Queiroz tenta explicar cheque de R$ 89 mil na conta de Michelle


Fabrício Queiroz e Flávio Bolsonaro (Reprodução)

Uma das perguntas mais retumbantes nas redes sociais desde a explosão do caso de corrupção das rachadinhas no gabinete do então deputado estadual pelo Rio de Janeiro e hoje senador Flávio Bolsonaro (PL) foi respondida nesta semana.

Revelado pelo jornal O Estado de São Paulo no final de 2018, o esquema consiste no repasse da maior parte dos salários dos assessores-fantasmas para o parlamentar ao longo dos anos da legislatura na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Em entrevista concedida à revista Veja, o ex-assessor e ex-motorista Fabrício Queiroz - apontado pelas autoridades como o operador do esquema no gabinete do filho Zero Um do presidente - se justificou pelo depósito de R$ 89 mil na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro, mulher do presidente da República Jair Bolsonaro (PL).

Na versão de Queiroz, Jair Bolsonaro lhe fizera um empréstimo de R$ 20 mil para cobrir um rombo em seu cheque especial. Em seguida, mais dois empréstimos foram feitos, de R$ 30 mil e de R$ 40 mil para a suposta compra de dois carros.

"O Jair me emprestou, eu com a maior vergonha de pedir o dinheiro. Ele é assim (exibe a mão fechada). Esse cara não olha nem para mulher na rua, é de casa para o trabalho. Foi um pai para mim", declarou o ex-sargento da PM, apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como operador do esquema das rachadinhas no gabinete de Flávio quando este era deputado estadual.

Queiroz disse que o montante foi devolvido na conta da primeira-dama em cheques fracionados. Mas por que o valor foi devolvido na conta de Michelle, e não na do próprio Bolsonaro, à época deputado federal pelo Rio de Janeiro?

"Você não confia na tua mulher, não? Deputado não tem tempo para nada. Não é melhor dar um cheque para a mulher e todo mês você tem lá o seu chequinho?", indagou.

Outro depósito vultuoso chamou a atenção dos investigadores: o de R$ 25 mil na conta da mulher de Flávio, a dentista Fernanda.

Queiroz foi visto fazendo a transação em dinheiro vivo na boca do caixa - as imagens constam nos autos da investigação conduzida pelo Ministério Público do Rio de Janeiro.

De acordo com a revista, ele deu a entender que o dinheiro era do próprio Flávio.

"Na hora de depositar uma determinada quantia, é preciso dar o CPF. Eu fiquei ligando para o Flávio para pegar o número do documento dele, mas estava no plenário e não me respondia. Aí perguntei para o caixa: posso botar o meu CPF? E botei o meu. Juro pela felicidade das minhas filhas", declarou o ex-assessor do clã Bolsonaro.

Segundo a publicação, durante a entrevista, Queiroz se irritou quando questionado sobre as transações imobiliárias do ex-patrão, um dos eixos da investigação do MP do Rio em relação ao dinheiro supostamente desviado por Flávio e transformado em dezenas de imóveis.

"Isso é problema dele lá, negócio de imóveis. Não tem nada a ver comigo", concluiu Queiroz.

Envolvimento de Jair Bolsonaro

Gravações reveladas pela jornalista Juliana Dal Piva, do UOL, em julho do ano passado, apontaram o envolvimento direto do presidente da República, Jair Bolsonaro, no esquema ilegal de assessores fantasmas e entrega de salários na época em que ele exerceu seguidos mandatos de deputado federal (de 1991 a 2018).

As declarações indicaram que Jair Bolsonaro participava diretamente da rachadinha. Na reportagem, a fisiculturista Andrea Siqueira Valle, irmã da primeira mulher do presidente, afirma que Bolsonaro demitiu o irmão dela porque ele se recusou a devolver a maior parte do salário como assessor.

"O André deu muito problema porque ele nunca devolveu o dinheiro certo que tinha que ser devolvido, entendeu? Tinha que devolver R$ 6.000, ele devolvia R$ 2.000, R$ 3.000. Foi um tempão assim até que o Jair pegou e falou: 'Chega. Pode tirar ele porque ele nunca me devolve o dinheiro certo'.

Em troca de mensagens de áudio, a mulher e a filha de Fabrício Queiroz, Márcia Aguiar e Nathália Queiroz, chamam Jair Bolsonaro de "01". Márcia afirma que o presidente "não vai deixar" Queiroz voltar a atuar como antes.

A reportagem de Dal Piva descreveu também que recolher salários não era uma tarefa exclusiva de Fabrício Queiroz. A ex-cunhada do presidente disse que um coronel da reserva do Exército, ex-colega do presidente na Academia Militar das Agulhas Negras, atuou no recolhimento de salários.

Desde que foi revelado o esquema das rachadinhas, no fim de 2018, Jair Bolsonaro sempre se esquivou ou reagiu com rispidez quando foi questionado. Primeiro, chegou a dizer que "se Flávio errou, vai ter de ser punido". Em outra oportunidade, ameaçou agredir um jornalista que perguntou por que Fabrício Queiroz depositou cheques na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Investigações do MP-RJ descobriram que o esquema envolveu também dez familiares de Ana Cristina Valle, segunda mulher de Bolsonaro.

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