Um parque para os BRICS no Rio de Janeiro
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Lier Pires Ferreira,
PhD em Direito/UERJ. Professor de Sociologia do CP2. Pesquisador do NuBRICS/UFF
Ana Claudia Colombo,
Mestre em Biofísica/UFRJ. Professora de Biologia do CP2
O Rio de Janeiro pode ganhar um novo cartão-postal. Inspirado no Instituto Inhotim, o Parque dos BRICS poderá ser um polo de convergência entre geopolítica, cultura e lazer. Além de sediar esta
importante coalizão internacional1, originalmente formada por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, aos quais se juntaram Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes, Etiópia, Indonésia e Irã, a cidade ganhará um novo espaço de conexão do Sul Global.

Os estudos geopolíticos deverão ser a espinha dorsal deste parque. No imaginário social brasileiro, em grande parte construído pela mídia corporativa, os BRICS são frequentemente reduzidos a indicadores econômicos ou notícias de rodapé sobre a política internacional. O parque carioca poderá desconstruir essa visão reducionista. Ao passear pelo local, de modo físico ou virtual, o visitante conhecerá mais sobre estudos estratégicos, direito internacional, economia política, comércio global, cadeias logísticas e cooperação científica e tecnológica, além de aprofundar seus conhecimentos sobre estratégias de desenvolvimento e nova inserção internacional, bem como sobre o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o Banco dos BRICS.
No parque, “jovens de todas as idades” poderão vivenciar jogos geopolíticos e geoeconômicos imersivos, onde terão a oportunidade de experienciar como decisões políticas e econômicas afetam a vida de milhões de pessoas. Pesquisadores e acadêmicos também poderão desfrutar de um centro de documentação e de uma biblioteca especializada, pontos de convergência para estudos colaborativos sobre relações internacionais, economia e desenvolvimento. Ademais, o parque será um indutor do turismo e da economia criativa, articulando hotelaria, indústria e comércio, gerando trabalho e renda em favor da população em geral.
Se os estudos geopolíticos forem a espinha dorsal do parque, o conhecimento será seu idioma universal. Em Brumadinho/MG, o Instituto Inhotim integra arte e paisagismo em uma imensa área verde, com exposições de artistas brasileiros e estrangeiros. O Parque dos BRICS poderá ir além, propondo mostras interativas sobre a história, a natureza e os múltiplos saberes produzidos pelas diferentes sociedades. Além disso, abrigará uma “Praça de Sabores”, um centro de formação e experimentação gastronômica no qual a culinária do Sul Global estará em destaque, articulada a um calendário de feiras culturais, com moda, esporte, dança, teatro, cinema, literatura e artesanato.
O Parque dos BRICS também será um polo científico e um hub tecnológico capaz de articular universidades, centros de pesquisa, empresas e desenvolvedores autônomos em uma ampla rede de inteligência em favor do desenvolvimento socioambiental. Há muito sendo feito nos países BRICS. Considerando somente seus membros originários, temos, por exemplo, que o Brasil é referência em bioeconomia, biossegurança, energias renováveis e produção petrolífera em águas profundas e ultraprofundas, a Rússia é uma potência militar, científica e aeroespacial, a Índia é um polo global de tecnologias e inovação digital, ao passo que a China é uma gigante produtiva e inovacional e a África do Sul possui destaque em áreas sensíveis como astronomia, astrofísica e exploração mineral. Portanto, será bem-vindo um “Hub de Inovação dos BRICS”, no qual estudantes, empreendedores e investidores possam participar de palestras, mesas-redondas, workshops e hackathons para solucionar problemas como comércio digital, infraestrutura e inteligência artificial, avançando também para a criação de uma big tech do Sul Global, tal como proposto pela Carta de Niterói (2025).
A magnitude do Parque dos BRICS impõe desafios proporcionais. Sim, há custos econômicos e socioambientais para a construção e a manutenção de um tão complexo, e uma justa preocupação com a volatilidade política, pois mudanças de governo podem impactar a cooperação recíproca. Além disso, cabe perguntar: onde instalar o parque? Em uma perspectiva mais convencional, Barra da Tijuca e Jacarepaguá, na região Sudoeste, são candidatos naturais. Se a ideia for a “interiorização citadina”, Campo Grande, Santa Cruz e Realengo, na Zona Oeste, assumem a dianteira. Uma proposta mais “urbana”, que se afaste do modelo bucólico de Inhotim, poderá articular as zonas Central, Norte e Sul. Nesse modelo, o parque carioca não terá uma continuidade territorial, mas articulará a revitalização de prédios, galpões e armazéns - muitos situados no Porto Maravilha e adjacências - com equipamentos já existentes, como o Museu do Amanhã, o Maracanã e a Biblioteca Nacional, criando um “corredor do futuro-presente”, um parque sem limites e sem fronteiras; expansível, modular e flexível, que inclusive poderá agregar municípios vizinhos como Niterói e Maricá.
Considerando que os BRICS ainda são uma coalizão heterogênea de países e não uma organização internacional, como a ONU e o Mercosul, outra questão importante é o modelo de gestão. Um empreendimento desta monta dificilmente poderá ser suportado por um único investidor. Para superar esse obstáculo, propomos um modelo tão inovador quanto o parque: uma parceria público-privada (PPP) internacional, com governos e empresas dos países-membros garantindo a sustentabilidade financeira e a blindagem política necessárias. O parque, assim, não será um equipamento governamental, mas um instituto independente, posto sob uma governança plural e mantido por verbas públicas e privadas.
A sabedoria popular ensina que “sonhar não custa nada”. Se Inhotim é a celebração da arte, o Parque dos BRICS será a apoteose da multipolaridade. O Rio de Janeiro terá mais um elemento para sedimentar sua vocação de “cidade-global”, inteligente e criativa. Para o Brasil, o parque será uma nova expressão do seu protagonismo internacional, ao passo que, para os países BRICS, será uma oportunidade de criar identidades que ultrapassem o viés comercial e valorizem a diversidade. Lançada a ideia, resta transformar o sonho em realidade. Que possamos reunir braços, corações e mentes para construir, tijolo a tijolo, uma nova arena geocultural, com uma nova alma, mais carioca, urbi et orbi, em favor do Sul Global.
1 Para conhecer essa proposta até então inédita do Rio como sede dos BRICS, ver: GOMES, Eduardo; PIRES FERREIRA, Lier. Rio, capital permanente dos BRICS. Toda Palavra, Niterói/RJ, p. 3, abr. 2025.





