Cultura russa desafia o Capitão América no Morro do Estado
- Da Redação

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Por Luiz Augusto Erthal
Entre o final do anos 80 e o início dos 90, um baile funk que fazia sucesso nas comunidades do Rio e de Niterói decidiu batizar com o nome de países estrangeiros o território daquelas populações que careciam da atenção do seu próprio país.

Em um dos famosos "banhos de espuma" que contagiavam a juventude pobre naqueles anos finais do século passado, o grupo Funk das Antigas atribuiu à tradicional favela do Morro do Estado, no Centro de Niterói, a marca da bandeira norte-americana, símbolo do império que, ironicamente, vem condenando o Brasil e muitos outros países do Sul Global ao domínio econômico do neocolonialismo.
A marca pegou. Os jovens ingênuos da comunidade, alienados pela grande mídia e pelo sistema educacional da política de opressão e espoliação que os condena ao grande fosso social brasileiro, sob o tacão do poder do império norte-americano, adotaram até com uma ponta de orgulho as cores da bandeira dos Estados Unidos, que passaram a colorir o campinho de futebol do Morro do Estado e a figurar como brasão nas comunicações da associação de moradores local.
O Capitão América virou mascote do morro em uma estranha inversão de papéis, onde o algoz se transforma e herói aclamado pelos oprimidos, mergulhados em uma ignorância construída pelo soft power e pelo poder midiático dos opressores.

No entanto, a propaganda de folhetim do Capitão América está prestes a ser desafiada dentro da comunidade por uma cultura secular, que brindou o mundo com alguns dos maiores escritores, poetas, músicos e cineastas da civilização humana e que se propõe a subir as ladeiras do Morro do Estado através do ensino gratuito do idioma russo para os moradores da região (leia matéria assinada por Osvaldo Maneschy).
As portas de entrada para essa rica cultura multipolar na comunidade são a rádio Toda Palavra, cujo estúdio está localizado na subida do morro, ao lado do Niterói Shopping, o Instituto Beneficiente Somos Valente (IBESVA) e a Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com o Instituto Pushkin, de Moscou, que pretende apoiar a abertura de cursos gratuitos de russo, tanto a nível universitário, no âmbito da UFF, como dentro da própria comunidade por meio do IBESVA. A rádio Toda Palavra, que vem intermediando essa articulação, também deve apoiar o projeto com a transmissão do curso de russo pelas ondas do rádio.
A iniciativa lança um clarão de luz sobre as sombras da desinformação que anima o fundador do IBESVA, o reverendo Daniel Valente, que vislumbra o momento em que o Capitão América e a bandeira norte-americana deixem de representar o Morro do Estado.
"Nossa comunidade merece uma marca própria, baseada no seu autoconhecimento e na sua identidade verdadeira. Não uma identidade falsa, imposta pelos nossos opressores. Vamos, finalmente, poder levar, com o apoio do Instituto Pushkin, da UFF e da rádio Toda Palavra, uma base cultural secular para os moradores do Morro do Estado, do Arroz e da Chácara", afirma o fundador da ONG.










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