'Por que os opressores temem Paulo Freire?' Por Waldeck Carneiro

Por Waldeck Carneiro*


No ano de 1963, coordenando uma equipe do Serviço de Extensão Cultural da Universidade de Recife, Paulo Freire alcançou a proeza de alfabetizar 300 cortadores de cana, no município de Angicos (RN), em 45 dias. Além da rapidez com que o trabalho se desenvolveu, chamou a atenção o fato de que se tratava de um processo de educação e de conscientização, ou seja, muito mais do que a apropriação da leitura e da escrita. Tal experiência teve tanta repercussão, que o próprio presidente João Goulart fez questão de comparecer à solenidade de encerramento, ocasião em que convidou Paulo Freire para desenvolvê-la em escala nacional. Surgia assim o Plano Nacional de Alfabetização (PNA), concebido por Freire e sua equipe no MEC, que se baseava na implantação de dezenas de milhares de círculos de cultura, espalhados pelo país, com foco na erradicação do analfabetismo a partir de processos de contextualização das condições de vida dos alfabetizandos.

Com lançamento oficial programado para o mês de maio de 1964, aquela política pública foi brutalmente interrompida, com o advento do golpe civil-militar de 1º de abril daquele ano. Em menos de 15 dias, a ditadura recém-instalada tratou de extinguir o PNA e declarar que seu idealizador era um traidor da Pátria a serviço do comunismo. Paulo Freire foi perseguido, preso e banido. No exílio, aprofundou sua reflexão filosófica e pedagógica, originalmente sistematizada no livro “Pedagogia do oprimido”, escrito no Chile entre os anos de 1967 e 1968. Seu banimento do Brasil também não o impediu de materializar suas ideias pedagógicas: atuou na América Latina, lecionou nos EUA, trabalhou na Suiça e desenvolveu projetos de educação popular na África.


Pouco mais de 50 anos depois do golpe de 1964, o Brasil conheceu nova ruptura democrática. Com efeito, a deposição da presidenta constitucional do Brasil em 2016 desencadeou uma sucessão de perseguições políticas, nítidos casos de lawfare, que levaram à prisão arbitrária do ex-presidente Lula e abriram caminho para a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro em 2018, sob circunstâncias controversas. Parlamentar inexpressivo, apoiador da ditadura e fã de torturadores, Bolsonaro faz um governo autoritário, reacionário e de orientação econômica ultraliberal. Nesse ambiente, mais uma vez Paulo Freire é alvo de perseguição ideológica, depreciação, calúnia, chegando mesmo a ser tratado pelo próprio presidente como “energúmeno”.


Afinal, por que os opressores temem tanto as ideias de Paulo Freire? Ora, ditadores, fascistas e déspotas costumam destilar ódio na relação com seus adversários. Freire, em vez do ódio, sempre defendeu uma concepção de educação lastreada em amorosidade. Os autoritários afirmam a violência e a intolerância em face dos que lhes contradizem. Freire, em vez da violência e da intolerância, enfatizou o diálogo como mediação do processo educativo e o respeito às diferenças como elemento central da educação emancipadora. Os totalitários sempre andam par e passo com a exclusão e o elitismo. Freire, ao contrário, afirmava a igualdade e a fraternidade como princípios indispensáveis à construção de um mundo justo e solidário. Os ditadores querem fazer crer que a história é uma fatalidade, sucessão de fatos lineares e inevitáveis. Freire, em oposição a tal concepção, entende a história, não como realidade instituída, mas como processualidade instituinte, forjada em conflitos, contradições, avanços, recuos, logo, suscetível a mudanças conjunturais e estruturais.

Freire sempre foi visto como ameaça aos que pretendem dominar pela força, pelo grito, pela intimidação

Enfim, por se dirigir prioritariamente aos “esfarrapados do mundo”, conclamando-os a se conscientizar, se organizar e lutar por seus direitos, mediados por uma educação entendida como “prática da liberdade”, Freire sempre foi visto como ameaça aos que pretendem dominar pela força, pelo grito, pela intimidação. Mais ainda porque Freire deixa claro que a liberdade é processo coletivo: “ninguém liberta ninguém; ninguém se liberta sozinho; os homens se libertam em comunhão”. Trata-se de chamamento para as lutas coletivas, o que se opõe frontalmente ao desejo dos opressores, que, para perpetuar sua dominação, preferem sujeitos alienados, desorganizados e aculturados na lógica da competitividade e do individualismo.


Por isso, é muito importante celebrar Paulo Freire em seu centenário de nascimento (19/09/1921-2021), mas, sobretudo, é fundamental manter seu pensamento, sua obra e seu legado em evidência. Não como um dogma ou um catecismo! Afinal, a melhor maneira de homenagear um autor não é idolatrá-lo ou segui-lo acriticamente, mas antes colocar suas ideias em discussão, levá-las em conta, não permitir que sejam condenadas ao banimento ou ao esquecimento.


Viva Paulo Reglus Neves Freire, pensador da humanidade e Patrono da Educação Brasileira!


*Waldeck Carneiro é Professor da UFF e Deputado Estadual (PT-RJ)

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