CULPADA
- Da Redação

- há 37 minutos
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Por Mauro Romero Leal Passos

Adriana, 33, acaricia a barriga. Ao mesmo tempo, olha, no celular, fotos com o namorado. Está tão feliz que nem repara a tensão do ambiente.
A recepção do posto de saúde está cheia de pessoas infelizes: algumas entediadas, impacientes, outras visivelmente irritadas com a demora.
A sala agora está mais vazia. Chegou a sua vez. Levanta-se com dificuldade, mostra a sua Caderneta para a atendente, visivelmente sobrecarregada e distraída, que atende mecanicamente.
– Oi, boa tarde... Sabe se os meus exames já estão prontos?
A profissional, sem olhar nos olhos de Adriana, responde:
– Vou estar verificando.
No Hospital Nossa Senhora da Boa Esperança a enfermeira Luísa, folheando o prontuário de Adriana, faz uma ligação, tensa, mas profissional.
Na universidade, a porta da sala de aula bate. Acabou a aula. A sala está vazia.
O dr. Ramiro, professor universitário, vai desligar o projetor, que projeta no quadro imagens de Girolamo Fracastoro e a pintura “A Herança”, de Edvard Munch.
Um toque de celular interrompe o silêncio. É Luísa.
– Boa tarde, doutor. Tudo bem com o senhor? É sobre o caso que falamos. A mãe chegou nessa madrugada.
O dr. Ramiro diz:
– Está bem. Posso conversar com ela ainda hoje?
– Claro.
Do lado de fora do carro, o dr. Ramiro faz uma ligação.
– Tudo certo? Vamos entrevistar a mãe do caso que comentei. Já passo aí.
O dr. Ramiro caminha com duas jovens gêmeas estudantes, Phamela e Catharina. Cruzam um corredor do hospital até encontrar a enfermeira Luísa.
Luísa cumprimenta o dr. Ramiro:
– Oi, doutor, boa tarde. A paciente já está aguardando vocês. Podem me acompanhar, por favor.
Adriana está sentada, atônita, mecanicamente “rolando a tela do celular”. A enfermeira chama seu nome delicadamente algumas vezes.
A enfermeira Luísa, baixinho, repetindo o nome com gentileza:
– Adriana... Adriaana?
Adriana levanta os olhos, devagar. Luísa se aproxima guiando o grupo.
O dr. Ramiro, suavemente, diz:
– Boa tarde, Adriana. Eu sou o doutor Ramiro, professor da Universidade Federal Fluminense. Estou estudando casos como o que você passou.
O dr. Ramiro continua:
– Essas são Phamela e Catharina, alunas de medicina. A gente pode conversar?
Adriana hesita:
– Podemos.
– Obrigado por aceitar. É importante dizer que tudo o que nós conversarmos ficará somente no âmbito da saúde pública. E você jamais será identificada.
Adriana gesticula, concordando novamente.
– Você fez pré-natal?
– Sim.
– Pode me mostrar a Caderneta?
Adriana abre uma bolsa que estava na cadeira ao lado e entrega a Caderneta ao dr. Ramiro. Ele agradece e começa a analisar, já mostrando para as alunas. Eles se entreolham e ficam em silêncio por um momento.
O dr. Ramiro, com a caderneta na mão, então diz:
– Vejo aqui que um exame deu positivo em um mês e o tratamento foi bem depois. Alguém do posto te chamou?
– Não... só soube quando fui lá perguntar. Já fazia meses. Fiquei preocupada. Sentia umas pontadas.
– Mas você recebeu medicação nesse dia?
– Não. No posto não tinha injeção. Pediram para voltar em outro dia. Isso tem mais ou menos três semanas.
O dr. Ramiro troca olhares com as alunas, que reagem com espanto contido.
– A senhora sabe se o seu parceiro sexual teve algum problema?
– Soube que ele teve um probleminha. Que no posto recebeu injeção, mas ele não me explicou nada. Soube por uma amiga. Nos separamos pouco depois que engravidei.
– Entendo. E como a senhora veio parar nesse hospital?
– Antes de ontem senti algo estranho na barriga (ela passa as duas mãos da barriga)... Fui no posto, escutaram o bebê. Na verdade, eu não escutei bem, não... O barulho que ouvi era diferente. Mas a enfermeira falou que estava bem. Que a cabeça estava no lugar certo e passou remédio para cólicas. Eu não tinha cólicas. Tinha um aperto na barriga (passa as mãos na barriga de novo). Um aperto... Parecia que tinha coisa errada com o bebê. A sensação não passava. Fiquei preocupada e ontem faltei o serviço. Aí, fui para o hospital lá perto de casa… Foi aí que me falaram que minha filha tinha morrido dentro de mim.
A acadêmica Phamela entra na conversa:
– A senhora recebeu algum auxílio no hospital?
