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Big Techs, complexo militar-industrial e a natureza do governo Trump

Eduardo Vasco


O novo governo Trump começa a se desenhar. Até o momento, fica claro que ele está dividido em duas alas principais. Uma, a de trumpistas raiz, de fascistas sinceros, representantes de um movimento plebeu de milhões de cidadãos da classe média e trabalhadores desorganizados cansados do “sistema”. Outra, de grandes magnatas movidos por puro pragmatismo.


Mas essas alas do novo governo não são homogêneas. A primeira conta também com personagens como RFK Jr. e Tulsi Gabbard, ex-democratas com posicionamentos esquerdistas. São eles, justamente, os mais combatidos pelos meios de comunicação e porta-vozes do establishment.


A ala dos grandes magnatas nitidamente já demonstrou ser a mais privilegiada do governo. A maioria dos postos de primeiro escalão é ocupada por representantes tradicionais do regime americano, em particular pelos conhecidos “falcões”, como Marco Rubio e Elise Stefanik. São os funcionários do complexo militar-industrial que domina o Estado desde que ele se tornou imperialista.


Porém, o complexo militar-industrial não tem mais a mesma hegemonia de outrora. Elon Musk e Peter Thiel chegaram para competir com ele. As novas empresas de tecnologia do Vale do Silício querem também uma fatia da indústria bélica dos Estados Unidos. E elas têm se apresentado como sendo muito mais leais a Trump do que o velho complexo militar-industrial, que vê com preocupação as movimentações do novo presidente para trocar peças-chave do comando das forças armadas e das agências de inteligência por homens de confiança – possivelmente do próprio MAGA. Seu maior medo é que Trump politize esses órgãos de segurança, abrindo as suas portas para as massas plebeias do trumpismo.


De fato, o complexo militar-industrial tentou impedir a vitória de Trump. Mas como não conseguiu, está tendo de se adequar aos novos tempos, enquanto busca acordos para preservar e, quem sabe, fortalecer o seu poder. Mark Zuckerberg, que sempre proporcionou os serviços de suas companhias para as agências de inteligência civil e militar, poderia ter se aproximado de Trump para recuperar o que perdeu de seu concorrente Musk, mas também para fazer uma ponte entre o complexo militar-industrial e o presidente. Ele deu um giro de 180º nos últimos meses, passando de um apoio notório aos democratas para uma bajulação exagerada de Trump.


Não é que Trump esteja realizando uma grande transformação do regime. Joe Biden já havia introduzido as Big Techs à indústria bélica. Também vinha adotando políticas claramente protecionistas e industriais. Mesmo na área dos direitos humanos – a grande carta demagógica dos democratas – o governo Biden já estava preparando o terreno para o trumpismo se assentar, implementando uma política migratória mais dura.


Entretanto, este primeiro momento do novo governo Trump parece conseguir unificar diferentes e contraditórios setores capitalistas. Além da Meta de Zuckerberg, Apple e Amazon também passaram para o lado do republicano, após financiarem a campanha democrata. Goldman Sachs, Bank of America, GM, Ford e AT&T também bancaram sua cerimônia de posse. Muitos bancos, os criadores e mantenedores do ambientalismo, agora estão migrando para as políticas climáticas de Trump. Ele foi muito aplaudido em Davos.


As diferentes camadas da ala empresarial e financeira têm muito mais em comum do que os trumpistas da ala plebeia imaginam. E elas estão se unindo precisamente para evitar que a turba de Steve Bannon tenha qualquer controle sobre as áreas estratégicas do regime. É claro que Trump sabe que o salário mínimo não aumenta há 15 anos e que precisa apresentar algo de positivo aos 40% de sindicalistas e à classe média empobrecida que votaram nele. A caça aos imigrantes mostra isso, bem como os cortes nas políticas identitárias. Mas não há a menor sombra de dúvida de que vai governar para os capitalistas.


Devido à contradição de interesses entre os distintos setores e alas que compõem a sua base de apoio, Trump também adota medidas que contradizem a vontade de cada uma delas. O grande capital não se interessa por uma deportação em massa, pois precisa de um excedente de mão de obra para baixar os custos e elevar seus lucros. Ele e o chamado “Deep State” também não gostaram do congelamento no financiamento às instituições internacionais pretensamente humanitárias, pois são um instrumento de infiltração e desestabilização de governos estrangeiros. Já à base plebeia do trumpismo não interessa a promessa de cortes de até 30% nos gastos governamentais, pois isso afetará serviços essenciais à população, que já são extremamente precários.


Por outro lado, as ameaças contra meio mundo – inclusive militares e anexionistas – indicam um caminho extremamente perigoso. E o perigo reside na possibilidade de que esse apoio crescente que Trump vem recebendo, tanto da classe dominante dos EUA quanto da internacional, propicie a ele um poder comparável ou ainda maior do que o de George Bush Jr. para submeter nações pela força. Não pode haver dúvida de que as riquezas, recursos e mercados internacionais interessam tanto ao tradicional complexo militar-industrial quanto aos novos monopólios da tecnologia. Trump, que foi o presidente mais pacífico dos EUA em seu primeiro mandato, pode agora ser o mais guerreiro.


Eduardo Vasco é jornalista e colabora com o TODA PALAVRA. Foi correspondente de guerra na Ucrânia, cobrindo o conflito do lado russo

 
 
 

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