BRICS, a base de um novo tipo de relações internacionais
- Da Redação
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Por Svetlana Khristoforova, da TV BRICS
O BRICS foi criado como uma associação econômica, focada em questões de segurança e de desenvolvimento. No entanto, hoje, para uma interação eficaz, os países precisam repensar e construir um novo sistema de coordenadas sociohumanitárias.
Cooperação cultural no BRICS
A primeira questão levantada pelos pesquisadores ao analisar a cooperação intercultural no BRICS é a disparidade de interesses e valores. Isso não se refere apenas aos objetivos comuns dos países do Sul Global atualmente, mas ao fundamento cultural e civilizacional historicamente estabelecido. No entanto, essa diversidade é mais uma vantagem do que uma desvantagem. Afinal, quanto maiores as
diferenças culturais entre os países-membros, maior o interesse mútuo. Formam-se, desse modo, o que os estudiosos chamam de "símbolos de simpatia complementar". Esse fenômeno resulta na criação de programas culturais abrangentes, no intercâmbio de visitas de figuras culturais e artísticas, grupos folclóricos, escritores, estudantes e professores. Nesse sentido, arte e educação constroem pontes entre as civilizações. Já em 2015, os governos estabeleceram como meta o fortalecimento da dimensão cultural do BRICS, com a organização de encontros entre ministros da Cultura e o desenvolvimento do turismo. Desde então, a geografia do grupo cresceu consideravelmente, assim como as dimensões do diálogo intercultural no BRICS.

Enquanto isso, o fato de haver um desenvolvido diálogo intercultural e civilizacional dentro da associação originalmente econômica é considerado por especialistas um fenômeno único e até digno de ser replicado.
"O diálogo cultural é o que diferencia o BRICS de todas as outras associações, como a Organização para Cooperação de Xangai [OCX], a Associação de Nações do Sudeste Asiático [ASEAN] e o G20. A cultura é o que une os povos por séculos. Não apenas os povos, mas também os países e até os continentes. Assumo a responsabilidade de afirmar que o diálogo cultural na forma como é conduzido no BRICS é um modelo exemplar de como esse tipo de diálogo deve ocorrer no nível da comunicação internacional", afirmou Nikolai Parkhitko, doutro em Ciências Históricas e Professor Associado do Departamento de Teoria e História do Jornalismo da Universidade RUDN, em uma entrevista exclusiva à TV BRICS.
Diálogo intercultural como base para um mundo multipolar
A estratégia de desenvolvimento da diplomacia popular é, sem dúvida, uma das mais bem-sucedidas até hoje. Por exemplo, em uma entrevista exclusiva à TV BRICS, o vice-decano da Faculdade de Processos Globais da Universidade Estatal de Moscou, Ruslan Grebnev, destaca que a cultura, a educação e a diplomacia são elementos-chave na formação do campo de valores e normas do BRICS, compensando sua diversidade inicial. Além disso, por meio da cooperação humanitária, criam-se vínculos sociais duradouros, confiança mútua e significados que, na realidade, fortalecem a legitimidade das decisões da união intergovernamental.

"Essa cooperação contribui para consolidar o grupo como um ator de uma ordem mundial policêntrica. Assim, cultura, educação e diplomacia elevam a interação entre nossos países do nível de interesses para o nível da identidade do BRICS, garantindo a sustentabilidade a longo prazo do grupo", disse Ruslan Grebnev.
Contexto histórico e fatos interessantes
Um fato interessante é que, segundo politólogos, a cooperação humanitária do BRICS se desenvolve em um contexto histórico bastante peculiar. Na maioria das vezes, todos os países-membros, com exceção de incidentes locais e episódicos, não tiveram grandes contradições ao longo da história.
"Podemos observar a interação entre nossas culturas. Hoje, as relações estratégicas entre a Rússia e a China estão atingindo um nível sem precedentes. O mesmo se pode afirmar sobre a Rússia com o Irã, o Egito, a Etiópia ou a Indonésia", disse Nikolai Parchitko, em entrevista exclusiva à TV BRICS.
