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A “riodejaneirização” do Brasil

há 15 horas
4 min de leitura

Por Sandro Araújo


Já tem um tempo que venho falando sobre o avanço das facções criminosas no país.

Uma epidemia. Nociva e letal que atinge rincões antes impensáveis pelos mais pessimistas “pensadores” do assunto Segurança Pública.

Norte e Nordeste padecendo de uma tragedia social, levando aos últimos degraus da dignidade, homens e mulheres que jamais imaginaram passar por tamanha violência.

Esse processo de “riodejaneirização” do país caminha a passos largos desde a década de 80. Afinal, a cidade que por ironia atende pela alcunha de “maravilhosa”, é tida como a vitrine do Brasil, praticamente desde a sua fundação.



Mas você, caro leitor, em especial o defensor do RJ, pode apontar os dedos para o Primeiro Comando da Capital (PCC) e dizer que os caras são de São Paulo.

Entretanto, cabe dizer que a trajetória do Comando Vermelho, oriundo da Falange Vermelha do presídio da Ilha Grande, serviu de parâmetro para a fundação do sindicato do crime paulista.

Ambos partiram das premissas das reivindicações da população carcerária, sempre tratada como lixo pelas diversas administrações estaduais e federais ao longo de quase dois séculos.

Dessa forma, o PCC pode ser visto como o primeiro e mais contundente exemplo de “riodejaneirização” do crime, que chegou em terras bandeirantes com força desproporcional.

Desde os anos 90 está claro para o sistema de persecução penal brasileiro e também o político, que a proliferação de grupos criminosos pelo país nos moldes do que acontece no RJ desde 1976, era quase como o livro de Garcia Marquez que mostrava a “Crônica de uma Morte Anunciada”. Todos sabiam e nada fizeram para impedir.

No RJ, o protagonismo do Comando Vermelho passou a ser disputado com a Milícia, que nos últimos anos estendeu seus domínios para dentro do poder público de uma forma inimaginável até para os escritores de romances policiais.

Políticos, Juízes, Promotores e Policiais vem sendo presos aos montes ao longo das últimas duas décadas e, mesmo com essas prisões, muitas vezes mais midiáticas que efetivas, a máquina do crime organizado repõe peças com velocidade absurda, já substituindo esses agentes públicos por outros de igual ou maior alcance.

Esse modelo de sociedade que o RJ tem exportado com sucesso para os outros estados da União, usa e abusa da violência e da corrupção para atingir seus objetivos, que nada tem de ideológicos. Visam dinheiro e exclusivamente dinheiro.

Dominam territórios, exploram serviços, vendem drogas ilícitas, cigarros e bebidas contrabandeados e extorquem moradores. Tudo isso, com forte aparato de armamentos de guerra e cobertura de funcionários públicos de todo tipo.

Milícia e Comando Vermelho não tem diferenciais . Antigamente alguns políticos defendiam a primeira , sustentando que levava segurança as regiões que dominava. Subiam nas tribunas de Assembleias e Câmaras Municipais, para demonizar os criminosos não milicianos e homenagear parentes e amigos dos paramilitares.

Agora as regiões Norte e Nordeste se veem acossadas por essa praga de violência, que deixou de ser exclusivamente urbana, atingindo também as zonas rurais do país .

E o que é feito para frear esse avanço?

Uma PEC da segurança pública foi aprovada, mas de tudo que foi proposto, o método investigativo brasileiro continua o mesmo.

O Inquérito Policial tem se mostrado, desde sua criação em 1871, o ente mais inútil da persecução penal brasileira. A organização das carreiras policiais é única no mundo. Como se todas as polícias do mundo estivessem erradas e apenas a brasileira está correta.

Um índice de resolução de homicídios menor que 10% não parece ser razoável, apesar dos delegados de polícia gritarem que resolvem 1/3 deles.

Um índice ainda risível, que leva em consideração apenas o apontamento do culpado/suspeito, quando a resolução em si, deve abarcar, além desse apontamento, a prisão, julgamento e cumprimento de pena.

Nossas políticas de prevenção ao abuso de drogas e a comportamentos violentos é quase inexistente. Temos uma polícia meramente reativa e hoje, com a tecnologia que serve os grupos criminosos, incapaz de se antecipar.

A burocracia atua em sentido contrário a facilidade que os sindicatos do crime tem para montar logística, adquirir equipamentos e estender domínios.

Desde 1976, quando foi feita a primeira operação policial em favela no Rio de Janeiro, visando combater o tráfico de drogas, o método usado é o mesmo. Invasoes, trocas de tiros, inocentes mortos como danos colaterais, e a continuidade sem fim do crime.

A sociedade, mesmo a que abrange os moradores de comunidade, aprendeu a se acostumar com o “bandido bom é bandido morto”. Mas só serve para essa máxima, um tipo de bandido apenas .

Banqueiros em seus aviões de luxo, amigos de celebridades e desportistas famosos tem uma tendência a escapar do desejo da população de vê-los mortos pela polícia.

Hoje o que temos é um jogo midiático e de propaganda. Há algum tempo, uma operação policial batizada com o nome de “Contenção”, deixou um rastro de mais de 100 mortes numa favela carioca. E conseguiu “conter”? Nada. Nada mesmo. O tráfico de drogas continua firme e forte, cada vez mais bem armado, apesar de estar longe de ser a principal atividade dos grupos criminosos do país.

E assim, o bucólico e poético modo de vida carioca, permissivo, que propõe o “café” antes do polícia pedir, que busca vantagem o tempo todo, mostra um sorriso largo e simpático para os visitantes… sorriso muitas vezes desprovido de sinceridade…

Em terras fluminenses é algum tipo de status ser amigo de bandidos perigosos. Traz um orgulho ostentado sem medo. Sem contar no racismo absurdo, que está presente na vida dos cariocas de uma forma muito mais aguda que em outros lugares.

Já ouvi:

“Sou racista não pô! Sou carioca! Onde já se viu isso?”

Um forma interessante… como o indivíduo é e como ele acha que é.

O caminho é longo. Diminuir a influência de grupos criminosos passa por uma revolução na educação brasileira. O horário integral com contraturno de qualidade, que realmente atraia a atenção dos alunos, é o primeiro passo para reduzir a oferta de mão de obra das faccoes .

Mas os políticos geralmente não gostam muito de “revoluções” que só terão efeitos 20 anos depois, pois seus mandatos já terão acabado e não se renovado.

É um assunto amplo que traz discussões sem fim…

Só nos resta a fé …

E eu ainda a tenho em grande quantidade.

Bjs em todos

 
 
 

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