Ciência e arte juntas em exposição sobre sífilis no Rio

A sífilis, que há mais de 500 anos circula entre os humanos, não é uma moléstia do passado. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), são mais de 7 milhões de casos por ano no mundo. No Brasil não é diferente. De 2010 a 2020, foram registrados 783 mil casos de sífilis adquirida no país, indicando que a doença não está controlada. Por conta disso, uma exposição em cartaz até 20 de fevereiro no Paço Imperial, Centro do Rio, remonta a história da sífilis, unindo informações científicas e arte com o intuito de atrair a atenção do público para a necessidade de prevenção.

'Herança', do pintor holandês Edvard Munch, retrata o drama da sífilis congênita / Reprodução

A mostra ‘Sífilis: História, Ciência, Arte’ tem o objetivo de difundir conhecimento sobre a doença pelo viés da educação em saúde. Idealizada pelo Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis, da Secretaria de Vigilância em Saúde, a exposição foi desenhada em parceria com o Centro Cultural do Ministério da Saúde, com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), Universidade Federal Fluminense, Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e Sociedade Brasileira de DST.


O médico especialista em DST (IST) e professor titular chefe do Setor de DST da Universidade Federal Fluminense (FF), Mauro Romero, é o curador emérito da exposição.


"Essa talvez seja a primeira iniciativa no mundo que usa a arte para difundir conhecimento sobre a sífilis. Acredito que a mostra será um marco para a conscientização da população, profissionais de saúde e gestores no Brasil", afirma ele.

Divulgação

Desde que foi inaugurada, em dezembro, a mostra tem recebido um público variado. Alunos, grupos de escolas, professores, grávidas, profissionais e estudantes da área de saúde foram os primeiros. Com as férias, a maioria dos visitantes passou a ser de turistas, de outros estados e estrangeiros. Romero explica que no período de festas de fim de ano, o número de visitantes diminuiu, mas voltou a crescer em janeiro, registrando uma média de 90 pessoas por dia. O recorde foi em 4 de janeiro, com 140 visitantes.


O formato inédito — com muitas ilustrações em painéis e obras de pintores que retrataram os efeitos da doença no passado — é o grande diferencial. Uma das pinturas que mais chamam atenção é do artista holandês Edvard Munch, conhecido do grande público pela obra "O Grito". Em 'Herança', pintado em 1906, Munch mostra o flagelo da sífilis congênita, que segundo o professor Mauro Romero, é a forma mais danosa da doença.


Transmitida de mãe para filho durante a gravidez ou amamentação, pode causar complicações no parto e levar ao óbito do bebê. O recém-nascido pode apresentar sintomas que incluem baixo peso ou dificuldade de ganhar peso, sequelas neurológicas, inflamação articular, dores nos ossos, perda visual, audição reduzida ou surdez, entre outros. A doença comumente é responsável por abortos espontâneos, prematuridade e óbito neonatal.

“É possível eliminar por completo a sífilis congênita no Brasil”, afirma Romero. "O controle da sífilis adquirida é mais difícil porque as pessoas infectadas circulam por diferentes locais ou migram. No caso da sífilis congênita, o diagnóstico pode ser feito de forma bem mais simples, já que a gestante passa pelo pré-natal", completa.


O professor, que há mais de 40 anos se dedica aos estudos de DST, ressalta que se a mãe for diagnosticada e medicada com antibiótico (penicilina) até a 36ª semana da gestação, a transmissão para o bebê poderá ser evitada. No entanto, muitas mulheres que não realizam o pré-natal de forma adequada só descobrem a doença quando já é tarde para iniciar o tratamento, o que acarreta alto risco para os recém-nascidos.


No ano passado foram 22.065 casos de sífilis congênita registrados no Brasil, com 186 óbitos. E 56,4% das crianças infectadas vieram de mães com idade entre 20 e 29 anos. A falta de informação é um dos maiores inimigos da doença no Brasil e a exposição no Paço Imperial, conforme explica Romero, foi concebida justamente para levar mais conhecimento ao público, especialmente aos mais jovens, sobre as formas de infecção, sintomas e prevenção.


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No dia 27 de janeiro, Romero se unirá a outros especialistas nacionais e estrangeiros para um evento virtual, a edição 2021 do 'Sífilis in Rio' — realizado pela Sociedade Brasileira de DST em parceria com várias instituições — que irá debater o avanço da doença, as políticas públicas de combate e prevenção e as formas de alertar governos e população para a gravidade dos efeitos desta que é conhecida como 'a grande imitadora', por apresentar manifestações clínicas variadas, 'imitando' outras patologias e dificultando o diagnóstico.


Serviço


Exposição “Sífilis: História, Ciência, Arte”

Em cartaz até 20 de fevereiro de 2022

Centro Cultural do Patrimônio – Paço Imperial (CCPPI)

Praça XV de Novembro 48, 2º andar, Centro, Rio de Janeiro

Visitação: de quarta-feira a domingo, das 12h às 17h

Entrada franca





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