Um filme de Sílvio Tendler para trazer a chama de Brizola

Por Luiz Augusto Erthal

O cinesta Sílvio Tender, diretor dos aclamados "Jango" e "Os anos JK", entre outros importantes documentários que retratam principalmente a história política recente do país, anunciou que irá rodar um filme sobre o ex-governador Leonel Brizola, morto em 2004 e cujo centenário de nascimento será comemorado no início do ano que vem.

O anúncio foi feito durante um debate promovido pelo Cineclube Macunaíma, da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no início de fevereiro, após a exibição online do filme "Jango". Nesse mesmo debate, a filha do ex-presidente João Goulart, Denize Goulart, revelou uma conversa que teve com seu tio, Leonel Brizola, duas semanas antes da sua morte. Na ocasião, o ex-governador reconheceu, pela primeira e talvez única vez, o acerto da decisão de Jango em não resistir ao golpe de 1964 pela falta de condições para uma resistência armada naquele momento, que levaria inevitavelmente o Brasil a um banho de sangue, conforme publicado pelo TODA PALAVRA.

Provocado pela emersão da memória do ex-governador durante o debate, Sílvio Tendler revelou o seu desejo de transformar em filme a trajetória de Brizola, herdeiro do Trabalhismo varguista depois da morte de João Goulart; governador por dois estados - Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro; desarticulador do golpe militar contra a posse de Jango em 1961 com a criação da Campanha da Legalidade - último levante armado do povo brasileiro - e dono de coragem e coerência políticas irrefutáveis.

"Tenho tido muita vontade de fazer um filme sobre o Brizola. Eu, que nunca tive muita paixão pelo Brizola, hoje admito que ele está fazendo uma falta danada. Precisamos muito de uma figura como ele hoje no Brasil ou pelo menos restabelecer o pensamento dele. Cada coisa que vejo dele ultimamente parece mais genial do que nunca", disse Sílvio Tendler, prometendo "arrastar" para a produção do filme a amiga Deniza Goulart, que também participou da construção do "Jango", lançado em 1984.


Volta por cima

Como herdeiro do Trablhismo, Brizola também se fez herdeiro da Carta Testamento de Getúlio Vargas, a mensagem definitiva deixada por ele ao povo brasileiro antes de meter uma bala no coração, no dia 24 de agosto de 1954. Lidas hoje, algumas das frases contidas nesse documento parecem que poderiam ter sido escritas pelo próprio Brizola em momentos distintos da sua vida.

"Aos que pensam que me derrotaram, respondo com a minha vitória". Getúlio Vargas [Carta Testamento]

Não é a primeira vez que a coerência e o exemplo de Brizola para o Brasil ressurgem depois que os seus inimigos imaginaram já tê-lo derrotado. Foi assim após a volta para o Brasil, com a anistia política, em 1979. Durante 15 anos a ditadura militar tentou desconstruir a imagem de Brizola no país e, mesmo quando foi forçado a aceitá-lo de volta, o regime trabalhou para impedi-lo de recuperar o seu velho Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), fundado por Getúlio Vargas, cuja sigla acabou ficando nas mãos de Ivete Vargas e é hoje uma caricatura incapaz de guardar até mesmo a memória dos tempos gloriosos de luta pelos trabalhadores, transformada em covil para rufiões, golpistas e mercenários.

Brizola chorou ao rasgar a ficha do PTB e, mesmo desacreditado, aparecendo com apenas 3% nas pesquisas para a eleição de 1982 que se avizinhava, criou o Partido Democrático Trabalhista (PDT), que o guindou ao Palácio Guanabara, derrotando as forças políticas e econômicas mais poderosas daquele momento e até mesmo a fraude eleitoral articulada para tentar impedir a sua eleição como governador do Estado do Rio, no que ficou conhecido como o "Escândalo da Procunsult", em uma referência à empresa responsável pela computação dos votos, fonte da manobra fraudulenta.


"Brizola tinha razão"

Em 1986, na autoproclamada Nova República, o então presidente José Sarney lançou um programa não menos fraudulento de contenção da inflação, baseado no congelamento de preços, pouco antes das eleições gerais daquele ano. O Cruzeiro - moeda vingente na época - foi substituído pelo Cruzado, recebido com júbilo pelos economistas e pela generalidade da classe política. Com forte apoio da mídia, autonomeados "fiscais do Sarney" se investiam de poderes de polícia e fechavam mercados diante das câmeras de televisão, demonizando comerciantes que estariam boicotando - ao esconder mercadorias ou burlar o congelamento de preços - os esforços do presidente da República para acabar com a inflação por decreto.

