundo a Estação Antártica Comandante Ferraz - Foto: Anderson Astor/Marcelo Curia/ICCE
Quebra-gelo russo Akademik Tryoshnikov leva equipe internacional em expedição de circum-navegação da Antártica, em 23 de janeiro de 2025. Ao fundo a Estação Antártica Comandante Ferraz - Foto: Anderson Astor/Marcelo Curia/ICCE

"A pesquisa científica, na verdade, começa agora, após desembarcarmos no porto", disse Jefferson Cardia Simões à Sputnik Brasil, diretamente da passagem de Drake, um dos estreitos mais revoltos do mundo.


Primeiro glaciólogo brasileiro e líder da expedição, o professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) conta que nesses dias eles navegaram em torno da Antártica, parando em diferentes pontos do mar e da costa para coletar dados, tanto da atmosfera quanto das águas e do gelo.


"Quando deu, nós descemos nas geleiras para fazer amostragens de neve e gelo, no que nós chamamos de testemunho de gelo."




O cientista relata ainda o clima de colaboração entre os integrantes da expedição, fosse nos momentos de trabalho, fosse nas horas de lazer, como nas refeições ou ao assistir a um filme.


"É um privilégio, é uma maneira muito bonita de você fazer a pesquisa científica, e junto com esse aspecto que eu falei, da cooperação com países de diferentes culturas e línguas."

Membros russos e chineses da expedição de circum-navegação trabalhando no continente antártico, em 12 de dezembro de 2024 - Foto: Anderson Astor/Marcelo Curia/ICCE
Membros russos e chineses da expedição de circum-navegação trabalhando no continente antártico, em 12 de dezembro de 2024 - Foto: Anderson Astor/Marcelo Curia/ICCE

É posto no Sistema do Tratado da Antártica (STA) que o continente só pode ser explorado para fins científicos, jamais comerciais. Dessa forma, não só as reivindicações territoriais no continente austral foram congeladas, como criou-se um mecanismo para compartilhamento dos trabalhos científicos.


"Ao longo desse período [da viagem], nós, é claro, sempre estávamos apoiando outras partes da expedição, inclusive um levantamento geofísico, aerotransportado, das massas de gelo e neve da costa antártica."


A importância do Akademik Tryoshnikov


A missão científica contou com uma novidade crucial para o sucesso das pesquisas. Pela primeira vez, cientistas brasileiros contaram com o apoio de um quebra-gelo para realizar pesquisas mais aprofundadas no continente: o Akademik Tryoshnikov, da Rússia.


Cedida pelo Instituto de Pesquisa Ártica e Antártica de São Petersburgo, a embarcação permitiu "quebrar mar congelado com espessura de até 1,5 metro" e se aproximar dos paredões de gelo que atingem até 50 metros de altura.




"Isso é o que diferencia um quebra-gelo que nem o Akademik Tryoshnikov", diz Cardia. "Poder navegar sobre a banquisa, essa capa de mar congelado que está consolidada sem aberturas e sem canais."


Mas a embarcação não é "só" um quebra-gelo, explicita o líder da expedição. É um navio-laboratório, isto é, construído com o propósito de apoiar a pesquisa científica nas regiões polares.

Navio laboratório Akademik Tryoshnikov, um quebra-gelo, em meio às banquisas, em 8 de janeiro de 2025 - Foto: Anderson Astor/Marcelo Curia/ICCE
Navio laboratório Akademik Tryoshnikov, um quebra-gelo, em meio às banquisas, em 8 de janeiro de 2025 - Foto: Anderson Astor/Marcelo Curia/ICCE

Com 135 metros de comprimento, o Akademik Tryoshnikov conta com sete laboratórios científicos e diversas estruturas de apoio, como redes que permitem a coleta de diferentes espécies marinhas "desde plâncton até animais maiores", detalha.


"Este navio é maravilhoso para nós que não temos um equipamento desse para utilizar […]. Certamente foi uma experiência única para nós."


Um projeto 'informal' do BRICS


Ainda que sete países tenham participado da missão, Cardia conta que em sua maioria os pesquisadores pertenciam a quatro: Brasil, Rússia, Índia e China.


"Não foi o propósito no início, mas acabou sendo praticamente BRICS", disse, destacando que a experiência serviu para "aumentar a cooperação Brasil-Rússia em termos científicos".


Durante a viagem, foi possível fazer paradas nas estações de pesquisa de cada um dos países, que têm "diferentes conceitos arquitetônicos". A brasileira, Estação Antártica Comandante Ferraz, por exemplo, foi recém renovada e está em ótima condição.





Já as russas estão em processo também de renovação e adição de novas instalações, como a estação Vostok, "que é instalada no lugar mais frio onde há pessoas habitando, onde chega a fazer -89 °C no auge do inverno".


Por sua vez, diz Cardia, os chineses também estão impressionando pela grandiosidade e rapidez na construção de suas estações. "A China já está indo para a quinta estação na Antártica."

Navio-laboratório Akademik Tryoshnikov, um quebra-gelo, navega no oceano Austral - Foto: Anderson Astor/Marcelo Curia/ICCE
Navio-laboratório Akademik Tryoshnikov, um quebra-gelo, navega no oceano Austral - Foto: Anderson Astor/Marcelo Curia/ICCE

O cientista destaca que é importante que o Brasil mantenha suas pesquisas no continente austral, tanto para manter seu direito a voto nas reuniões do Sistema do Tratado da Antártica e decidir o futuro da região, quanto pela importância do conhecimento científico produzido.


"O sistema ambiental é indivisível, não existe parte menor e mais importante", afirma Cardia. "As regiões polares são tão importantes quanto a Amazônia para a circulação da atmosfera e do oceano para o nosso clima."


Um exemplo clássico, detalha, é que muitas vezes as frentes frias que atingem o país são formadas no oceano Austral, "essa enorme massa de água fria ao redor da Antártica".


Em seu retorno ao Brasil, Cardia despede-se da Antártica, talvez para sempre.


"Eu, pessoalmente, creio que é minha última viagem. Já estou há mais de 30 anos envolvido com pesquisas aqui na Antártica. Foi a minha 29ª viagem. Então é hora de passar o bastão para os meus, nessa altura nem tão jovens, colegas", avalia.


Fonte: Sputnik Brasil, parceira do TODA PALAVRA

 
 
 

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