Ou seja, o BRICS, atualmente, tem uma oportunidade histórica única de construir relações que favoreçam a criação de um ambiente de confiança, inclusive por meio das instituições de "soft power" e diplomacia popular.
Instituições de "soft power"
O BRICS se fundamenta nos princípios da multipolaridade, respeito à soberania estatal, aos interesses nacionais, ao consenso e à ausência de qualquer forma de discriminação. Essencialmente, esses são os pilares do "soft power", que se manifesta não apenas por meio de eventos específicos do BRICS, mas também por meio de instituições inteiras. Um exemplo disso é o Fórum Internacional Cultural e Humanitário "Sobre o Futuro", no qual os ministérios da cultura dos países-membros participam. A missão do fórum é criar um ambiente cultural baseado em valores humanos universais. Outro exemplo é o Fórum Internacional dos Municípios do BRICS, que é um grande evento com questões como o desenvolvimento do turismo, soluções arquitetônicas e a criação de territórios "acolhedores". Em setembro de 2025, o segundo fórum BRICS sobre "Valores Tradicionais" foi realizado no Brasil, reunindo parlamentares, representantes do setor empresarial, da cultura e de organizações sociais de todos os países-membros. A lista pode ser complementada pela Cúpula da Juventude do BRICS: uma série de eventos destinados a jovens líderes, inovadores e empreendedores dos países do BRICS.
Especialistas acreditam que esses formatos são a base de uma integração profunda, reduzem os riscos de conflitos e fortalecem a identidade coletiva do BRICS.
Língua da cultura
Para fortalecer os laços dentro da união, frequentemente se recorre à única língua no mundo que, segundo consenso geral, não necessita de tradução: a língua da arte. Em setembro de 2025, Moscou sediou pela oitava vez o Festival Internacional das Escolas de Teatro dos Países do BRICS. Esse evento ficou conhecido como a primeira plataforma inovadora de intercâmbio cultural entre universidades de teatro de diferentes países, no campo das artes dramáticas e da diplomacia pública.
Desde 2016, o Festival de Cinema do BRICS também serve como plataforma para promover intercâmbios culturais. Anualmente, o festival é realizado pelo país que assume a presidência no grupo, e sua programação inclui filmes dos países participantes.
Além disso, em várias partes do mundo, ocorrem exposições relacionadas ao BRICS. Em 2024, os Museus da Rússia realizaram uma exposição conjunta sobre a China, exibindo coleções chinesas dos museus russos. Na Casa Russa na Itália, foi inaugurada, dois anos atrás, uma exposição de arte intitulada "Rússia e BRICS na Dimensão Cultural: A Nova Arte do Novo Mundo". O evento foi organizado com a participação das missões diplomáticas dos países do BRICS.
O intercâmbio cultural constante também ocorre no nível das competições esportivas. O principal projeto esportivo do BRICS, os Jogos Esportivos dos Países do BRICS, incluiu, ao longo dos anos, esportes nacionais e tradicionais, como a capoeira brasileira, o jogo de equipe ancestral indiano kabaddi e o wushu chinês.
Educação e ciência
A cooperação internacional na área de ciência abrange aspectos como a popularização da ciência, o aumento da alfabetização científica da população e o incentivo à atividade científica entre jovens talentos. Esses esforços culminaram no Fórum de Popularizadores da Ciência dos Países do BRICS, que visa o intercâmbio de experiências. Na Índia e na China, por exemplo, a popularização da ciência é apoiada pelo Estado. Na Rússia, existem diversos formatos, como palestras científicas, festivais e expedições. Assim, os especialistas afirmam que, apesar de alguns desafios, a cooperação científico-tecnológica, como parte da diplomacia humanitária, possui grande potencial. As principais áreas de interação incluem o monitoramento e a prevenção de desastres naturais, a gestão dos recursos hídricos, a energia renovável, o desenvolvimento da geomática (tecnologias geoespaciais) e a astronomia.
Considerando que a educação é uma das áreas mais promissoras para a expansão da interação entre os países do BRICS, em 2013, a delegação russa propôs a criação da Universidade de Rede do BRICS, uma rede de instituições de ensino superior dos países-membros. Com base nessa união, são organizados programas educacionais e de pesquisa, promove-se a mobilidade acadêmica e, naturalmente, ocorre um contínuo intercâmbio cultural.