"Tudo isso são votos, votos e nada mais", denunciou corajosamente Brizola durante programa político do PDT em cadeia nacional de rádio e televisão, profetizando a volta da inflação após as eleições e o consequente descontrole da economia. Criticado por todo espectro político do país, da esquerda à direita, e confrontado pela grande imprensa diante da opinião pública, àquela altura seduzida pela campanha midiática a favor do Cruzado, Brizola e seu partido pagaram pela ousadia um alto preço eleitoral naquele ano.

O PDT perdeu a eleição de governador em suas principais bases eleitorais - Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, onde Darcy Ribeiro, que conduzia junto com Brizola o audacioso programa educadional dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), amargou uma dos mais sentidos revezes dos trabalhistas. A popularidade de Brizola despencou e chegou-se a anunciar a sua morte política.

"Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de lutas". Getúlio Vargas [Carta Testamento]

Como um efeito bumerange, o reconhecimento público da coerência de Brizola viria na mesma medida da decepção da população ao ver revelada a farsa do Plano Cruzado e, como profetizara o líder trabalhista, o desmonte do programa de congelamento de preços tão logo os votos tivessem sido tirados das urnas e contados. O PMDB, de José Sarney, havia vencido em 22 dos 23 estados existentes na época. A única exceção - a Bahia - foi a vitóira de Antônio Carlos Magalhães, do PFL, aliado de Sarney.

Despertado da ilusão e se sentindo traído, o povo cunhou uma expressão que virou, nos meses que se seguiram, quase que um mantra, repetido nas ruas, adesivado nos carros, apegado às consciências dos que haviam sido engodados: "Brizola tinha razão". O fantasma do Trabalhismo e em particular a ameaça brizolista voltara a aterrorizar as elites brasileiras, que tiveram mais uma vez que engendrar seus golpes e artimanhas para evitar a sua chegada à presidência da República na eleição presidencial de 1989, a primeira desde a redemocratização.

Foi assim até a morte física do velho líder, em 2004 - o que, no imaginário ilusório da direita, seria a sua derradeira derrota.


O novo bumerangue

Mas, passados quase 16 anos, com o golpe parlamentar de 2016 e a ascenção da extrema direita, diante de uma tragédia sem precedentes que se abateu sobre a sociedade brasileira, onde os zumbis reencarnados da peste fascista - que se julgava erroneamente extinta - firmaram aliança com os vetores da peste do novo coronavírus, ceifando centenas de milhares de vidas e implantando o terror no país, a imagem de Brizola ressurge mais uma vez como uma chama acesa em meio às trevas que envolvem o Brasil.

"Meu nome será uma chama imortal nas vossas consciências". Getúlio Vargas [Carta Testamento]

O depoimento de Sílvio Tendler ganha ainda maior relevância com a confissão de nunca ter sido, a rigor, um brizolista convicto e traz de volta à lembrança que Brizola, sim, tinha razão em quase que pregou - a defesa incansável da Educação como instrumento de redenção do povo brasileiro, a reforma agrária e o desenvolvimento autônomo nacional, por exemplo - na direção da realização do sonho trabalhista de construção de uma civilização justa e independente no Hemisfério Sul.

O vazio de Brizola notado por Tendler é hoje quase uma unanimidade entre aqueles que o conheceram - e não só entre os seus seguidores. Um novo efeito bumerangue do pensamento brizolista começa a tomar forma cada vez mais consistente, como naqueles dias pós-eleitorais de 1986, e a realização do filme anunciado por Sílvio Tendler é uma das formas de materialização ou de ressuscitação política de Brizola. Com o "Jango", Tendler ajudou a resgatar a memória de João Goulart que a direita quis ver enterrada em São Borja, junto ao corpo do único presidente brasileiro a morrer no exílio. Com esse prometido "Brizola", ele pode, agora, ajudar o país a reencontrar um caminho que o tire das trevas bolsonaristas.

De volta a este mundo tenebroso do Brasil de hoje, e também de volta à Carta Testamento, Brizola poderia, então, dizer como Getúlio: "Aos que pensam que me derrotaram, eu respondo com a minha vitória". Para desespero perpétuo das nossas elites.

"Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte". Getúlio Vargas [Carta Testamento]

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