Brasil poderia vacinar 4 vezes mais rápido contra covid

Atualizado: 16 de mai. de 2021


Videoconferência do Ministério da Saúde com executivos da Pfizer: contratos desprezados (Foto: MS/Divulgação)

Em entrevista à Sputnik Brasil, o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto aponta as falhas do governo federal na aquisição de vacinas contra a Covid-19, mas acredita que, em um cenário otimista, seja possível concluir a imunização antes do fim do ano.

Ao longo das últimas semanas, o Brasil despencou no ranking mundial de velocidade de vacinação.

Devido ao atraso na aplicação da segunda dose da CoronaVac e por falta de insumos para produzir imunizantes, o país caiu da quarta para a oitava posição entre os que mais aplicam doses de vacina contra a Covid-19 por dia.

A média diária de vacinação, que era de 995 mil em 29 de abril, passou para 429 mil na última quarta-feira (12), segundo dados do Our World in Data, ligado à Universidade de Oxford, conforme noticiado pelo portal G1.

"Não tem muito milagre. Sem vacina, perdemos o ritmo de vacinação", disse, em entrevista à Sputnik Brasil, o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e fundador e primeiro diretor da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Segundo o especialista, se o Brasil tivesse o volume necessário de doses, poderia vacinar até dois milhões de pessoas por dia, dada a capacidade do Plano Nacional de Imunização (PNI). A quantidade é mais que quatro vezes superior ao ritmo atual de vacinação do país.

"Infelizmente, é simples assim. Nós não compramos vacina. Estamos vivendo das vacinas que o [Instituto] Butantan e a Fiocruz [Fundação Oswaldo Cruz] estão produzindo. E estão produzindo no ritmo em que recebem os insumos farmacêuticos da China e conseguem fazer o envase desse insumo", afirmou o médico sanitarista.

Nesta semana, a Fiocruz anunciou que começará a produzir o IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) no Brasil a partir deste sábado (15).

O primeiro lote de imunizantes nacionais, porém, só ficará pronto daqui a aproximadamente três meses.

Segundo Vecina, a Fiocruz conseguirá produzir, em média, 15 milhões de doses de vacina por mês até o início do ano que vem. A partir de fevereiro de 2022, o instituto terá a capacidade de dobrar a quantidade de doses na fábrica.

Ele explica que, durante e depois da produção, a fábrica será inspecionada por técnicos da Anvisa, que precisarão validar as condições de boas práticas e de qualidade do produto.

Já o Instituto Butantan, que entregou 1,1 milhão de doses da CoronaVac ao Ministério da Saúde nesta sexta-feira (14), suspendeu completamente a produção da vacina por falta de matéria-prima.

O instituto depende agora da entrega do IFA chinês para poder atingir a produção de 100 milhões de doses, conforme se comprometeu.

"O problema é que, por conta das questões diplomáticas, com declarações estapafúrdias do presidente da República, a China está atrasando a chegada do IFA", ressaltou o fundador e ex-diretor da Anvisa.

Quantas doses o Brasil terá e quando concluirá a vacinação?

Gonzalo Vecina destaca que a CPI da Covid ajudou a esclarecer por que o ritmo de vacinação do país não engatou.

Para o médico sanitarista, o principal motivo foi o fato de o governo federal não ter comprado as doses da Pfizer, oferecidas a partir agosto de 2020.

Em seu depoimento na quinta-feira (13), o gerente-geral da Pfizer para a América Latina, Carlos Murillo, relatou que foram apresentadas ao governo brasileiro três propostas naquele mês. Todas ficaram sem respostas.


Executivo da Pfizer confirma na CPI da Covid que Brasil desprezou propostas de compra da vacina (Agência Senado)

Segundo ele, a primeira oferta, feita em 14 de agosto, previa o fornecimento de 30 milhões de doses, sendo que os primeiros lotes começariam a ser entregues no final de 2020.

O executivo detalhou que, só no ano passado, foram cinco propostas - nenhuma acatada - de venda de 30 ou 70 milhões de doses ao Brasil. Já em fevereiro de 2021, houve mais uma tentativa, dessa vez de 100 milhões de doses.

Porém, o acordo entre o governo brasileiro e a Pfizer só foi consolidado em 19 de março. A previsão inicial de entrega é de 100 milhões de vacinas.

Na última terça-feira (11), o Ministério da Saúde anunciou a aquisição de mais 100 milhões de doses.

"Ficou comprovado que desde agosto está sendo oferecida a compra de vacina e o governo federal tem se recusado a admitir. Finalmente, efetuaram a compra. Mas essas doses só vão chegar no segundo semestre e mais para o fim do ano", frisou Vecina.

Além das doses da Pfizer, do Butantan e da Fiocruz, o governo federal também aguarda a chegada de 38 milhões de vacinas contratadas junto à Janssen e mais 40 milhões que virão por meio do consórcio COVAX Facility.

"Esse número fecha com sobras as 320 milhões de doses necessárias para vacinar 160 milhões de brasileiros", pontuou o especialista à Sputnik Brasil. Por enquanto, o país vacinará apenas pessoas com 18 anos ou mais.

Segundo Vecina, em um cenário otimista, será possível concluir a vacinação "por volta de novembro".

"E aí, sobrando vacina, já poderemos pensar na utilização da próxima fase, que é vacinar os jovens e as crianças, que são 60 milhões de pessoas", afirmou.


Fonte: Agência Sputnik

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