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EUA retiram acusação de que Maduro chefiava cartel de drogas


Donald de Trump, presidente dos EUA (D), ao lado do diretor da CIA, John Ratcliffe (Reprodução/Instagram)
Donald de Trump, presidente dos EUA (D), ao lado do diretor da CIA, John Ratcliffe (Reprodução/Instagram)

A acusação de que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, sequestrado pelos Estados Unidos (EUA) no dia 3 de janeiro, liderava um cartel de drogas chamado “Cartel de los Soles” foi admitida como irreal pelo Departamento de Justiça do governo de Donald Trump. A atualização sobre o caso foi noticiada pelo jornal estadunidense The New York Times nesta segunda-feira (5).


O recuo na narrativa que compõe o conjunto de supostas justificativas para os EUA invadirem a Venezuela aconteceu após especialistas em crime e narcotráfico na América Latina afirmarem que o termo é, na verdade, “uma expressão inventada pela mídia venezuelana nos anos 1990 para se referir a autoridades corrompidas por propina vinda do comércio de drogas”.


Com o sequestro de Maduro, Delcy Rodríguez assumiu o cargo de presidenta interina da Venezuela nesta segunda-feira (5).


Ao longo de 2025, os Estados Unidos alegaram reiteradas vezes que o “Cartel de Los Soles” seria uma organização narcotraficante liderada por Maduro e usaram a suposição para justificar as ameaças ao país e os ataques contra embarcações na costa venezuelana.


Segundo a reportagem, a divulgação do novo indiciamento de Maduro afirma que o termo se refere a um “sistema de clientelismo” e a uma “cultura de corrupção” alimentados por recursos do narcotráfico. Os promotores mantiveram a acusação de que Maduro participou de uma suposta conspiração de tráfico de drogas.


Ao contrário da primeira versão que mencionava o “Cartel de los Soles” 32 vezes e apontava Maduro como seu líder, a nova versão traz apenas duas referências ao termo e afirma que ele, assim como seu antecessor, o ex-presidente Hugo Chávez, “participou, perpetuou e protegeu esse sistema de patronagem.”


“Os lucros do tráfico de drogas e a proteção a parceiros do narcotráfico fluem para funcionários civis, militares e de inteligência de baixo escalão que são corruptos, que operam em um sistema de patronagem comandado por aqueles no topo — referido como o “Cartel de los Soles”, uma referência às insígnias de sol afixadas nos uniformes de oficiais militares venezuelanos de alta patente”, afirma a nova acusação, segundo o jornal.


Para o professor do curso de Relações Internacionais e vice-diretor do Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (ICHS/UFRRJ), Luiz Felipe Osório, Trump utiliza a retórica do medo da criminalidade tentando vincular, sem base material ou prova, a relação de Maduro com os chamados carteis de drogas, seja o “Trem de Arágua” ou o “Cartel de los Soles”.


“Ainda assim, o direito nessas horas é o que menos importa. O que importa é a construção de uma narrativa que legitime essa ação ilegal e estapafúrdia que coloca o mundo inteiro em estado de alerta”, explica o professor.


De acordo com Osório, é com base no medo do aumento da violência que essa sensação é instrumentalizada pela direita e pela extrema direita para que se aumente a repressão dentro da sociedade. “Isso acontece tanto no plano interno, com a restrição de direitos, como no plano internacional, viabilizando intervenções externas.”


Diante disso, ele pondera que, com a retirada do discurso do “Cartel de los Soles”, a acusação é “volátil de sentido”. Ele complementa dizendo que a acusação não apenas é inconsistente, mas que ela vai mudando para ver se algum argumento consegue se sustentar.


Na análise do pesquisador, o que importa é a construção de uma narrativa que legitime a incriminação de Nicolás Maduro diante da justiça estadunidense e da sociedade.


“Essa acusação caminha entre a relação com o narcotráfico e, ao mesmo tempo, mescla uma acusação de má gestão de recursos públicos e de ação ditatorial dentro da Venezuela. Tentam implicá-lo pelo conjunto da obra. Isso não é novidade: houve um movimento semelhante contra o próprio Hugo Chávez nos anos 2000.”


