Uma 'bomba' de 3 trilhões de dólares pode derrotar os EUA
- 6 de mar.
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![Vista das instalações operacionais da QatarEnergy na Cidade Industrial de Mesaieed, ao sul de Doha, no Catar [Arquivo: Getty Images]](https://static.wixstatic.com/media/81382b_34dd4038f93d40c29c1665f650ee6bbf~mv2.jpg/v1/fill/w_770,h_513,al_c,q_85,enc_avif,quality_auto/81382b_34dd4038f93d40c29c1665f650ee6bbf~mv2.jpg)
Por Luiz Augusto Erthal
(Com informações de Al Mayadeen, Hipan TV, Al Jazeera, The Wall Street Journal e Financial Times)
Em entrevista à mídia norte-americana, o professor Jiang Xueqin, respeitado pelo acerto de suas previsões sobre questões geopolíticas, apresentou uma análise crítica sobre o iminente colapso da hegemonia dos Estados Unidos provocado pela guerra com o Irã. Ele argumenta que a fragilidade do sistema financeiro estadunidense e a obsolescência de sua estratégia militar podem levar ao fim do domínio global do país (assista parte da entrevista no vídeo abaixo).
A análise do pesquisador e teórico geopolítico sino-canadense radicado em Pequim se baseia fundamentalmente na estratégia do Irã em fechar o Estreito de Ormuz e bloquear tanto a prospecção quanto a circulação do petróleo no Golfo Pérsico, que representa pelo menos 20% da produção mundial. Segundo ele, a intenção do Irã é clara: colapsar a economia norte-americana através da escassez dos petrodólares, responsáveis, hoje, por exemplo, pelo financiamento dos investimentos dos Estados Unidos em inteligência artificial.
Não por acaso alguns dos alvos prediletos dos bombardeios iranianos permanentes, desde o início da guerra, sobre os aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico são as sedes da empresas de tecnologia norte-americanas. Jiang Xuegin explica que os petrodólares produzidos com a venda do petróleo pelos países aliados são reinvestidos no mercado financeiro dos Estados Unidos e servem de combustível para girar a economia e a própria roda do desenvolvimento tecnológico norte-americano. A paralização do mercado de petróleo no Golfo Pérsico e a consequente crise econômica dos Estados Unidos pode ser uma arma muito mais devastadora do que os temíveis mísseis iranianos.
Uma bomba de três trilhões de dólares
Segundo uma reportagem publicada pelo The Wall Street Journal e assinada por Eliot Brown, Georgi Kantchev e Lauren Thomas, a escalada do conflito pode colocar em risco mais de três trilhões de dólares investidos na economia dos EUA. O jornal também alertou para o possível enfraquecimento de uma relação econômica que vem se fortalecendo nos últimos anos. Após a posse de Donald Trump para seu segundo mandato presidencial em 2025, países como os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e o Catar comprometeram-se a investir mais de três trilhões de dólares em projetos e investimentos nos Estados Unidos.
O empresário de Dubai, Khalaf Al Habtoor, criticou publicamente a situação nas redes sociais, questionando o presidente dos EUA: "Quem lhe deu autoridade para arrastar nossa região para uma guerra?" Segundo o atual presidente do conglomerado Al Habtoor Group, as decisões de Washington colocaram os países do Golfo "no centro de um perigo que eles não escolheram".
Investimentos estratégicos: IA, infraestrutura e negócios internacionais
Antes da crise atual, os fundos dessa região geográfica impulsionaram uma onda de investimentos nos Estados Unidos, incluindo projetos em inteligência artificial, centros de dados, infraestrutura tecnológica, construção de um parque temático da Disney em Abu Dhabi e vários investimentos imobiliários e turísticos em cidades como Dubai, Riade e Doha. Especialistas do think tank Center for a New American Security alertaram que o conflito poderia afetar as finanças reduzindo as receitas de petróleo e gás, aumentando os gastos com defesa e reduzindo o investimento estrangeiro. A empresa de consultoria Capital Economics indicou que poderá reduzir suas previsões de crescimento do PIB para a região do Golfo em até um ponto percentual caso o conflito continue.
Há alguns dias, analistas apontaram que a corrida tecnológica na área da inteligência artificial poderá ser afetada caso a atual instabilidade regional altere os fluxos de capital e os planos de investimento internacional.
Catar anuncia a interrupção das exportações em breve
O ministro da Energia do Catar, Saad al-Kaabi, afirmou que as exportações da região do Golfo podem ser interrompidas "em poucas semanas" se a guerra contra o Irã continuar a se intensificar, mergulhando os mercados globais de energia em turbulência.

Al-Kaabi declarou ao jornal Financial Times (FT) em entrevista publicada na sexta-feira (6) que, se a guerra continuar por semanas, "o crescimento do PIB mundial será afetado".
“O preço da energia vai subir para todos. Haverá escassez de alguns produtos e uma reação em cadeia de fábricas que não conseguirão suprir a demanda”, disse al-Kaabi, segundo relatos.
O Catar interrompeu na segunda-feira a produção de gás natural liquefeito (GNL), enquanto o Irã disparava uma série de mísseis e drones contra o país e seus vizinhos do Golfo em resposta aos ataques dos Estados Unidos e de Israel, que começaram no sábado.
Os ataques iranianos têm como alvo crescente a infraestrutura energética, provocando um aumento nos preços do gás e gerando alarme em todo o mundo.
A produção de GNL do Catar equivale a cerca de 20% da oferta global e desempenha um papel fundamental no equilíbrio da demanda do produto nos mercados asiático e europeu.
“Esperamos que todos aqueles que ainda não invocaram a força maior o façam nos próximos dias, caso essa situação se prolongue”, disse al-Kaabi ao Financial Times, referindo-se a uma cláusula que isenta as empresas de responsabilidade ou obrigações em caso de eventos extraordinários.
“Todos os exportadores da região do Golfo terão que invocar força maior”, disse ele.
O ministro também afirmou que, mesmo que a guerra terminasse imediatamente, o Catar levaria "semanas ou meses" para retomar o ciclo normal de entregas.
Thijs Van de Graaf, pesquisador na área de energia do Instituto de Geopolítica de Bruxelas, explicou que o tráfego de navios-tanque pelo Estreito de Ormuz, uma via navegável estratégica no Golfo Pérsico, caiu drasticamente devido à guerra.
“Todos os produtores do Golfo que dependem dessa rota de exportação terão que interromper a produção, como o Iraque já fez em dois ou três grandes campos de petróleo”, disse Van de Graaf à Al Jazeera.
“E isso pode ter efeitos colaterais a longo prazo, porque não se liga e desliga um poço de petróleo como se liga um interruptor de luz”, disse ele. “Esta é uma má notícia e o tempo está se esgotando para muitos produtores da região.”









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