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Mulheres, mães e pesquisadoras: ciência sem preconceito de gênero


Waldeck Carneiro, Professor Titular da UFF


Recentemente, causou perplexidade e indignação um parecer do CNPq, que negou o pedido de bolsa feito por uma professora-pesquisadora da UFABC, embora o(a) parecerista reconhecesse mérito no projeto de pesquisa. Porém, a negativa se baseia no fato de que a postulante não vivenciara períodos de pesquisa no exterior devido às suas gestações, ou seja, para o(a) autor(a) do preconceituoso parecer, a maternidade “atrapalhou” a trajetória científica da docente daquela universidade federal situada no estado de São Paulo.


Antes de abordar o aspecto central deste artigo, a saber, o preconceito de gênero na ciência, quero me associar à professora Patrícia Valim (UFBA), que em artigo recente sobre o tema publicado na Folha de São Paulo, apoiada em análise da professora Débora Diniz (UNB), ressaltou a visão colonialista do parecer, velho complexo de vira-lata, segundo a qual ter feito estágio de pesquisa no exterior é condição sine qua non para obter apoio a um projeto de pesquisa.


Evidentemente, a cooperação e o intercâmbio acadêmico internacionais são muito desejáveis e costumam abrir caminhos promissores para quem deles participa. Mas só se pode vivenciar essas práticas morando no exterior? A publicação de artigos em revistas científicas internacionais e a participação em redes internacionais de pesquisa, hoje favorecida pelos avanços da tecnologia, não fazem parte do processo de internacionalização da ciência? Será mesmo que isso só pode acontecer quando o pesquisador está radicado por um período no exterior?


De mais a mais, o próprio CNPq, de onde emana o discriminatório parecer, como órgão de fomento à pesquisa, não garante recursos a todas as demandas de pesquisadores que se propõem a fazer doutorado ou pós-doutorado no exterior. Além disso, nem todos os pesquisadores dispõem de recursos próprios para fazê-lo, principalmente quando precisam levar seus filhos.


Isso nos permite voltar ao preconceito de gênero de que está eivado o desastroso parecer, quando trata a maternidade como um obstáculo, quase um estorvo, na vida das mulheres pesquisadoras. Afinal, segundo o(a) parecerista, as gestações - que pena! - “atrapalharam” a internacionalização da carreira científica da demandante.


Contudo, segundo consta no regramento para a concessão da famigerada bolsa de produtividade em pesquisa fixado pelo CNPq, as questões de gênero e maternidade serão consideradas, de forma “sensível”, no processo de disputa pelo fomento. Pelo visto, há pareceristas que não estão a par dos critérios do órgão para o qual atuam como colaboradores ad hoc.


Ademais, por esse viés preconceituoso aqui questionado, intui-se que cuidar da prole é “problema” de mulheres pesquisadoras, pois não se tem notícia de rejeição de pedidos de bolsa de pesquisa apresentados por homens, em decorrência de sua condição de pais.


De todo modo, em face dessa questão, fiquei refletindo sobre o meu percurso acadêmico e tentando dimensionar os prejuízos que teria sofrido, se algumas das minhas mestras no campo universitário não pudessem ter feito carreira na pesquisa e na pós-graduação, simplesmente por terem sido mães. Fixar-me-ei apenas nas vivências que pude experimentar na minha alma mater, a Faculdade de Educação da UFF.


Assim, indago: o que teria sido da minha formação, sem a abordagem crítica, insurreta e até mesmo iconoclasta da Didática, feita por Balina Bello Lima, Livre-Docente, orientadora de mestrado (inclusive minha) e mãe? Sigo perguntando: sem as reflexões filosóficas sobre educação e o foco investigativo nas políticas e práticas de formação de professores, marcas de Célia Linhares, orientadora de mestrado e doutorado, pesquisadora e mãe?


Mantenho o questionamento: sem o aprofundamento das pesquisas sobre currículo, cotidiano escolar e formação de professores, coordenadas por Nilda Alves, orientadora de mestrado e doutorado, pesquisadora e mãe? Continuo inquirindo: sem as investigações sobre formação de professoras alfabetizadoras e alfabetização de crianças das classes populares, conduzidas por Regina Leite Garcia, orientadora de mestrado e doutorado, pesquisadora e mãe? Permaneço interrogando: sem os estudos de educação comparada, trabalho e educação e educação na América Latina, elaborados por Maria Ciavatta, orientadora de mestrado e doutorado, pesquisadora e mãe? Adiciono a interpelação: sem os trabalhos sobre relações raciais e educação liderados por Iolanda de Oliveira, orientadora de mestrado e doutorado, pesquisadora e mãe?


Em breve, na data de 11 de fevereiro, celebraremos o Dia Mundial das Mulheres e Meninas na Ciência. É inadmissível que ainda se pratique, no campo científico ou onde quer que seja, menos ainda em pareceres de agências públicas de fomento à pesquisa, qualquer forma de preconceito, não apenas de gênero, como no caso em apreço, mas também racial, de orientação sexual, religioso, capacitista, etarista ou de procedência regional. Não será com abordagens preconceituosas que colocaremos a ciência e suas instituições no elevado lugar que precisam ocupar: como eixo estratégico de um projeto nacional de desenvolvimento democrático e soberano.


Afirma-se aqui, portanto, uma concepção de ciência que seja parceira da vida, na sua diversidade, complexidade e materialidade: como formulou Nietzsche, ainda no século XIX, uma “gaia ciência”.


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