Um presente de Dia das Mães para 'dona Hermínia'

Por Luiz Augusto Erthal


Desde a mudança da denominação da principal artéria viária da Zona Sul de Niterói, que deixou de ser Avenida Estácio de Sá para homenagear o ex-governador fluminense Roberto Silveira, morto em 1961, nenhuma outra proposta de alteração de nome de logradouro público mobilizou tanto os moradores da cidade quanto a ideia lançada pela prefeitura esta semana.

Um dia após ser apresentada a consulta online para ouvir a população sobre a mudança do nome da rua paralela à praia de Icaraí, de Coronel Moreira César para Ator Paulo Gustavo, cerca de 30 mil pessoas já haviam votado na plataforma Colab até o final da noite desta quinta-feira, 6. Ali, através do link consultas.colab.re/PauloGustavo, qualquer pessoa pode participar da votação, que continua disponível até sábado, 8.

A morte do humorista niteroiense Paulo Gustavo, cujo corpo foi cremado nesta quinta-feira, 6, no Cemitério Parque da Colina, em Pendotiba, em cerimônia restrita à família, causou enorme comoção em Niterói. A primeira - e comovente - homenagem prestada pela cidade ao criador de Dona Hermínia - personagem do seu maior sucesso no teatro e na televisão (“Minha mãe é uma peça”) - foi na noite de quarta-feira, quando as palmas dos niteroienses ecoaram por toda a cidade.

No mesmo dia a prefeitura havia anunciado o lançamento da consulta pública. Além da mudança da principal avenida do bairro de Estácio de Sá para Roberto Silveira, moradores de Icaraí também já haviam se envolvido na polêmica sobre o decreto que transformou em Avenida Jornalista Alberto Torres o que antes da morte do antigo deputado e dono do jornal O Fluminense era chamada apenas de Praia de Icaraí, conforme aparecia singela e poeticamente nas placas antigas da rua.

Nos dois casos a população não pôde votar, mas agora os cidadãos estão sendo chamados para referendar um antigo desejo, sobretudo da esquerda niteroiense: o expurgo do nome do sanguinário Moreira César. O “corta cabeças”, como se tornou conhecido o antigo e polêmico militar - leia artigo do professor e pesquisador Luiz Fernando Conde Sangenis, aqui, no TODA PALAVRA -, virou nome de rua em Niterói por ter participado da defesa da cidade durante a Revolta da Armada.

A “Cidade Invicta” agradeceu-lhe com a homenagem na placa que ainda - e provavelmente por pouco tempo - leva o seu nome. A fama de torturador do militar, no entanto, sempre desagradou historiadores e militantes de esquerda.

O nome, porém, já está há muito incorporado ao cotidiano da cidade. Dar umas voltas “na Moreira” significa, para os niteroienses, visitar as melhores lojas de grifes da cidade, lanchar na Confeitaria Beira Mar, fazer compras nos vários shoppings da rua e, outrora, ver os últimos lançamentos nos cinemas e nas livrarias que lá fizeram história e que já sucumbiram à exploração imobiliária ou à crise econômica, deixando-a culturalmente um pouco mais pobre nos últimos tempos.

Por várias vezes a retirada do nome de Moreira César foi defendida, mas até então ninguém com o poder de fazê-lo ousou dizer aos moradores e empresários da rua que eles precisariam refazer seus cartões de visita e retirar de suas marcas o endereço que já se tornara famoso e valioso, a despeito da fama de mau do seu patrono. Mal comparando, a Moreira César está para Niterói como a Visconde de Pirajá para o Rio ou a Quinta Avenida para Nova York.

Agora, porém, parece existir um nome capaz de convencê-los: Paulo Gustavo, o querido ator niteroiense que a tragédia humanitária da covid-19 ceifou aos 42 anos, no início desta semana. Com sua leveza e bom humor ele homenageou como poucos esta cidade.

Chegou a hora de Niterói retribuir a homenagem. As urnas virtuais ainda não foram abertas, mas não é necessária grande expertise política para duvidar que em apenas 24 horas, cerca de 30 mil pessoas tenham se mobilizado para dizer: “Fica, corta cabeças!”

Há uma grande expectativa por essa mudança e Niterói volta a ser, mais uma vez, o centro das atenções dos fluminenses, que aguardam ansiosos pela decisão do povo da sua velha capital. Nesta quinta-feira, ainda, o Fórum Estadual dos Secretários Municipais de Cultura do Estado do Rio de Janeiro divulgou um manifesto com o título “Paulo Gustavo, de Niterói para cada coração brasileiro”.

No texto, os gestores de cultura dos municípios fluminenses manifestam “apoio à iniciativa da Prefeitura Municipal de Niterói, com o suporte decidido de sua Secretaria Municipal das Culturas, de consultar a população no sentido de homenagear este grande artista niteroiense e brasileiro, transformando a Rua Coronel Moreira César em Rua Ator Paulo Gustavo”.

Em Canudos, no sertão baiano, o engalanado coronel terminou apeado do seu cavalo e da sua empáfia pela bala certeira de um sertanejo. Em Niterói, a memória de um facínora está prestes a ser trocada pela mensagem de paz, alegria e irreverência do filho de dona Déa - de alguém como nós.

Se é por falta de link, aqui vai, mais uma vez, o caminho para batizar a Rua Ator Paulo Gustavo. Às vésperas do segundo domingo de maio, “dona Hermínia” e as outras mães da cidade agradecem.


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