"Quanto aos projetos conjuntos na área de educação, a tarefa da Rede de Universidades do BRICS também é a de nos conhecermos melhor. Para que na África do Sul saibam sobre o Brasil, no Brasil saibam sobre a China, na China saibam sobre a Rússia, na Rússia saibam sobre a Índia, e assim por diante. Isso é, na verdade, uma ferramenta de implementação que nos permite aproximar nossas posições, nos conhecer melhor e nos desenvolver", explicou Nikolai Partchitko.
No entanto, além da integração cultural, a missão da Rede de Universidades do BRICS é formar uma nova geração de profissionais altamente qualificados e motivados, com habilidades de pensamento crítico, capazes de implementar inovações e combinar conhecimentos tradicionais com ciência e tecnologia moderna. O vice-decano da Faculdade de Processos Globais da Universidade Estatal de Moscou (MGU), Ruslan Grebnev, acredita que, nesse caso, trata-se da formação do capital social do BRICS.
"Esse capital consiste em redes transnacionais de futuras elites, profissionais e líderes sociais, que, no futuro, devem se tornar 'embaixadores' do BRICS, promotores da política e dos valores da união", ressaltou ele.
Cultura e turismo
Os países do BRICS estão promovendo a cooperação cultural entre suas cidades. A ideia de criar uma rede de municípios que se tornariam centros de turismo, gastronomia e criatividade surgiu em 2018. No entanto, a parceria das cidades culturais do BRICS foi além dessa iniciativa, evoluindo para uma associação de cidades que facilita o intercâmbio de experiências na administração municipal, com foco no fortalecimento dos laços entre as cidades e regiões dos países-membros e parceiros do BRICS.
Em 2025, o Fórum Internacional dos Municípios do BRICS, realizado em São Petersburgo, reuniu mais de 5 mil participantes de 100 países para discutir o conceito de futuro. A principal discussão girou em torno da criação de um ambiente confortável e ecológico, além do desenvolvimento de cidades inteligentes. Os criadores dos projetos se inspiraram na experiência de países, como a China, e na ideia da "cidade de 15 minutos", onde tudo está ao alcance. No entanto, os diálogos dentro desses fóruns e iniciativas vão muito além da urbanística. O aprofundamento das relações também ocorre nas áreas da indústria automobilística, investimentos, saúde, educação e, claro, turismo e cultura.
Relações interculturais: desafios e perspectivas
O principal desafio para o desenvolvimento do diálogo intercultural no BRICS, segundo especialistas, é a diversidade cultural. Apesar do interesse mútuo, esse fator, combinado com as barreiras linguísticas, frequentemente dificulta a compreensão entre os representantes dos países membros. Isso ocorre porque os países do BRICS são gigantescas civilizações autênticas, com valores, histórias e visões de mundo distintas. Portanto, encontrar pontos em comum e unificar as abordagens ao diálogo exige grandes esforços, especialmente quando questões envolvendo dez países são discutidas simultaneamente. As diferenças linguísticas exigem traduções cuidadosas, e nunca se pode excluir a possibilidade de distorções de significados e mal-entendidos.
"A principal dificuldade do diálogo em um contexto de tensões histórico-políticas é a necessidade de superar simultaneamente dois obstáculos: as imagens profundamente enraizadas do passado e a atual competição geopolítica. Isso exige das partes um equilíbrio delicado entre posições fundamentais e a busca pragmática por consenso. O sucesso do diálogo depende não tanto de procedimentos formais, mas da capacidade dos atores de fazer uma autoavaliação objetiva e criar novos marcos de interação", afirma Ruslan Grebnev.
O sucesso com que os países membros do BRICS lidarem com essa tarefa determinará, em última instância, o futuro da própria ideia de criar um sistema sustentável de relações internacionais, baseado não na força, mas no respeito mútuo e no conhecimento. Especialistas concordam que o próprio fórum do BRICS, com suas abordagens, é essencialmente um laboratório onde, neste momento, estão sendo formulados os primeiros princípios de coexistência de mundos dentro de um sistema global único.