O sequestro de Maduro pelos Estados Unidos viola o princípio do direito internacional da extraterritorialidade, que segundo Osório foi utilizada pelos grandes impérios para se imporem pelo globo, primeiramente das metrópoles perante as colônias e, depois da independência delas, como forma de as metrópoles manterem sua influência.


“O direito justifica isso apenas para situações muito excepcionais, e não pode ser utilizada para violar a soberania de um país e arrancar de lá o seu chefe de Estado. Isso é um desrespeito completo a qualquer regra básica de convivência do direito internacional”, ressalta.


A Organização das Nações Unidas (ONU) declarou, nesta terça-feira (6), que a operação dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou no sequestro e prisão de Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores, “violou um princípio fundamental do direito internacional“.


“Nenhum Estado deve ameaçar ou usar a força contra a integridade territorial ou a independência política de outro Estado”, afirmou a porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Ravina Shamdasani, durante uma coletiva de imprensa em Genebra, na Suíça.


De acordo com a reportagem do The New York Times perduram ainda contradições no governo, uma vez que o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio referiu-se novamente ao “Cartel de los Soles” como um cartel real em uma entrevista ao programa Meet the Press da NBC no domingo (4).


“Continuaremos a reservar o direito de realizar ataques contra barcos de drogas que trazem entorpecentes para os Estados Unidos, operados por organizações criminosas transnacionais, incluindo o ‘Cartel de los Soles'”, disse ele. “É claro que o líder deles, o líder desse cartel, está agora sob custódia dos EUA e enfrentando a justiça americana no Distrito Sul de Nova York. E esse é Nicolás Maduro.”


O Relatório Mundial sobre Drogas da ONU também nunca citou o cartel, assim como a Avaliação Nacional de Ameaça de Drogas, do Departamento de Repressão às Drogas (DEA), que detalha as principais organizações de tráfico, nunca mencionou o “Cartel de los Soles”, afirma o The New York Times.


Apesar da retificação quanto ao “Cartel de los Soles” ter sido bem recebida, especialistas ouvidos pelo jornal estadunidense apontam fragilidades em outros pontos do novo indiciamento. Entre elas, a inclusão do líder da facção prisional “Tren de Aragua” como suposto co-conspirador de Maduro.


A acusação baseia-se em evidências consideradas superficiais: registros de chamadas de 2019 em que o “líder da gangue” oferecia escolta para narcóticos a um interlocutor que acreditava ser um oficial do governo.


Embora a retórica do governo Trump sustente que Maduro comanda o grupo, a inteligência dos EUA e analistas como Jeremy McDermott, da InSight Crime, uma organização que estuda o crime organizado nas Américas, contestam essa visão, afirmando que a facção não possui estrutura para gerenciar grandes remessas de cocaína.


Terror contra as drogas

Nos anos 1980, a guerra contra as drogas foi lançada pelo governo republicano de Ronald Reagan e serviu de pretexto para a intervenção em vários países da América Latina, elucida o professor de relações internacionais Luiz Felipe Osório. “Cito aqui, especificamente, um caso muito semelhante ao ocorrido com o presidente Maduro, que ocorreu no Panamá em 1989, contra o então presidente Manuel Noriega. O Noriega também foi sequestrado e preso dentro do território panamenho sobre uma criação muito semelhante.”


Depois dos anos 2000, principalmente após os atentados às Torres Gêmeas, o terrorismo “veio aos holofotes e entrou na moda”, diz.


Nesse cenário, o conceito de narcoterrorismo serviu para intervenções que foram muito além da América Latina e ratificaram anos ou décadas de ocupação no Iraque e no Afeganistão, principalmente.


O que acontece agora é, de alguma maneira, uma junção e articulação desses dois conceitos: o terrorismo e o narcoterrorismo, este último como mais uma justificativa de intervenção nos territórios latino-americanos. “Apesar de isolacionista em relação à Europa e a outros cantos do globo, os Estados Unidos tendem a aumentar a intervir diretamente e não ser nada isolacionistas, mas, sim, muito intervencionistas naquilo que consideram seu ‘quintal’, que é a América Latina”, conclui o especialista.


Do Brasil de Fato

 
 
 
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