Teich complica mais Bolsonaro por uso de cloroquina

Atualizado: 6 de mai. de 2021


Ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, diz que saiu por falta de autonomia (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)

Em depoimento na CPI da Covid no Senado nesta quarta-feira (5), o ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, complicou a situação para Jair Bolsonaro. Teich deixou claro que só pediu demissão do ministério após 28 dias no cargo (entre abril e maio de 2020) porque o presidente da república não lhe deu autonomia e ele foi pressionado por Bolsonaro a recomendar a cloroquina para tratar pacientes com coronavírus, expondo as pessoas a risco. "Sem a liberdade para conduzir o ministério conforme as minhas convicções, optei por deixar o cargo", afirmou.

As maiores autoridades de saúde do mundo, incluindo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), confirmam que a cloroquina não tem eficácia para tratamento da Covid. Mas desde o início da pandemia, depois de dizer que era "uma gripezinha", Bolsonaro agarrou-se à cloroquina, contrariando a ciência e estimulando o uso do medicamento como a cura partindo dele.

"O pedido específico [de demissão] foi pelo desejo [do governo] de ampliação do uso de cloroquina. Esse era o problema pontual. Mas isso refletia uma falta de autonomia e uma falta de liderança para implantar o que era certo", disse Teich.

O ex-ministro disse que sua convicção pessoal era baseada em estudos científicos, que apontavam para a não eficácia da cloroquina (remédio para tratamento de paciente com malária, podendo ocorrer graves efeitos colaterais).

'Imunidade de rebanho é um erro'

Assim como no depoimento do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta na terça-feira, Teich, que é médico oncologista, deu informações que confirmam a conduta permanente de Bolsonaro na implementação da tese de imunidade de rebanho, que, segundo Teich, é "erro" e contribuiu na morte de mais de 400 mil pessoas na pandemia.

"Essa tese de imunidade de rebanho onde você adquire a imunidade através do contato, e não da vacina, isso é um erro. A imunidade você vai ter através da vacina e não através de pessoas sendo infectadas. Então, isso aí não é um conceito correto", disse o ex-ministro da Saúde.

O ex-ministro afirmou também que, durante sua gestão, não houve nenhum plano claro do governo para aquisição ou produção de vacinas.

Ao ser questionado pelo relator, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), se tinha conhecimento da produção de cloroquina pelo Exército, o ex-ministro afirmou que não sabia e que não foi consultado sobre o assunto.

Pazuello

Renan perguntou também sobre a capacidade do ex-ministro que lhe sucedeu, general Eduardo Pazuello, para assumir o ministério. Teich respondeu que seria 'mais adequado' que tivesse conhecimento na gestão de saúde.

"Acho que seria mais adequado um conhecimento maior sobre gestão em saúde", afirmou Teich, que teve Pazuello como seu auxiliar por uma decisão pessoal de Bolsonaro.

O depoimento de Pazuello, que seria nesta quarta-feira, foi remarcado para o dia 19 depois de o general alegar que não podia comparecer, porque teve contato recente com pessoas que contraíram a Covid-19 - embora em outras ocasiões não tenha demonstrado nenhum cuidado na propagação do vírus para pessoas próximas.

'Homem-bomba'

Após as primeiras oitivas com os ex-ministros da Saúde do governo Bolsonaro, a CPI da Covid aprovou requerimentos para ouvir na próxima semana o ex-secretário de comunicação da Presidência da República Fábio Wajngarten. O publicitário é visto como um possível "homem-bomba" na CPI depois que ele afirmou em entrevista à Veja que o Brasil não comprou vacinas da Pfizer por incompetência e ineficiência, e por isso atrasou o início da imunização no país, gerando mais mortes. Representantes da Pfizer também serão ouvidos.

Outro convocado é o ex-chanceler Ernesto Araújo, para falar da ausência de acordos internacionais durante a pandemia.

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