– Me disseram que não tinha vaga. E me mandaram pra outro hospital.
O dr. Ramiro dispara:
– Te levaram de ambulância?
– Não, fui sozinha. Quando cheguei lá no outro hospital e mostrei o papel, a moça da portaria logo disse que não tinha vaga.
Catharina pergunta:
– E o que a senhora fez depois?
– Vim pra cá, sozinha, de novo. Aqui esperei. Um médico, sabendo da situação, olhou dentro do meu coração, me atendeu. Mandou me internar. Botaram soro. E me disseram que eu ainda ia ter que parir. De madrugada... minha filha nasceu. Nasceu morta. De bunda e morta. Lá no posto disseram que estava encaixada de cabeça, não estava. Doeu demais... pra sair. – Pausou.
O silêncio é cheio de respeito. O rosto do dr. Ramiro é grave. Semblante de quem segura forte para nada sair de seus olhos. Consegue. Ele se senta cuidadosamente ao lado de Adriana.
– Você poderia nos dizer como está se sentindo?
– Culpada. Muito culpada.
Lágrimas se formam nos olhos de Adriana, e o dr. Ramiro tira do bolso da calça um lenço e entrega para ela. Adriana aceita, seca o rosto e segura o lenço com a mão.
– A senhora saberia dizer o motivo que deram para a perda do seu bebê?
Adriana passa a mão no ventre e com a voz embargada diz: – Infecção. – Suspira. – Eu passei para ela.
Na sala de aula o dr. Ramiro encara a imagem projetada do quadro “A Herança”, de Munch. Os olhares da turma acompanham a imagem com atenção e, até, com sensação de tristeza.
– Essa obra data do século XIX e mostra uma fatalidade da sífilis congênita. Mais de cem anos depois... e ainda estamos aqui combatendo o mesmo agravo.
O dr. Ramiro troca o slide. Aparece a gravura de Fracastoro, médico veronês do século XVI.
– Mas a gente consegue ir a um passado ainda mais remoto… 500 anos atrás. Fracastoro descreveu a sífilis pela primeira vez em 1530. Agora vou contar a história de uma paciente do século XXI, precisamente da semana passada...
A mente do dr. Ramiro volta ao momento em que segura a Caderneta da Gestante de Adriana, vendo detalhes que exibem na maior parte dos campos AGUARDANDO EXAMES.
Ele suspira. Olha para a turma.
– Tarde demais. Se o protocolo correto tivesse sido respeitado, poderia ter salvado aquela criança. Mas ninguém ofereceu. Ninguém perguntou. Ninguém olhou.
Um estudante com certo medo pergunta:
– Professor... ela não fez o pré-natal?
O dr. Ramiro hesita, respira profundamente e responde: – Ela tentou. Fez o que a gente pede, voltou ao posto assim que soube que o parceiro estava tratando uma DST. O teste deu positivo, mas não tinha penicilina. O tratamento veio tarde... e incompleto. Classificaram como sífilis primária só porque era a primeira vez que o exame dava positivo, um erro grave. Depois foi sendo encaminhada de hospital para hospital. Ela disse que teve medo, que sentia que algo estava errado com a bebê, mas ninguém escutou. Quantos casos como este vocês acham que acontecem todo ano?
O dr. Ramiro olha o relógio. – Bem, turma, retomamos a matéria semana que vem.
A turma começa a se dispersar. O dr. Ramiro vai desligar o projetor, que ainda exibe no quadro a imagem de Fracastoro, quando uma estudante se aproxima.
– Professor... desculpe perguntar, mas... como o senhor lida com isso?
Ele abre um sorriso fechado, cansado. Tira os óculos.
– Alguns dias... a gente só segue. Mas outros dias, a gente ensina. Com a esperança de que vocês escutem e não cometam erros tão grosseiros. De achar que um caso é apenas só mais um caso. De se iludir que não devemos ter pesar pelo sofrimento dos pacientes.
A aluna assente, tocada, e deixa a sala de aula.
O dr. Ramiro permanece sozinho. Ele olha para a imagem de Fracastoro mais uma vez e desliga o projetor. A tela apaga. Os olhos marejam.
Certa ocasião, ouviu-se conversa de médicos em um restaurante na qual um deles de forma enfática dizia:
– No Brasil, em 2024, foram registradas em Boletins do Ministério da Saúde 2010 notificações de abortos/natimortos e 188 de óbitos por sífilis congênita. Qual calamidade, qual queda de avião, qual invasão de policiais em comunidades de baixa renda para prender milicianos ou traficantes mata mais a cada ano por décadas?
Mauro Romero Leal Passos é médico, professor titular chefe do Setor de DST, Universidade Federal Fluminense










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