Toda Palavra chega aos cem: marco do jornalismo de opinião
- 4 de set. de 2025
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Por Waldeck Carneiro
Em alguns momentos críticos da vida brasileira, determinados jornais cumpriram um papel decisivo para manter abertas as comportas da liberdade de opinião e de expressão. No Rio de Janeiro, podemos citar O Pasquim, que circulou corajosamente a partir de 1969, meses depois da edição do AI 5, até o início dos anos 1990. Aliás, perdemos há poucos dias o inesquecível Sérgio Jaguaribe, o Jaguar, cartunista antológico e um dos fundadores daquele semanário crítico, heterodoxo e de oposição à ditadura civil-empresarial-militar.

Nessa toada, também podemos citar, igualmente radicado no Rio de Janeiro, o semanário Opinião, que passou a circular em 1972, quando o Brasil vivia o período mais violento da ditadura, sob o governo do general Médici, tendo sobrevivido, a duras penas e a bem da democracia, até o ano de 1977.
Ambos os veículos aqui mencionados, seus dirigentes, jornalistas e articulistas, foram severamente reprimidos, mas deixaram semeadas, para sempre, as sementes do jornalismo de opinião, que não se verga em face dos poderosos. Ora, centelhas dessa inspiração insurreta inflamaram, em boa medida, o surgimento do jornal mensal Toda Palavra, cujo número centenário ora celebro.
Com efeito, o caráter crítico e independente do Toda Palavra, mesmo nas horas mais difíceis, se manteve intacto: seja no enfrentamento aberto ao golpe de Estado de 2016, que depôs a então presidenta constitucional do Brasil, Dilma Rousseff, hoje à frente do Banco dos Brics – voltaremos aos Brics mais adiante; seja no combate aberto ao neofascismo prevalente no desgoverno Jair Bolsonaro, no quadriênio obscurantista de sua presidência (2019-2022); seja na veemente rejeição aos impulsos golpistas dos perdedores das eleições presidenciais de 2022, cujo triste marco é o 8 de janeiro de 2023, que maquinaram uma trama hedionda para tomar o poder, prevendo inclusive o assassinato de Lula, Alckmin e Moraes, tudo corajosamente denunciado e explicado, em minúcias, pelo Toda Palavra.
Essa fleuma crítica, sintetizada na vocação do jornal Toda Palavra de se insurgir contra os que querem se impor pela força, traduz-se atualmente por um impressionante protagonismo na articulação de veículos e jornalistas da mídia no âmbito dos Brics, com o fito de organizar o contraponto, jornalístico, cultural e ideológico, aos grandes mandarins da mídia capitalista global, em geral situados nos países do G7, notadamente nos Estados Unidos, que exercem forte influência sobre a mídia, especialmente sobre os oligopólios de comunicação, em atuação na periferia do capitalismo.

Esse movimento contra-hegemônico no contexto da mídia global, que conta com a participação protagonista do Toda Palavra, não é de pouca monta! De fato, tal esforço, verdadeiramente hercúleo, pelo qual se oferece pujante combate a um dos setores mais poderosos do mundo, incluindo as plataformas de mídia e redes sociais do capitalismo ocidental - que propagam o que bem entendem, sem crivo de veracidade, e almejam funcionar sem nenhuma regulamentação, ofendendo a soberania dos países em que atuam -, representa uma das principais vertentes da luta de classes e, logo, das disputas ideológicas da pós-modernidade.
Nessa perspectiva, é imperioso dar a devida ênfase ao BRICS Press Meeting, realizado no dia 4 de julho de 2025, em Niterói-RJ, sede do Toda Palavra, na esteira da recente Cúpula dos Brics, que ocorreu na Cidade do Rio de Janeiro.
A “Carta de Niterói”, documento final daquele evento histórico, alinhado com a ideia de desmonte do mundo unipolar, pauta questões absolutamente centrais e capazes, se prevalecerem, de redesenhar a
geopolítica mundial: construção de uma “Nova Ordem Informativa Internacional”; criação de uma bigh tech dos Brics, ou seja, uma plataforma tecnológica própria de comunicação, operada por veículos dos países situados fora do eixo hegemônico global; articulação mais densa, regular e intencional das agências públicas de notícias dos países dos Brics.
Trata-se, sem exagero, de uma das mais importantes articulações geopolíticas e, em especial, do campo da comunicação, desde a segunda grande guerra. Não à toa, os veículos de imprensa hegemônicos no Brasil simplesmente fingem que a “Carta de Niterói” não existe, bem como ignoraram
– ou tentaram ignorar – o evento “nascido em 4 de julho”, na proposital paródia que faço aqui ao filme de Oliver Stone.
Tudo isso para dizer que o jornal Toda Palavra, assim como a Rádio homônima, lustrando o seu perfil insubordinado, está na liderança dessa peleja política e cultural, de dimensão global, sendo ambos inclusive os primeiros signatários da “Carta de Niterói”, documento citado e debatido na própria
Cúpula dos Brics, inequívoco indicador de que o manifesto rapidamente ultrapassou os limites de Niterói e do próprio evento promovido pelos veículos dos Brics, no histórico, lindíssimo e inspirador Solar do Jambeiro.
Por fim, seria injusto não sublinhar o compromisso democrático, o denodo incomum, a paixão militante e a visão estratégica de Luiz Augusto Erthal, jornalista e editor do Toda Palavra, que está no centro das articulações que visam à construção de novas referências no campo da mídia, com o
propósito de desconstruir “verdades” consolidadas de tanto serem repetidas pelos veículos que representam os interesses dos poderosos.
São “verdades” outorgadas a leitores, ouvintes, telespectadores ou assinantes em detrimento de outros dados, informações e perspectivas de análise, banidos ou diminuídos em reportagens, coberturas e editoriais justamente porque têm potencial para se tornar, nas palavras de Leandro Konder, sementes de dragões, ou seja, são capazes de desvelar imperfeições, enviesamentos e falsas notícias que, ao fim e ao cabo, atentam contra a democracia, a soberania e a cidadania.
Na minha trajetória intelectual e política, carrego, como uma medalha no peito, a garbosa condição de articulista do jornal Toda Palavra, desde os seus primórdios.
*Waldeck Carneiro é Professor Titular da UFF e Coordenador-Geral do Fórum Estadual de Educação do RJ.










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