Milícia tem 'vista grossa' de Crivella e 'simpatia' de Bolsonaro


Cena do filme "Tropa de Elite 2" representando milicianos que, para as candidatas, cresceram à sombra de autridades

Estudo da Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos - organização composta por pesquisadores de sete universidades do Rio de Janeiro, entidades da sociedade civil, centros de pesquisa de entidades jurídicas e jornalistas - aponta para a articulação de milícias em Prefeituras, Câmaras de Vereadores e igrejas evangélicas pentecostais.

O trabalho corrobora com os dados de pesquisa da UFF, divulgados na última semana, que mostram a influência dos milicianos em 57,5% do território do município.

A articulação com igrejas evangélicas, segundo o levantamento, serviria não só para legitimar as milícias localmente, mas também para a lavagem de dinheiro das atividades ilícitas e proximidade com políticos.

Os pesquisadores concluíram que os milicianos também fundam associações de moradores para mobilizar a Defensoria Pública da União e assegurar o acesso de habitantes de comunidades ao programa Minha Casa Minha Vida.

O TODA PALAVRA buscou os principais concorrentes à Prefeitura do Rio de Janeiro para falar sobre o estudo. Após receberem duas perguntas objetivas, que foram encaminhadas através de suas respectivas assessorias na última segunda-feira (26), apenas as candidatas Martha Rocha (PDT) e Benedita da Silva (PT) responderam. Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos) não enviaram resposta.

As duas candidatas apontaram as responsabilidades de autoridades, como o atual e o ex-prefeito, Marcelo Crivella e Eduardo Paes, e o presidente Jair Bolsonaro na expansão dos grupos milicianos da cidade. Para Martha, a "vista grossa" de Crivella e Paes favoreceram o que ela chama de "milícia empreendedora", responsável pelo mercado da construção imobiliária irregular. Por sua vez, Benedita da Silva lembrou as manifestações de "simpatia" de Bolsonaro pela ação dos milicianos como estímulo ao crime.


O que o candidato tem a comentar sobre essa pesquisa?

MARTHA ROCHA: A pesquisa da UFF traduz em dados a realidade vivenciada diariamente por milhares de cariocas nos últimos anos sendo coagidos sob o domínio do medo. A milícia, além de ampliar a presença territorial, incrementou o poder econômico com o aumento de atividades em que atua. Com vistas grossas do atual e do ex-prefeito, esses grupos criminosos passaram também a controlar uma parcela expressiva do mercado imobiliário da construção irregular. É o que tenho chamado de milícia empreendedora.

Há registros de imagens do crescimento das invasões de milicianos na Muzema, desde 2014, na mesma área em que houve o desabamento que matou 24 pessoas em 2019. Ou seja, essas irregularidades letais começaram ainda no governo do ex-prefeito antes de ocorrerem as mortes já no mandato do atual. Milicianos erguem prédios sem qualquer obstáculo ou fiscalização da prefeitura em diversas comunidades, em áreas de preservação ambiental e até mesmo em terrenos invadidos principalmente na Zona Oeste da cidade. E, claramente, continuam investindo para eleger seus representantes políticos.


BENEDITA DA SILVA - O estudo da Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos aprofunda o conhecimento sobre algo que é percebido por toda a população, sobretudo da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

As milícias se expandiram territorialmente, na cidade do Rio já estão presentes em mais da metade do território, infiltradas em muitas instituições do Estado e da sociedade, nos legislativos municipais e estadual. Têm a simpatia até do presidente da República!

A investigação e desmonte dessas organizações criminosas é atribuição do governo do estado através da Polícia Civil. No entanto, administrações municipais sérias e comprometidas com o nosso povo podem oferecer uma grande contribuição ao enfraquecimento desses grupos. As milícias faturam através da combinação da intimidação violenta com a oferta de serviços ou bens como gás, internet, transportes, apartamentos, terrenos públicos invadidos, dentre outros.

Essa dominação tem sido possível, de um lado, pela inércia da segurança pública. De outro lado, a ausência do poder público municipal nas áreas populares da cidade tem permitido o crescimento dos serviços prestados pelas milícias, constituindo-se num verdadeiro poder paralelo nessas áreas.


Se o candidato tem alguma proposta nessa área, qual seria essa proposta?

MARTHA ROCHA - O combate a estas organizações criminosas deve ser prioridade de todos. Tenho mais de 30 anos de experiência na Polícia Civil e coragem para fazer esse enfrentamento de verdade. O município pode fazer sua parte, com apoio das forças policiais, para impedir a expansão destes empreendimentos imobiliários irregulares e, com isto, evitar a repetição de tragédias como a da Muzema, onde dois prédios da milícia desabaram matando 24 pessoas. Como a administração municipal tem uma maior capilaridade sobre a cidade, a prefeitura pode também contribuir com informações georreferenciadas e com fiscalização adequada para ajudar as forças policiais a impedirem o crescimento destes empreendimentos de organizações criminosas ainda no início.


BENEDITA DA SILVA: Como prefeita, irei mudar o eixo do desenvolvimento da cidade e das prioridades da prefeitura. Vamos ocupar esses bairros e comunidades com a oferta de uma multiplicidade de serviços, tais como limpeza urbana, iluminação, reforma das praças e áreas de lazer, melhorias habitacionais, limpeza de valões, creches, clínicas da família, mutirões remunerados, cooperativas, dentre outros.

As vans serão licitadas e as suas empresas ou cooperativas, investigadas. Temos um plano de internet popular de qualidade, com subsídios da prefeitura. Vamos fiscalizar com rigor as construções ilegais com ações conjugadas das Secretarias de Urbanismo e de Meio Ambiente, com o uso de tecnologias avançadas de análise de imagens aéreas de alta definição, processadas por computador.

Com essa postura, vamos gerar participação consciente da comunidade e ao mesmo tempo bloquear muitas das formas de arrecadação do crime organizado.

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